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Talibã

Senti uma porrada no meu ombro com uma força do caralho acertando em mim agora, mas eu, distraído, não percebi o que era. Na mesma hora que de canto de olho vi uma sombra por perto, movimentei meu rosto totalmente pra ver o que era, passando a mão por cima da cabeça da garota num ato rápido, já que ela escorregou aos poucos, do nada essa porra. Era isso ou ela ia meter a cara no chão e se foder toda, garota tava suave, chegou bem, só não sei que parada tava acontecendo com a mente e o corpo dela.

Meus olhos, agora atentos, estão fixos nela por inteira desmaiada com a cabeça em cima da minha mão, com o corpo quase jogado em cima do meu. Mó paz, o único momento que ela fica calada por tanto tempo. Passeei os olhos por todo corpo dela, até parar no menor que abriram os olhos assustados, trazendo a atenção pra cá. E tudo ao meu redor passava no lento, tanta coisa na minha mente enquanto eu analiso qual foi do problema com ela.

O ombro dela tá sangrando pelo corte de hoje cedo, o pescoço com uma parte roxa mais na lateral, escondido por trás dos cachinhos dela que estão perfeitamente arrumados. O pulso com um hematoma da mesma cor, me dando a certeza em quem eu queria chegar, em quem eu já estava pensando. Engoli a seco, sentindo o ódio tomando toda a minha mente e o meu peito, deixando minha postura mais que rígida, aguçando todos os meus sentidos e elevando meus pensamentos de morte.

Vi o Rei ajudando os moleques a colocar ela dentro do carro, mas meu olhar tava em todos os hematomas no corpo dela. Neguei com a cabeça, respirando fundo, enfiando a mão no bolso aos poucos, procurando a chave da moto, mas sentindo vagamente a linha vermelha que a Lila me deu quando ainda tínhamos uma amizade. Hoje ela me odiaria por tudo que sou agora, mas eu ainda tenho em mente a garota mandona que ela sempre foi comigo, minha primeira amiga e, por mais idiota que seja, a que eu mais gostei na vida. E o que deixa minha mente mais fodida é que ela é, de alguma forma, a mesma Lila que eu conheci anos atrás. Ela parece pra caralho, o jeito não mudou, o sorriso e os olhos. Não é possível que essa garota seja a Lila, por mais que eu negue, é o que sinto.

Vi o RD descendo com o carro como se a vida dela estivesse em perigo, mas minha mente tava em outra parada. Eu nunca quis ser próximo dessa garota, tô ligado disso, mas o foda é o que eu penso e o que sinto quando estamos no mesmo ambiente, tudo de diferente que ela exala não tem nome, não é específico, tu só sabe sentir. Sempre vi ela de longe, eu sentia que conhecia ela de algum lugar, mas ignorava isso sempre que podia, até o momento em que ela me viu. Era quase impossível não perceber a presença dela, a garota chega no lugar já sabendo o que é e qual a energia que tem, é outro nível pra mim, um bagulho que não posso explicar, mas talvez só nós dois sentimos isso. O lugar é outro quando ela tá por perto e a Sofia sabe disso.

Subi na minha moto, ligando com a maior rapidez possível, passando voando pra onde eu realmente quero ir. Eu não sou de promessas, não vivo disso, meu bagulho é fazer antes mesmo de falar, então, se por algum momento minha mente cogitou a possibilidade de cortar a garganta daquele merda, eu deveria ter feito isso antes. Eu sei a merda antes de acontecer, eu sinto, mas não fiz porque ela pediu. Não por ela, mas por outros motivos meus, coisas que também fode minha mente. Eu tive prova de tudo que ele é, nisso minha mente não agiu na covardia comigo. Eu tenho um instinto muito justo quando se trata de perigo, minha sensibilidade pra isso é foda.

Tem um lugar pelo morro que só para os noia, drogado pra caralho mermo. E eu sei onde encontrar esse filho da puta manco do caralho, mas não darei a honra dele morrer na frente de qualquer um aí. Quero bater com ele sozinho, se bater em mulher é fácil, quero que ele faça comigo o que fez com ela e com qualquer outra pessoa pelo morro. Descarregar todo meu ódio nesse fodido, dessa vez não tem aquela garota pra encher o saco e pedir pela vida dele, as vezes acho que ela é otária demais.

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