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Sofia

UMA SEMANA DEPOIS

Uma semana se passou desde aquele dia e, bom, por incrível que pareça, eu fico mais em casa vendo netflix e comendo besteira do que na rua comentando sobre a vida e a fofoca alheia. Apesar da minha presença ser ilustre, eu realmente não vi motivos pra sair, já que o Bryan nem no morro tá. Pra ser muito sincera, ele e os R&R são o meu puro entretenimento, e já que não estão por aqui, não tem motivos pra eu sair de casa e olhar pra cara de outros homens chatos e desinteressantes. Vão me falar que não sou foda? Sério? Estou sendo fiel até na minha últimas células aos meus amores que só me rejeitam. Meus velhos favoritos tomaram chá de sumiço - o que é uma pena que, sim, que não tenha sido o meu chá pra eles, o chá bem especial da Soso linda -, desde quando quebraram a casa deles lá na parte de baixo. Acho que eles estão com medo de uma possível guerra e, na verdade, eu nunca vi o morro ter tanta operação no mesmo mês.

Sobre eu e o Guilherme, não tem muito o que dizer, ainda tô chateada com ele. Nós conversamos de maneira distante, mas é só isso, ele no canto dele passando mais tempo na rua do que em casa, e eu no meu canto passando mais tempo em casa do que na rua. Nossa personalidade foi muito trocada, já que ele vivia em casa, mas eu sempre fui mais da rua mesmo. Naquele dia da semana passada, quando ele foi pra casa no maior ciúmes possível, a garota já estava se arrumando pra ir embora, então eu esperei ela sair. Ele ficou me ignorando por longos minutos até eu ir deitar, só que não demorou muito pra ele ficar em cima de mim me pedindo desculpas. E ele disse que não é mais o meu pretinho. Aí eu fiquei rindo da cara dele, mas só foi ele falar da Ellen que fiquei brava de novo.

Acho que só estamos assim até agora porque ele tá mais tempo na rua, se tiver uma oportunidade de conversamos sobre tudo isso de maneira limpa e suave, tenho certeza que vamos nos acertar de verdade e eu vou superar isso aos poucos. Mas ele parece estar me evitando, acho que um tiro nesse cu dele resolveria muito dos nossos problemas. Por eu viver mais da metade da minha vida com ele, conheço o jeito todo do Guilherme. Sei quando tá triste, nervoso, ou até mesmo com medo. Ou distante. Eu sei que quando durmo ele nunca está em casa, só chega mais pela madrugada, e quando acordo, ele já saiu faz tempo. E eu nunca vou admitir que tenho medo da casa dele no escuro, mais ainda por eu achar que o Rogério vai entrar aqui e me esfaquear inteira. Guilherme iria rir e me zoar muito, porque sempre fiz isso com ele. Eu nunca quis morrer nova, ainda mais feia, então ele seria, mais uma vez dentro de duas décadas, um péssimo ser humano em fazer isso com uma menina mulher como eu.

Ajeitei meu corpo sobre o sofá fofo. Minhas costas doem pra caralho, e eu gemo de dor, sentindo meu pulso esquerdo dolorido. Não é de siriricar, eu juro que não, nem sei como isso me doeu tanto repentinamente e sem ao menos ter carregado peso. Levei meus olhos até a televisão grande que preenche a parede à minha frente, a série pausada me deixa entediada, mas eu não consigo parar de ver. É isso ou ter que lidar com tudo que há na minha mente. Eu sou linda e perfeita, mas todos tem seus momentos, e ter uma mente fodida é o meu defeito. Eu me estresso muito com os meus próprios pensamentos e devaneios. Sufocante, mas nada que eu não suporte.

E, em pensar nele... Guilherme mexeu na maçaneta, empurrando a porta, abrindo-a com calma. É um milagre. Até porque ele nunca volta pra casa antes das três da manhã, e sempre sai antes das nove da manhã. Olhei pro rosto dele, observando o roxo que na sua bochecha que deixou de ser esverdeado. Torci os lábios, tentando entender quando que ele vai me falar a verdade de como conseguiu isso no meio da cara dele. China disse que brigou na rua, o que não faz o tipo dele, nunca conheci alguém tão calmo na minha vida. Ele faz amizade com todo mundo e tem uma boa relação com o morro todo, não é possível que tenha brigado com alguém do nada e agora esteja tão rebelde assim.

Essa relação tá me irritando. Eu só quero que voltemos a ser como éramos antes, antes do Bryan, antes da Ellen, antes de tudo que aconteceu nesses últimos dias e semanas. Eu tô com saudades dele de um jeito tão fodido pra uma pessoa que tá do meu lado e, ao mesmo tempo, muito longe de mim. E eu nem sei o que fiz pra ele agir assim comigo, tô disposta a me desculpar caso ele aponte algum possível erro, só que até agora não faço ideia do que possa ser.

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