Talibã
Aqueles olhos que me perseguiam por toda lembrança que eu tinha de uns anos atrás, a mesma cor, o mesmo sorriso, o jeito de falar, o nariz, o cabelo, a covinha dos dois lados da bochecha... Até a maneira que ela chorou me lembrou alguma parada do meu passado, isso fodeu minha mente logo no meio de uma trocação, uma parada que nem eu sei o que é e me incomoda esse sentimento todo, puro caos. Quem é ela?
Minha mente dá sinais disso, talvez de que conheci ela por algum momento da minha vida, mas eu não lembro qual. E, papo reto, nunca me aproximei ao nível de olhar nos olhos, analisar todo rosto dela. Engoli a seco, escutando a voz dela ecoar pela minha mente, batendo de frente com todo ódio que eu tô sentindo desses filhos da puta de um jeito estranho.
“Você é todo maluco, mas é um maluco de coração bom, as vezes.”
Soltei uma risada baixa, abafada, apoiando meu corpo em cima do cara que tentou e não conseguiu meter uma bala na minha cabeça na covardia. Cortei a garganta dele lentamente, vendo o pavor gritar em seus olhos, atravessando todo orgulho e vaidade que sente, talvez pedindo por misericórdia ou perdão divino, alimentando algo que ronda minha mente toda vez que eu mato alguém. Um sentimento além, mas eu já tô familiarizado com isso tem uns anos.
Coração bom?
Passei a mão por cima da boca dele, vendo a veia da testa dele dilatar, impedindo o seu grito de atravessar os becos e chamar a atenção dos aliados dele que tava por perto daqui, rondando os três primeiros becos, me dando a resposta de que isso foi até milimetricamente pensado. Sentir ódio é mais fácil do que lidar com a minha mente que só tem merda, machucar alguém é melhor do que me machucar, matar outro cuzão é melhor do que me matar.
E eu não vou negar, é satisfatório tanto os gritos, quanto ser a última lembrança de uma pessoa que tá morrendo na minha frente, jurando me levar pro inferno juntão com ele. Nunca entendi por qual motivo sinto isso, só sinto, e me pergunto se mato os outros pra não tentar me matar de novo. Toda aquela porra de lembrança que tento tirar da minha mente, arrancar com força daqui de dentro, cada falha que cometi, cada momento que a Cláudia olhou nos meus olhos e me disse que eu era pior que ela, que eu era inútil, que não seria nada na vida e que ia morrer pra qualquer coisa que eu sinto.
“Sua inocência vai te matar, você é ingênuo em achar que alguém vai amar um lixo como você, garoto. Você acreditou no seu pai e ele te deixou aqui comigo, se ele que jurou te amar te abandonou, o que você pode esperar dos outros?”
As vezes acho que é verdade mermo. Nasci de um pecado e virei outro. Nasci de erro, me enfiei na vida dessa maldita e ela fez um inferno descer na terra, especialmente pra mim. Tem tanta parada além disso, tanta cicatriz que fiz virar tatuagem, devo ter, no mínimo, quarenta tatuagens pelo corpo, parei de contar. É que me liguei que contar as tatuagens seria a mesma coisa que contar minhas cicatrizes, meus traumas, cada lembrança que essas porra tem pra mim, cada significado.
Não tem o que fazer, minha mente é fodida, dominada pelo ódio e ganância, não nasci desse jeito, eu me tornei! Engraçado que a mesma mulher que me transformou nisso, queria me matar. Nunca quis tanto fazer uma pessoa reviver só pra matar ela, papo reto, sinto uma raiva que queima meu corpo por inteiro só de pensar que eu poderia ter matado ela.
Dezesseis anos. Primeira morte, primeira vez distribuindo ódio e demonstrando ele, primeiro arrependimento. Sempre fui bom, mas tava cheio de ódio, menor veio falando merda pro meu lado e eu surtei mesmo, falou da minha única amiga na época e que eu matei minha mãe, meti a mão na arma de um dos menor da boca.
Lila.
Minha primeira amiga, era loucão o jeito que eu ficava perto dela, bagulho surreal, mas doido... Ela era legal comigo, queria ter levado pra frente nossa amizade, mas não deu, fui embora e nunca descobri o que aconteceu com ela. Me amarrava no nome dela, único, até no jeito de ser ou lidar com as coisas, era engraçado. Eu todo lerdão e ela me apresentando o mundo.
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Santo Forte.
Non-FictionO desejo tá explícito nos meus olhos e a cada toque meu sobre teu corpo que arrepia, cada fala que treme, cada respiração descompassada que você tem perto de mim, você implora pra que isso seja apenas uma noite, assim como eu. Até ver que seus olhos...
