capítulo setenta e cinco

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"Vê bem quem senta à sua mesa pra não acabar em pregosA confiança que transborda ainda te mataCorações no Rio são tão frios quanto Alaska"- NO PISCAR DOS OLHOS, FEBRE90'S ft

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"Vê bem quem senta à sua mesa pra não acabar em pregos
A confiança que transborda ainda te mata
Corações no Rio são tão frios quanto Alaska"
- NO PISCAR DOS OLHOS, FEBRE90'S ft. LIS MC

O cheiro característico do seu cabelo parece sumir a cada dia longe dela.
O som da sua risada não ressoa igual.
O brilho dos seus olhos quando ela sorri já não ronda mais a minha mente.
Parece distante, como uma lembrança caída no limbo.
Mas lembro do seu olhar. De cada eu te amo falado e guardado no peito.
Lembro dos seus olhos com lágrimas.
Lembro quando ela pediu que eu voltasse vivo. Que poderia até tomar um tiro, mas morrer não está nos planos.
É com essa promessa que fiz a ela que durmo todos os dias, esperando ver seu sorriso mais uma vez.
É com essa promessa que, mesmo com um tiro na barriga, eu me obrigo a manter os olhos abertos.
A promessa de voltar para e pela Sofia Alencar. É isso o que me mantém respirando.
Só não sei até quando.

Sair daqui morto não é uma opção.

Essa frase se repete a cada minuto. Minha respiração, acelerada, faz com que o ar entre queimando pelo meu nariz. Meu peito sobe e desce, e a adrenalina percorre o meu corpo como as balas que voam ao ar até acertar o carro à minha frente.

Engulo a seco, sentindo a minha garganta seca. Essa mesma bala de fuzil iria atingir o meu corpo com uma fragilidade anormal se eu me movesse dois centímetros. Puxo o ar. A ansiedade toma o meu corpo, sinto todo o peso da responsabilidade me consumir. O medo de morrer. A minha respiração vai se misturando com a batida frenética do meu coração que falta sair pela boca. Toda a intensidade das minhas escolhas cai nos meus ombros, enquanto a minha vista escurece.

Passo a mão na cabeça, abaixando o rosto. Tampo o ouvido. Fecho os olhos. Puxo o ar. Solto o ar. Meu corpo treme e eu não consigo expressar a dor no peito que me corrói. Bato na parte lateral da minha cabeça, xingando baixo. Preciso sair daqui. Agora não. Eu não consigo chorar, expressar em palavras, mas o meu corpo treme dos pés a cabeça e eu me sinto pequeno como um garotinho indefeso.

China: Reage, Guilherme. Porra.

Sussurro.

Trocação desse jeito é foda pra caralho pra nós. Pegarem desprevenido é o pior, mas eu me preparei pra todo tipo de situação, só que não tô no Rio de janeiro, eu tô no Paraguai. Se os filhos da puta fizeram questão de fazer uma troia assim pra gente no espaço deles, eu já não duvido que a nossa cara tá exposta por aí pra qualquer um vir atrás e matar. Eu conheço o território por mapa, eles conhecem no sangue, na vivência, eles nasceram aqui. Não é a minha área como a favela é pra mim, e as chances de dar merda é maior do que as chances de sairmos daqui vivos.

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