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Sofia

Lila.

É estranho escutar um apelido tão íntimo pra mim depois de anos. Tô paralisada na frente dele, o olhando faz uns dez minutos, ainda com seu olhar silencioso observando cada expressão do meu rosto de um jeito atencioso. Completamente submersa em todos os meus questionamentos, Talibã me desvenda minuciosamente com esse olhar que eu estou evitando agora. Preciso muito respirar. Preciso respirar longe daqui, longe dele, quero entender essa situação muito maluca e embaraçosa pra mim, pra nós dois, mas meu cérebro não faz nada além de perguntas vazias. Talvez eu realmente esteja surtando internamente. Talvez o caralho, eu tô surtando muito. 

Por que caralhos ele me chamou assim? Como ele sabe meu apelido de infância?

E é mais estanho ainda isso sair da boca do Talibã. Não de um jeito normal, mas do jeito que ele sempre me causa, do jeitinho que me arrepia todinha. Três pessoas que sabiam desse apelido que tá enterrado e, com todo respeito, longe. Rogério, minha mãe e o meu melhor amigo de infância, o Bryan. Só eles ainda me chamavam assim, mas uma pessoa em específico conseguia mexer com todo o meu coração de mini Soso quando pronunciava esse apelido.

É como se esse apelido fosse algo muito íntimo, escondido e trancado a sete chaves na minha mente, algo exclusivamente meu que compartilhei com eles. Lembranças de uma infância que eu tive mesmo que em uns momentos dolorosos, lembranças de duas pessoas incríveis que, no meio de um monte de merda, dispersava toda a tristeza que havia em mim da maneira mais gentil que eu sentia. Ter que deixar minha mãe e ele no meu passado foi algo que me doeu bastante, perder duas pessoas na mesma onda também foi. Mas o Bryan foi embora, mesmo que tenha me prometido, ele nunca mais voltou pra mim. Ele me deixou. E, mesmo sabendo disso, tanto santo dia eu ficava na frente da casa dele, só esperando o dia que ele voltaria. E ele nunca voltou.

Isso saiu da boca dele como um jeito que eu queria esquecer por anos, com o jeito de uma pessoa familiar muito pra mim, com os olhos cheio de esperança e expectativa como nunca vi no Talibã, não olhando pra mim. Minha mente grita, minha pele parece flutuar aos poucos nesse ambiente que, de algum jeito, agora parece pesado. Poucos minutos, mas ainda sim a intimidade no nosso olhar me convence de que estamos horas nesse contato. Eu sei, eu lembro de tudo, mas eu quero esquecer, quero negar até morrer, só que não consigo fazer nada disso, porque ele mexe comigo mais do que consigo descrever. Que porra. Agora eu sei todos os motivos que estavam no meio da minha cara e não percebi antes, agora eu finalmente sei porque aquele olhar dele me desconserta tanto.

Bryan. Bryan. Bryan. Bryan. Nada mais passa na minha mente além desse nome, dos sentimentos que ele me causa, da dor da saudade e da ausência, da felicidade e tristeza que ele me causou por ter ido pra longe, por ter me abandonado, por ter ido embora... Mesmo tão linda e diva, naquela época eu, totalmente serelepe, já sofria pelo meu melhor amigo e pelo primeiro garoto que eu gostei. Foi real. Muito real. Mas acabou, e eu não acredito que esse garoto na minha frente tenha algum tipo de conexão com o meu passado.

Talibã: Queria entender o porque de nunca ter sentido vontade de te jogar de um carro em movimento. Acho que agora eu entendo o motivo e tu também.- Engoli a seco. Não, eu não conheço ele, o Talibã não é o Bryan e isso é a porra de um pesadelo. Fiquei em êxtase, calada, olhando nos olhos cor de âmbar que eu sabia desde o momento que coloquei os olhos nessas orbes, eu já sabia que conhecia de algum lugar. Eu já sabia que era ele. E me senti uma estranha por ter comparado mentalmente o Bryan com o Talibã. Eles dois não tem nada a ver.

Levantei da cadeira, deixando minha bolsa por ali mesmo. Eu tô desesperada. E é bem nesse momento que me sinto no meio de uma crise aos onze anos, sentindo uma falta de ar anormal. Entrei no mesmo lugar que ele tava, exatamente no escuro, indo pegar minhas bebidas e simplesmente ir embora daqui o mais rápido possível. Eu preciso ficar longe do Talibã.

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