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Sofia

Tô me sentindo louca, maluca e pirada na rua às nove da manhã. Eu não sei o que fiz da minha vida e o porque da minha cabeça doer tanto, provavelmente de ressaca que o gin me proporcionou, mal lembro de coisas específicas que aconteceram ontem, não de um jeito nítido na minha mente. Bom, os mais importantes eu lembro, mas tem uns momentos que viraram um lindo borrão na minha memória de bêbada fodida. Respirei fundo, inalando o cheiro de pão quentinho de novo, sentindo um desconforto por estar andando descalço nessas ruas podres que fica depois do baile, mas é o jeito, já que meus pés estão doendo na bota. 

Vi algumas pessoas na rua indo trabalhar, alguns doidos com um lança na mão, uns embrazando até agora e até fumando na esquina que tô quase passando, mas tudo muito deserto mesmo. Ignorei a maioria dos garotos me olhando, na intenção de matar o Guilherme e pensando em como farei isso sem o Rei ir atrás de mim pra me matar também. Matar mesmo, matar ele da pior forma, dilacerar aquilo que ele chama de rosto. Esse vacilão do caralho que ficaria puto caso eu fizesse algo igual ou parecido com o que ele fez com a minha pessoa, nunca vou superar isso. Guilherme me trocou por aquela puta infeliz, não sei quem mais tá me fazendo raiva. Mas tô tranquila e bem sabendo que quando ele parar do meu lado, vou arranhar a cara dele todinha. 

Engoli a seco, semicerrando os olhos ao me sentir estranha. Olhei pra trás, talvez procurando alguém me olhando, mas não tem ninguém. Flashs do barulho de tiro, pessoas gritando, eu e o Talibã fugindo do baile assolam a minha mente como se tudo estivesse sendo mais claro pra mim. E até agora eu não acredito que ele realmente é o meu Bryan de verdade, o mesmo garoto que esperei por tanto tempo. Ontem tudo foi muito esquisito e profundo, pelo menos pra mim, mas eu conheço os olhos dele o suficiente pra dizer que, por mais que ele não admita, tudo isso de estranho que a gente sente é impossível esconder ou mentir. Eu sinto e ele sente, é assim que funciona. Senti uma sensação percorrer por todo meu corpo, não sei explicar se é medo ou uma súbita curiosidade, mas um arrepio se formou na minha nuca do nada. E eu só me sinto assim na presença do...

Quando fui virar a rua, senti uma mão no meu braço, me puxando para o beco. O aperto é mediano. Eu pensei em gritar e chutar as bolas do homem que tentasse me machucar, mas pela mão um tanto grossa, essa mão, eu entendi que é o meu sequestrador favorito. Não achei que ele iria me implorar pra ficar, já que eu senti uma necessidade de ir embora. Não por vergonha, longe disso, mas é que eu acho que não estou preparada pra lidar com toda essa avalanche de sentimentos que ele me provoca, e isso acaba virando uma bola de neve. E, bom... Mesmo que ele seja o meu Bryan, ainda sim é o Talibã, aquele cara que mata sem pena e essas coisas, então, por mais estranho que seja, eu não duvido que ele vá me matar, né? 

Encarei os olhos dele, tentando entender o que tá acontecendo pra me puxar assim ou até vir atrás de mim depois de tanto ter me expulsado da casa várias vezes, mas sua expressão não é uma das melhores. Nunca é, pra falar a verdade. Ele sempre parece muito puto com tudo e todos.

Talibã: Não era pra tu ter saído.- Juntei as sobrancelhas, tentando entender. Bryan me encarou por longos segundos que parece mais uma eternidade, soltando meu braço aos poucos. Respirei fundo, trocando o peso para a perna esquerda. Ele não se entende e eu não entendo ele de jeito nenhum.

Sofia: Até acho essa uma boa maneira de tentar ficar mais pertinho da Soso linda aqui, meu pequeno Bryan, mas...- Tossi um pouco, arranhando a garganta, me sentindo desconsertada com ele tão perto de mim de uma forma que mal consigo respirar.- Tenho que ir pra casa dar com essa bota na cabeça do meu melhor amigo, sabe? E também tô fugindo de você, então me faz esse favor aí.

Talibã: O morro ainda tem polícia e o Daniel ou Rodrigo não tão aqui pra fazer nada por você, Sofia. Rodrigo vai subir pra te buscar quando estiver suave.- Bufei. Troquei o meu peso de uma perna pra outra novamente, sentindo uma dorzinha aguda na sola dos meus pés.- Tu vai voltar comigo, sem papo e sem mas, pequena Sofia.

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