prólogo

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“Na miséria tu entende a fome”
V N D  CADEIA OU MORTE?

10 de fevereiro de 2011, Rio de janeiro
Complexo da maré.

Pingos de chuva escorrem lentamente pela janela quebrada do quartinho minúsculo. O barulho dos raios são altos, estridentes, quase estremecendo todo o chão. Fortemente, gotas batem freneticamente pela janela, tornando o barulho mais alto e a intensidade da água que cai do céu perto de arrancar as duas madeiras que estão muito bem pregadas ali para evitar uma possível fuga.

O corpo escanifrado do garotinho se mantém apoiado sobre um lençol surrado, tão fino e sujo quanto os seus dedos. Pela chuva forte, ele sente todo o seu corpo tremer em resposta.

O cheiro forte que a casa exala fazia com que poucos passassem por ali ou que se aproximassem. A porta, quando aberta, dava pra ver de fora o tanto de sujeira que se acumulava todos os dias junto aos ratos que se faziam presente quando sobrava um pedaço sequer de qualquer coisa que comiam. 

Bryan chorava baixo enquanto os ratos corriam pela casa, fazendo um barulho que doía seus ouvidos e despertava seu pavor a todo minuto que se encontra na presença deles. Seu maior medo no momento era ter que enfrentar algum deles novamente. O garoto corria de todos os bichos que ali fazia morada junto dele, indo pra longe do cômodo onde todos eles se encontravam.

Seu estômago implorava por qualquer resquícios de comida, na tentativa de se enganar nem que fosse um pouco, mas aqueles restos que haviam pela casa os ratos já devoraram tudo, mostrando, assim, que talvez a fome deles fossem a mesma. Talvez a miséria ali era mais presente do que empatia ou amor.

A casa fazia ruídos incessantes junto aos ratos, cômodos velhos que poderia cair a qualquer momento. Bryan já não aguentava mais tanto barulho assim ao mesmo tempo e queria correr dali de uma vez, mas, ao escutar um barulho mais alto vindo da sala, concluiu que sua genitora já estava de volta.

Sua pele arrepiou repentinamente da cabeça aos pés, deixando seu corpo em alerta só por um mísero som do andar dela. Diante dos passos da mulher, o corpo do garoto se tornou rígido, respondendo com medo as marcas deixadas por ela, tudo cravado em sua pele memória. A postura dele mudou imediatamente após isso, abaixando a cabeça conforme ela se aproximava, fazendo com que seu choro fosse baixo, quase inexistente.

Ela odiava o escutar chorar e ele odiava chorar.

Bryan não era um menino ruim, afinal. Por mais que tivesse uma criação tão precária, sem amor, uma família e nenhuma companhia que o desse algum sentimento bom, ele tinha algo de bom dentro de si e nutria isso todos os dias. Seu olhar ainda carregava pureza e bondade, mas ninguém reparava nisso, apenas em suas roupas rasgadas e sujas.

Cláudia nunca quis engravidar. Na mente da mulher, ela foi mãe de uma maneira forçada pra caralho, o pai de Bryan queria tanto um filho e, ela por ser completamente apaixonada pelo homem, inevitavelmente fez isso por ele. Não durou muito pra ele ir embora e a deixar pra trás com um filho de oito anos pra cuidar e sem auxílio nenhum pra isso.

Se passaram quatro anos e desde então, aos seus doze anos, Bryan sofre por esse abandono de ambas as partes, todas as consequências foram jogadas em cima dele e Cláudia não vê problema nenhum em despejar toda raiva para o menino. E ele se pergunta o motivo de ter nascido e ter tido uma mãe como ela, se poderia a chamar assim...

Bryan estava sentado no colchão, inclinado, de cabeça baixa, sentindo seu estômago queimar a medida em que lágrimas caíam pelo seu rosto de maneira forçada, pois ele não queria chorar. Tudo pra ela não ver que ele está chorando mais uma vez por medo de ratos, e como sabia que o maior medo do menino era esse, o deixou de castigo trancado em casa com eles. Cláudia cruzou os braços ao lado do colchão, fazendo o garoto encolher mais o corpo diante da sua presença.

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