Talibã
Sofia Alencar...
Tava confuso pra caralho, nada na minha mente parecia real. Desde quando bati com ela naquele dia da invasão, tem uma coisa no fundo do meu consciente que me traz uma agonia fodida. Ter certeza de alguma coisa e ao mesmo tempo não ter, parece uma tortura pra mim, principalmente com a vida que levo, então várias questões ficam no ar. Ela poderia ser inimiga de facção ou tá atrás de mim por algum tipo de vingança do passado. Talvez o primeiro moleque que matei pode ter sido algum parente dela e agora a garota quer minha cabeça.
Sanchez: Eu sei que você não sabe chegar muito em mulher e muito menos conversar com uma, então vou te ajudar nisso porque sou seu amigo - Respirei fundo ao escutar a voz grossa do Sanchez adentrar os meus ouvidos e ecoar pela sala. Inclinei o rosto, erguendo meu olhar até ele que negou com a cabeça, impulsionando o corpo em cima da cadeira gamer que tem a cor azul e preta destacada, cruzando os braços pra me encarar.
Talibã: E o que tu sabe sobre isso já que tu só sabe matar em alguma missão e ficar nessa porra de computador aí? - Apontei com a cabeça pro computador com o monitor grande que sempre tinha umas luzes de cores diferentes piscando sem parar.- Não quero falar com ela.
Sanchez: Tá bom, porra. E você acha mermo que vai descobrir alguma coisa da vida dela desse jeito? O banco de dados aqui do morro é limitado, não tem como eu descobrir uma coisa que é de infância e é dela - Arqueei a sobrancelha, balançando a cabeça em total convicção.- As vezes você consegue ser burro demais.
Talibã: Se ela for algum tipo de inimiga aqui no meio, nós tá fodido pra caralho. Ela viu a nossa cara, pra explanar ou se vingar é um pulo e eu não vou cair em prisão nenhuma - Murmurei. Fechei os olhos, me ajeitando mais na cadeira, tentando ficar confortável de uma vez só.- Não lembro de muita coisa.
Sanchez: Já falei, Talibã, não tem como eu vasculhar a vida da garota se aqui só tem o básico mermo, coisas leves. Se tu não falar com ela, não vai descobrir a intenção dela e muito menos desenrolar essa porra de enigma na tua mente.
Fiquei calado. Ele até pode estar certo em alguns pontos sobre essa questão, mas eu nunca vou admitir isso em alto, Sanchez tem um ego elevado ao máximo, chega a ser maior que a cabeça dele. Tô botando muita neurose na mente, mas o Rei e Rd são sagaz, tenho certeza que eles iriam perceber caso ela estivesse com uma intenção ruim pra esse lado, mas eu não acredito em ninguém. Inocência pra mim é um bagulho que a maioria usa pra se passar como bonzinho, ninguém tem a mente cem por cento suave, tem que ter pelo menos um pouco de sagacidade.
Talibã: E tu acha que eu iria chegar nela como? Já falei que lembro dela de algum lugar e a garota meio que deixou um pouco na cara que lembrou de alguma coisa que nem eu, mesmo que mínima.- Balancei a perna, olhando nos olhos do Sanchez que negou com a cabeça, dando um sorriso de lado.- Qual foi, lembro de você mermo, dá pra tu me dar uma palestra sobre como tua vida foi fodida? Tô interessado, sei lá, quero lembrar de você de vez.
Sanchez: Você é chato pra caralho, como pode isso? - Nem respondi, tava pouco me fodendo pra esse moleque, só queria saber o que ele quer que eu fale e como.- Acho que eu consigo virar amigo dela do peito, garota faz amizade com o morro todo, geral conhece ela como alguma coisa. Já troquei algumas idéias com ela, mas nada de ser amigão mermo.
Talibã: Mas eu arranco tua cabeça se tentar mais que isso.- Apontei pra ele que riu, colocando as mãos sobre o pescoço, encostando totalmente o corpo na cadeira gamer abaixo dele.- Marca algum bagulho com ela, tu vai e eu também. Tu pergunta lá e eu só vou escutar. É isso.
Sanchez: Você tá visivelmente interessado nela e não parece ser só por causa do que tu não lembra, Talibã. Isso aí vai dar merda pro teu lado, mesmo que ela não saiba, a garota é protegida pra caralho pelo o que vi aqui, só não sei por quem - Guardei essa informação na minha mente, tenho certeza que mais pra frente isso vai servir pra mim e pra ela. Sanchez descobriu isso na última vez que vim aqui pra procurar, bagulho foi se desenrolando aos poucos. Fiquei com isso na cabeça até agora, acho que ela também não sabe.
Talibã: Proteção boa pra caralho essa, tão bom que o pai só falta espancar ela todo dia. Tá sendo protegida pelo inimigo dela ou o que? - Cruzei os braços, novamente pensativo sobre isso. Escutei a cadeira fazer um barulho alto e estranho, meu olhar bateu diretamente no Sanchez que fez cara feia, tentando ver, ao longe, a parte de baixo da cadeira.
Sanchez: O mais provável é que o Rei deve saber de algum bagulho, esse ali não fala nem fodendo, até porque se o Rd soubesse ele já teria falado tudo, sabe como ele é.- Fiz um sinal com o polegar na direção dele, um legalzinho, levantando sem pressa, dando as costas pro Sanchez que soltou uma risada baixa.- Não sei se essa Sofia é sortuda ou azarada, papo reto. Garota só respirou por alguns segundos do teu lado e tu com essa obsessão do caralho, quero ver só o final disso.
Talibã: Eu te matando.- E talvez destruindo ela, porque é o que normalmente eu acabo fazendo com tudo. Quero me manter mais longe possível, mais ainda por entender o jeito dela somente pela maneira que ela conversa com outras pessoas. E eu mais do que ninguém entendo meu jeito, não bate com o dela de jeito nenhum e ambos sabemos disso.
Abri a porta da boca, vendo vários menor trabalhando por ali até agora. Desviei o olhar deles, sabendo que o Rei e Rd já tinha metido o pé daqui com a garota faz tempo, papo de vinte minutos. Abri a porta da boca principal, saindo desse lugar fodido, vendo minha moto estacionada exatamente onde eu deixei antes. Nem era isso que estava me chamando atenção no momento, era a garota encostada na minha moto como se fosse dela, maior intimidade com as minhas coisas que eu não dei a ela.
Enfiei a mão no bolso, me aproximando sem pressa, enquanto ainda tinha o olhar sobre a garota. E eu lembrava dela, era a mesma garota que estava me encarando no beco quando fui matar o Branco. Que porra essa praga quer comigo? Acho que parte delas gostam da minha fama porque acredita que tenho algum tipo de salvação ou que vou melhorar por elas. Piada do caralho essa.
Talibã: Sai.- Empurrei a mão dela que tava apoiada no guidão, desvencilhando de perto do seu corpo, sentindo seu olhar queimar nas minhas costas como se eu fosse sentir pena. Quando virei, ela ainda tava ali, me olhando de braços cruzados como se eu tivesse falado algum bagulho errado.- Tá olhando o que, porra?
— Eu queria falar uma cois...
Talibã: Tô sem tempo.- Dei as costas de novo pra ela, escutando uma risada que eu conhecia bem pra caralho. Procurei com o olhar até aqui perto, vendo o Rd e o Rei rindo um com o outro, mas a garota tava olhando pra cá, diretamente pra mim. E aquela sensação fodida de ser olhado por ela sempre me perseguia quando a gente se aproximava, não sei que porra é essa, mas vou descobrir. E pra minha quase surpresa, a garota ainda tava do meu lado como se estivesse me esperando.- Papo reto, você é surda ou tem algum problema mental?
— Uma surda que te escuta e responde o que você fala? - Ignorei ela pra não perder a cabeça. Enfiei a chave na ignição, subindo na minha YZF-R6, com os olhos mais pra direção de quem realmente me interessa no momento. A garota tava olhando pra cá, mas desviou quando o Rd mostrou alguma coisa a ela no celular.- Ela é realmente o tipo de mulher que te atrai?
Dei um sorrisinho de lado, debochado, acelerando mais que o normal, deixando transparecer meu ódio por não meter uma bala no meio da testa dela. Entrei pelos becos até chegar na frente da minha casa, estacionando ali, descendo enquanto puxo a chava da ignição, vendo que os cachorros não estavam ali.
Me aproximei mais, puxando a chave de casa, mas vi um papel branco na direção da porta. Agachei pra pegar, empurrando a porta atrás de mim e rasgando a parte de cima do bagulho, abrindo de uma vez só e vendo que tinha mais parte em branco do que algo realmente escrito ali, mas meu olhar parou em uma frase pequena que foi construída com letras de jornais.
“Vou atrás de você. Você será o próximo.”
- R.
Mas eu não entendi onde esse R se encaixa. Guzman, Guzman... Aposto tudo nele, se fazer de morto é a única estratégia de um merda com todo império caindo aos poucos. Rei saiu no prejuízo, mas o maior desfalque o Guzman que recebeu, a cara dele vale milhões e, sem a própria presença e o filho dele, agora nada vale mais que antes. Ele tá fodido de todas as formas e me matando, teria um por cento da honra dele de volta.
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Santo Forte.
NonfiksiO desejo tá explícito nos meus olhos e a cada toque meu sobre teu corpo que arrepia, cada fala que treme, cada respiração descompassada que você tem perto de mim, você implora pra que isso seja apenas uma noite, assim como eu. Até ver que seus olhos...
