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Sofia

Dom: Eu sou o seu pai.

Um sorriso muito nervoso com isso escapa involuntariamente pelos meus lábios. Piada ruim demais desse cara. Prendo o riso alto em pura diversão boba, esperando o louco aí meio que desmentir esse papo. Bateu a cabeça e veio pra cá, foi? Não, não, deixa eu adivinhar, ele usou drogas? Um minuto se passa, dois, e enquanto isso, ele observa cada expressão minha, esperando por algo de mim que não sei o que é agora. Quando ele não desmente isso, eu engulo a seco, e é o suficiente pra eu negar devagar com a cabeça. Pô, isso tudo é mentira, né? Até eu inventaria alguma coisa mil vezes melhor, fala sério, todas as minhas mentiras que criei até agora, foram melhores que essa aí. Nego com a cabeça, semicerrando os olhos, procurando algum tipo de piadinha ali ou até brincadeira, e sem uma palavra sequer vindo dele, junto as sobrancelhas, absorta em tudinho que penso e sinto ao mesmo tempo, desdobrando mais um caos na minha vida.

Não, não... Eu não acredito nisso mesmo, até uma criança faz uma história melhor que a dele. Minha mãe nunca mentiria pra mim e ela não morreu levando isso junto com ela, né? Éramos amigas, muito próximas, ela não iria esconder isso de mim. Não acredito nas palavras que saíram da sua boca, procuro em minha mente o motivo dessa mentira toda, mas ele realmente não tem motivos de criar nada sobre isso. Murmuro palavras desconexas baixinho, levando meus olhos aos garotos, vendo o Mello e 2N sérios, e é como se eles soubessem disso o tempo inteiro que passou comigo. Engulo a seco, sentindo meus batimentos desenfreados, meu coração quase saindo da boca, mas mantenho a postura que ainda acho que tenho. Fingir que tudo está normal com a minha vida e comigo, mas desmoronar aos poucos é o ápice, pior ainda quando você admite pra si mesma.

Isso não tá certo. Eu tenho resposta pra tudo, perguntas pra tudo, mas agora se esvaiu, e eu não consigo questionar, não consigo falar, parece que tudo escapou pelas minhas mãos, que eu desaprendi a fazer o básico. Enquanto minha mente envia várias perguntas, a minha boca se mantém calada, e me vejo afundando em todas as sensações estranhas. E sabe o pior? Ele parece sincero. Sem mentiras, sem demonstrar receio, só sincero e muito transparente. E talvez seja isso que me deixe confusa; a sinceridade dele. Quando falei que as pessoas tem dificuldade de lidar com a sinceridade, eu não menti, e o desenrolar dessa conversa seria cheia de verdades, descobertas, revelações, e eu não sei se estou preparada pra isso, mas é aos poucos, no meu tempo, porque já vivi muitas emoções em um dia só. Só preciso respirar. Respirar normalmente, sem um peso nas costas, ou receio por algo. Eu só quero estar deitadinha na cama com o meu melhor amigo.

Sofia: Meu pai morreu faz um tempo.- Falo, baixinho. Essas são as únicas palavras que consigo juntar de uma maneira que eu não pareça uma idiota sem ter o que dizer. E sei lá, mesmo que eu pareça, é justificável, eu não deveria me sentir mal por isso. Tenho em mente que outra qualquer pessoa no meu lugar se assustaria. Meu tom é sério e um pouco desesperado, porque ao mesmo tempo que quero respostas, quero e tento fugir delas, de todas elas, e isso é errado. E mesmo que eu queira me convencer que tudo isso é mentira, eu sinto a verdade dele, sinto que não é bobeira. Só sua presença me deixou com uma sensação estranha, e não é atoa, não é aleatório. Eu quero fugir, porque não pude quando criança, e agora tenho a oportunidade.

Dom: Pô, eu tenho todo tempo e paciência do mundo pra lidar com essa situação que estamos, mas você mentir pra si é pior do que mentir pra mim - Meus olhos pesam, e a maneira que ele me analisa, confirma que a sua leitura tá certa, mais ainda, ele expõe toda a sua verdade pra mim. Não sei como, mas de alguma forma, dentro de mim, de um jeito muito estranho, eu sinto algo que parece ser compartilhado.- Dá pra ver que você sabe exatamente qual é o papo, pô, tu sabe que é a verdade, só quer se convencer do contrário.

Torço os lábios, soltando uma lufada de ar, talvez precisando tomar muita coragem pra enfrentar isso, coisa que no momento eu realmente não tenho mais. Fecho os olhos com força, e quando os abro, ele ainda me encara com certa esperança, e nada do que existe nele me traz um sentimento de familiaridade. É estranho, porque se ao menos eu tivesse convívio com ele na infância, eu lembraria do mínimo, mas não vejo nada que me traga essa sensação. Só vejo um total desconhecido na minha frente que alega ser meu pai da maneira mais estranha que alguém poderia fazer.

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