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Idolatrado por eles, querido por elas

Voando alto, daqui vacilão me erra

Eu tô ligado neles, isso aqui não é novela

Respeitado no asfalto, amado na favela

Perde quem cobiça o alheio

Chuva de, chuva de glória

Nós não é foda porque tem

Nós tem porque nós é foda

— SANTO FORTE,

FILIPE RET.

Talibã

Tô muito puto. Puto pra caralho.

Odeio quando se metem em algum bagulho que eu queira fazer. Nunca hesitei pra nada, mato mermo e foda-se! Eu faço do jeito que quero e como quero, no momento exato em que sinto a vontade e um desejo alarmante pra colocar em prática aquilo que pensei o tempo inteiro, mas todo essa situação fica mil vezes pior quando ela se põe no meio do moleque que eu queria matar. E eu me odeio mais ainda quando percebo que me segurei pra não metralhar todo mundo, que domei a minha pior parte, mesmo que eu saiba o quão difícil é pra mim, e admito que venho fazendo isso faz tempo. Por ela, pela Minha Lila. Mesmo que eu não seja capaz e não fosse atirar nela lá, mesmo que aquela porra de bala não fosse acertar um único fio de cabelo da Sofia, mas sim na cabeça daquele moleque, eu não faria a merda de ser impulsivo. E muito menos de continuar apontando uma arma na direção deles dois e era a minha vontade na hora, mesmo que não fosse na direção dela, obviamente, e eu faria questão de me certificar disso. Mas o papo aqui é que eu não queria cometer o erro que julguei o menor. Ele apontou uma arma pra ela, e eu queria tirar a porra da vida dele de merda por causa disso. Seria hipocrisia da minha parte continuar, mas a minha mente dizia outra coisa, e até agora me mantenho nessa.

Eu bati no moleque sem pensar em nada, muito menos nela, foi aí que ela me olhou com medo. E foi a primeira vez na porra da minha vida, em todos os meus 22 anos de vida, que senti um caos fodido em mim por uma pessoa me ver dessa forma, com os mesmos olhos que me encaravam cheios de inocência e curiosidade, mudou por uns minutos, naquela hora, Sofia me olhou com medo, receio, decepção, até raiva e várias outras merdas que senti na hora quando o seu olhar bateu ao meu, e quase me liguei nisso, eu não quis mermo mais decifrar pra não me sentir pior sobre. Ela só me olhou assim uma vez, e foi naquele dia no beco, a primeira vez que ela me viu perto dela, que a Sofia me percebeu no mesmo lugar sem dar papo pra boatos por aí que ela tinha e só se aproximou de mim, mesmo sem que soubesse o motivo. Ali ela não me conhecia de verdade, ali ela não sabia quem eu era e se eu fui alguém importante para ela nesse nosso passado, mas aqui ela sabe. Mas eu não me importo com isso, porra, não agora, nunca me importei com o que falavam e o que falam de mim hoje ou a maneira que me viam ou vêem diante das coisas que eu faço. Aos meus dezesseis anos de idade, lá no meu passado, até pelo o que me lembro de antes quando eu morava com a Cláudia, eu estava acostumado a ser visto como um monstro para todos, uma pessoa ruim pra caralho ou como alguém que matou um menor pela primeira vez com um ódio na mente, o mesmo menor que não conseguia segurar os próprios sentimentos dentro da mente perturbada, mas agora não mais.

E a Sofia me olhar daquele jeito, faz com que eu reviva tudo, aquela porra de olhar que exala medo e insegurança em estar perto de mim, coisa que eu nunca quis que ela sentisse quando o assunto é o Bryan, o moleque que se tornou inteiramente dela no passado. E quando eu tento colocar um pouco do meu mundo na mente dela, quero que a Sofia entenda que nem todo mundo tem o mesmo olhar, jeito, alegria... Eu sei pra caralho como que raramente alguém tá puro, e a minha intenção é ajudar, fazer com que ela entenda, mas é difícil. Difícil quando ela é um poço de coisas que eu não sou mermo, e eu nunca tive que explicar nada disso, nunca precisei, porque já vivo no meio de pessoas que entendem como o mundo do tráfico funciona. Ninguém sabe da mente do outro, e quando tentei dizer essa porra, falei errado, falei no momento que eu estava puto, ainda tô, mas sinto que com ela os bagulhos tem que ser diferente, conversado de uma maneira estilo Sofia.

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