capítulo setenta e seis

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Respiro fundo, sentindo o meu corpo leve

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Respiro fundo, sentindo o meu corpo leve. A falta de um peso que esmaga a minha cabeça me assusta. Então, abro os olhos, levantando os olhos à procura de um homem específico que a madrugada inteirinha dormiu na linha tênue entre estar a centímetros de cair da cama ou dar com a mão no meu rosto e me chutar dali.

A madrugada foi louca, sofri tentativa de assassinato o noite toda.

Engulo a saliva ao escutar um barulho seco vindo da batida porta do quarto. Antes mesmo de olhar, meu corpo dá um leve sobressalto pelo susto, arrepiando meus pêlos, fazendo eu botar a mão no peito com os batimentos cardíacos altos. Quase um infarto. Sento na cama no automático, mas o que eu vejo me faz arregalar levemente os olhos, surpresa.

Simplesmente o Sanchez com uma bandeja de cama nas mãos. Ele concentrado pra não deixar tudo cair, enquanto anda em passos não muito longos até a cama. Quando ele consegue levar a mesa até a ponta da cama sem que algo caia, seus olhos sobem até os meus e ele sorri abertamente ao posicionar a bandeja com cuidado. Meus olhos perpassam por tudo o que tem na mesa, o suficiente pra duas pessoas. Pão, nescau, morangos e até danone. Não é extravagante, é pouco, algo simbólico é único.

Levanto o rosto e olho pra ele que, na mesma hora, me encara sorrindo. Um sorriso sincero, cheio de gentileza. Não sei o motivo, mas ele parece menos triste que ontem. Não tinha o mesmo brilho nos olhos, ele parecia cansado, preso na própria tristeza. Hoje tá diferente. E eu entendo... Aniversário de morte da irmã dele, eu também me sentiria assim.

Antes de dormir ele estava tão triste e muito diferente daquele Sanchez que sempre brinca com tudo. Ali conheci a parte pura do Vicente, aquela que expõe toda dor que carrega. Ele foi ele mesmo, mesmo sem todas as piadas, sem brincadeiras, sem aqueles sorrisinhos. Foi choro, foi cru, foi triste e doloroso, mas em nenhum momento deixou de fazer parte da essência dele, acho que só acrescentou para o que conheço dele. Porque a dor também faz parte de quem nós somos, e o Sanchez me mostrou isso. Mesmo com tantas dores, carregando tanta raiva e ressentimento, melancolia... Mesmo tendo passado por tantas coisas, ele ainda tá aqui.

Não sei os seus motivos, se é o ódio ou a tristeza que o mantém vivo, mas ele está vivo e isso é o suficiente pra mim e para as outras pessoas que amam ele. É o bastante até que alguém mude a percepção dele sobre a vida, como lidar com a raiva que o consome e o sentimento de solidão que o corrói. Tudo isso sem quere ele queira se isolar do mundo e se sentir uma pessoa ruim porque alguém o convenceu disso.

Sofia: Que isso, Vicente? - Falo surpresa, alto, com a minha voz se tornando falhada. O seu sorriso cresce e eu sorrio junto, aproximando pra ver melhor a bandeja toda arrumadinha. É cuidadoso é fofo. Eu abro a boca, indignada.- É pra mim?

Sanchez: Era pra ser pro Bryan, mas só me sobrou você, aí tive que fazer mermo assim - Eu não aguento e dou uma risada, dando um pulo da cama e caminhando até ele que me olha do jeitinho característico dele. Um olhar cheio de humor, mas também de carinho, gentileza. É o jeito fofo que ele me olha que faz com que eu me pergunte o motivo e se eu realmente mereço.- Tive que cuidar desse poço sem fundo da Soso.

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