Sofia
Abro meus olhos lentamente, sentindo uma luz forte sobre meus olhos sensíveis a toda essa claridade, tentando acostumar com a luz branca refletindo em meu rosto todo. Desnorteada, sinto minha cabeça doer a todo segundo que tento firmar os meus olhos em algo a minha frente, não consigo ver, mas quando mexo meu corpo, puxo todo o ar ao ouvir minha perna estralar e a minha testa só doer mais, junto aos meus olhos. Passo a mão nos olhos, visualizando tudo que está na minha frente, enxergando aos poucos, e infelizmente não é no quarto do Bryan que eu tô. Não sei por qual motivo a sensação de desespero não me aflige, mais ainda quando minha mente monta todo aquele quebra cabeça maluco e apavorante que fui sequestrada, mas estranhamente não sinto que estou em um perigo eminente, não a mesma sensação de quando estavam me observando de longe. Talvez minha mente doida esteja querendo me consolar de alguma forma, por exemplo; querendo que tudo não entre em pane e que eu não surte por isso.
Mexo minhas mãos, percebendo que não estão presas. Bufo mais aliviada, batendo a cabeça no travesseiro fofo, observando o teto do quarto. Semicerro os olhos, e minha atenção muda aos poucos, principalmente ao ver que o quarto é branco com alguns detalhes pretos, super minimalista, só tem uma cama de casal e um armário, nem uma televisão tem. Pobres! Tem a ideia de me sequestrar e ainda me põe em um lugar que não tem televisão. Passo os meus pés por cima da cama, prendendo minha mão esquerda ao lado do colchão, movendo o meu corpo para o mesmo lado, tentando sentar e firmar o corpo sentado. Assim que consigo, percebo que a dor era só de estar na mesma posição, a dor constante é na minha testa mesmo. Respiro fundo, só me conformando com a situação, olhando ao redor, enquanto firmo a mão na testa, onde está doendo.
Olho para o chão, vendo meu chinelo ali na ponta, então ponho o pé, encaixando com cuidado. Levanto devagar, olhando cada detalhe do quarto e parece ser em uma casa grande. Movo meu corpo na direção da porta, afastando totalmente da cama que eu estava. Toco na maçaneta gelada, puxando-a, e a ideia era estar trancada, já que me sequestraram, né, mas assim que escuto o barulho e vejo a porta abrindo, eu paro o movimento só para encarar esses dois meliantes aqui com o corpo apoiado na parede, fuzis cruzados nas costas e um radinho na cintura, com os olhos na minha direção. Os dois estão de preto, o básico mesmo, mas não estão de touca como os outros dois estavam. Semicerro os olhos e engulo a seco, soltando a maçaneta aos poucos, enquanto a porta se abre mais.
O garoto de olhos castanhos me encara na mesma rapidez que abro a porta, e quando o outro que está ao lado dele me olha nos olhos, sinto um arrepio percorrer pelo meu corpo, observando seus olhos verdes que me alcançaram, tendo sua atenção em mim, enquanto me analisa por completo. Meu coração quase sai pela boca, e aqui, agorinha mesmo, nesse exato momento, tenho a certeza que é o garoto que botou a arma na minha cintura e que me enfiou naquele carro, o Verdinho. É sim o garoto que me sequestrou, ambos são, e pelo visto não é só eu que tô desaparecida, é o micro pau dele também! Perpasso a mão sobre meu braço, tornando meus lábios menores, reprimindo-os por puro receio.
O motorista linguarudo do meu sequestro tem os olhos pequenininhos e castanhos, quase confundo com preto, parece. Os cílios grandes que contornam seus olhos pequenos, sobrancelha alinhada, o cabelo dele é todo cheio de reflexo com um corte que valoriza o rosto dele. Um bigodinho de nescau falhado, e com um olhar assustado, ele me encara, me pergunto se todo aquele sequestro deu errado, o carro capotou e eu morri, aí agora voltei pra perturbar a mente deles pra sempre, porque é essa impressão que tenho quando os olhos dele caem em mim. Observo suas mãos saírem do fuzil, indo na direção do pescoço, com o olhar abismado quando seus dedos tocam em algo fininho que contorna seu pescoço, e no mesmo momento, aparece algumas tatuagens cravadas ali.
— Tava orando aqui pra essa diaba falante não aparecer, e magicamente ela tá aqui na minha frente. Olha o diabo agindo nos meus pensamentos, mano, Deus tenha piedade da minha alma, repreende, Senhor Jesus.- Ele fecha os olhos com força, e no mesmo momento que inclina o rosto, beija o cordão fininho que suas mãos balançam de um lado para o outro, e na pontinha do cordão tem um crucifixo que brilha ao reluzir da luz no ouro, tomando minha atenção. Ele tá como se estivesse assustado com algo ou até vendo um filme de terror dos brabos. Prendo o riso, e o verdinho não esboça um mínimo sorriso ali, mas eu juro que poderia avançar nele e descontar esse porradão que ele me deu. Esse garoto é mesmo o motorista do sequestro, a voz dele é a mesma, e eu não me engano nisso...- Da nossa alma, irmão. Não posso esquecer da tua salvação também.
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Santo Forte.
NonfiksiO desejo tá explícito nos meus olhos e a cada toque meu sobre teu corpo que arrepia, cada fala que treme, cada respiração descompassada que você tem perto de mim, você implora pra que isso seja apenas uma noite, assim como eu. Até ver que seus olhos...
