capítulo seis

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SOFIA

Tava andando na rua como se fosse rainha da favela mesmo, já que não tinha ninguém por aqui pra tentar dizer o contrário. Minha vontade de ir pra casa só diminuía quanto mais eu estava perto de chegar lá. A rua tava tão vazia e isso era estranho, mas eu até que tava gostando dessa experiência de não ter uma velha fazendo fofoca da vida dos outros a cada esquina. E o pior é que elas nunca falam coisa boa de mim...

Invejosas!

Agora eu preferia ficar na rua, porém, não tenho ninguém pra me fazer companhia e eu gosto de andar com alguém do lado pra fofocar muito. Esse negócio de que minha própria companhia me basta é até verdade, mas eu gosto de pessoas, cansei de falar sozinha o tempo todo. As vezes amo muito ficar sozinha, principalmente em casa, mas odeio me sentir sozinha e sei que tem até momentos que preciso passar por isso.

De fato eu lembro que sou muito feliz só tendo o Guilherme como melhor amigo forever, mas as vezes é bom ter outras pessoas porque sinto que tô sendo muito chata e sobrecarregando demais ele. Como tô cansada de viver só no meio de homens, eu queria uma amiga, fofocar sobre coisas de meninas, essas coisinhas mais mulher pra mulher.

Respirei fundo, dando as costas pra parede que tinha uma flor gigante e eu neguei com a cabeça. Tava uma rua atrás da minha, tão perto da minha casa e já me apressei pra ir embora logo, cansei. Passei a mão no rosto e ia atravessar a rua, mas meu olhar bateu em uns homens de preto subindo a mesma rua que eu tô. Tava sem entender e, por um minuto, achei que fosse os garotos daqui.

Abri o maior olhão lembrando do que o China falou sobre operação e saí correndo, escutando um barulho alto de tiro na minha direção. O homem saiu do beco na maior disposição como se eu tivesse deixado ele extremamente puto, enquanto movia o corpo pra perto do meu. Não sei por qual motivo ele errou, mas com certeza não foi por causa da minha corridinha invejável de sedentária.

Mirei meu olhar até a perna dele que estava sangrando e uma faca presa. Eu não sabia o que tava acontecendo ou o motivo dele estar vindo atrás de mim, não sabia se era polícia ou inimigo, mas meu cu trancou de medo ao ver ele vindo pra cima de mim. O maior medo do favelado é, literalmente, estar no meio do tiroteio e eu não acredito que isso tá acontecendo comigo, acho que não pode piorar e, se piorar...

Saí correndo quando minha alma voltou pro meu corpo e entrei no primeiro beco que vi, escutando mais tiros. Me agachei atrás do muro furado, sentindo meu estômago gelar de medo, tonteando a minha mente e as minhas pernas tremeram. O barulho de passos era mais alto a cada minuto e eu senti minha alma saindo do corpo de novo, até meu cu tremeu com isso, puta que me pariu, por que isso logo agora? Não poderia esperar eu chegar em casa?

Eu sei que sou linda, maravilhosa e tudo de bom, mas esse homem precisa mesmo me perseguir desde jeito? Maníaco, psicopata, insensível...

As lágrimas desceram forte pelos meus olhos e o desespero tomou conta de mim depois de tanto pensar nisso. O barulho de passos com bota que antes era alto, agora diminuiu bastante e a rajada não era tão intensa pra esse lado. Eu estava tentando ter coragem de levantar e ir embora pra qualquer lugar que fosse aqui por perto de onde eu tô, mas meu medo agora é maior que tudo, até maior que minha vontade de cagar.

Fechei os olhos com o pavor passeando por todo meu corpo, ficando ali agachada por uns cinco minutos escutando tiros e mais tiros. Quando decidi, dentro de várias outras opções de merda que minha mente me dava a todo momento, entre levantar e sair correndo sem pensar, só fiz. Não tinha ninguém aqui por perto e desviei o olhar, fitando o começo do beco onde tinha mais barulhos de tiro. Levantei de uma vez só, rápido, sem nem me importar com quem tava atrás de mim.

Senti meu corpo batendo em alguma coisa dura pra caralho e meu pulmão perdeu o ar, fechei os olhos sentindo meu peito doer e os abri. Um poste, talvez? Doeu como se fosse a porra de uma parede de concreto na minha frente, não vou mentir não. Meu corpo desequilibrou na hora e eu senti minhas pernas falhando aos poucos pelo impacto que meu corpo foi pra trás, sem mais chances de raciocinar que havia acontecido.

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