Talibã
Prendi a fumaça, fitando o morro a minha frente e a movimentação que se formava fácil nas ruas. Meus pensamentos estão apenas em um caminho só, uma mente perturbada pra caralho, novamente dentro de um impasse, tô entre a ânsia de matar ou morrer, de ter mais ou perder tudo que eu já tenho. Eu queria ser diferente, mas se por algum momento o Bryan esteve vivo, foi porque eu, Talibã, tive a coragem que ele não teve em toda infância de merda que sofreu na mão da Claudia. Foi eu que corri pra longe do barraco dela, não o Bryan, foi a minha coragem que matou ela e me deu uma chance de viver.
Diferente pra caralho dos outros dias de operação que, ao meio dia ou até mais tarde no mesmo dia, não havia uma alma viva nas esquinas pra contar história. Solto lentamente a fumaça, sentindo meu corpo relaxar aos poucos por isso. Minha mente é um caos maior do que posso explicar, ela nunca para de pensar nada, eu nunca vou parar de ter pesadelos, eu vou morrer pra isso, vou morrer pra tudo que criei em mim, eu mermo vou me matar. Porque é isso que eu faço, simplesmente mato tudo aquilo que me desafia e me incomoda, porque eu cansei de ser refém de tudo que me dói.
Escutei um barulho de carro derrapando pelo asfalto da rua, formando uma fumaça e um cheiro ruim. Miro meu olhar ao carro Chevrolet S10 2020 do Rei que parou ao lado da minha casa, um pouco mais acima, perto da casa da garota ali. Estranhei. Confirmando meus pensamentos, ela sai do carro, sorrindo, fazendo que o cabelo dela voasse junto com o vento fortão que batia por aqui. Rei e RD nunca vem na minha casa, só quando tem alguma merda das grandes, então a única possibilidade seria ela.
Estreito meu rosto, erguendo meu olhar até o Rodrigo que sorria olhando pra ela. Ela me traz a sensação de ser a única pessoa que não me odiou ou sentiu raiva quando errei pela primeira vez. A Lila não gostava das merdas que eu fazia e brigava comigo, mas ela nunca me odiou por isso. Nego com a cabeça, inspirando, enquanto jogo o cigarro de maconha no chão. E então ela olha pros lados, levando o olhar pra onde eu sempre fico quando tô fumando, mas hoje tô um pouco mais pra trás.
Soltei um arzinho pelo nariz ao ver a expressão dela depois de não me ver ali, maluca. Ela me irrita pra caralho, não vou mentir... Mas eu não consigo odiar o que ela é. Porque se eu odiasse ela, iria odiar tudo aquilo que a Lila foi um dia, o jeito dela é o mesmo, a necessidade de estar rindo e abraçando alguém, de estar conversando, mesmo que eu não goste disso, mesmo que eu odeie, ainda assim ela era feita disso. Então, no meio de tantas pessoas, eu não consigo odiar especificamente ela.
Coçei meu rosto quando vi a garota entrar pra casa, fazendo sinal pro moleque deixar a bolsa dela na entrada da casa. Joguei a cabeça pra trás, pensando em como vou perguntar pra ela o que eu tanto quero, eu nem sei fazer esses bagulhos, o Sanchez até pediu pra fazer, mas ele enfia a porra da língua dele na boca de todas as mulheres que vê. Não vou dar a oportunidade dele fazer a mesma coisa com ela antes de eu descobrir o que eu quero e, se ela for quem eu tô pensando, ele não é maluco ao ponto de encostar nela, só se não quiser que eu cumpra o que realmente prometi a ele: cortar a cabeça desse filho da puta.
Escutei um barulho estranho por perto que foi ficando mais alto a medida que eu me concentrava aos poucos a isso, arqueei a sobrancelha, olhando pro lado, escutando um grito bem mais alto agora. Isso chamou muito a minha atenção, porque mais do que ninguém eu sei qual é o grito de dor e desespero, e esse é um deles. Joguei meu corpo um pouco mais pra frente, tentando ver a janela da garota, enxergando daqui que tá fechada com a mesma cortina rosa daquele dia.
O som no carro tá alto, nunca que esses cuzão ia escutar o grito dela. Vi o Rei e RD saindo do carro, não demorou muito pra outro carro branco chegar e eles entraram ali, saindo da rua. Neguei com a cabeça, pensando em várias possibilidades, não sei por qual motivo tô me metendo nisso de novo, essa porra não é da minha conta e muito menos da minha vida, mas ajeitei a pistola na cintura, movimentando meu corpo até a árvore que desce direto pra janela dela.
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Santo Forte.
Não FicçãoO desejo tá explícito nos meus olhos e a cada toque meu sobre teu corpo que arrepia, cada fala que treme, cada respiração descompassada que você tem perto de mim, você implora pra que isso seja apenas uma noite, assim como eu. Até ver que seus olhos...
