capítulo setenta e três

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“Mais uma vez tô aqui sem você, 

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“Mais uma vez tô aqui sem você, 

livre e triste…
Até quando eu vou ter que fingir 
que eu tô feliz sem você 
do meu lado aqui?”

F I L I P E  R E T, LIVRE E TRISTE

Toda minha pele estremece com o sentimento de idealização me consumindo. Tentando me afastar do que quase me doma, respiro fundo e fecho com força os meus olhos por alguns segundos, na tentativa de me afastar de tudo o que tá me incomodando. Parece mais difícil do que imaginei que seria, na verdade, nem chega perto do tudo que imaginei. Talvez se eu parar de criar uma imagem distorcida de todos na minha mente, melhore. Eu espero muito das pessoas. E esperar tudo de todos não significa que serão obrigados a suprir as suas expectativas. Só intensifica o sentimento de desimportância em mim. 

Escutando a música “Invicto” do Filipe Ret no fundo, bem baixinho mesmo, eu tenho conter todo esse caos que reside em mim como um animal selvagem, observando, mesmo com a mente longe, o monitor do Sanchez à minha frente. A mágoa queima no meu peito como brasas ao vento. Minha garganta arde como se estivesse bebendo um molho de pimenta, e os meus olhos queimam tanto quanto essa mágoa que cresce ao passar dos dias. Com o ar fresco e leviano encontrando o meu rosto, eu solto a respiração pelo nariz, relaxando – tentando, na verdade. Tô ansiosa, e todo o meu corpo parece mais tenso do que antes de tentar relaxar. Pesado como chumbo.

Sabe, eu nunca senti falta de muita coisa. Eu tinha uma mãe, ela morreu com uma doença do diabo, e foi isso. Eu sinto falta dela, e isso me dilacera tanto por dentro, como se, toda vez que a minha mente fosse até ela, quando eu penso nela, na saudades, na dor, agulhas finas e afiadas penetrassem na minha pele eternamente. Por isso sangro todos os dias, sem exceção. Eu senti falta do meu pai. Do Rogério mesmo, entende? Ele foi o meu pai, apesar de não termos laços sanguíneos. Mas antes deles, antes da minha mãe morrer e o Rogério mudar, eu senti falta do Bryan. Uma falta que me deixava sem comer, sem dormir, esperando na janela a procura dele. Sempre na laje esperando ele. Sempre esperando ele em cada minuto do meu dia. A esperança de o rever queimava minha pele, e aumentava a ansiedade dentro de mim.

Ao passar dos anos, esse sentimento mudou. Eu já não esperava tanto assim, já não queria tanto assim. Já havia perdido a minha mãe e o meu pai, não tinha ninguém no mundo, e o sentimento de perder alguém pra morte e pro destino é bem diferente. Pra mim, existe uma ponte entre esses dois acontecimentos que, mesmo tão diferentes, se interligam. Morrer não é o destino de ninguém. Ficar longe de quem você ama? Também não. Falam que a morte é o fluxo da vida. Só acabou, chegou ao fim. 

Isso me deixava muito brava. É normal pra uma criança de dez anos. Odiava a morte e jurei que nunca mais iria perder alguém, que faria de tudo para cuidar das pessoas que eu amo. Que não iria deixar ninguém se afastar de mim, porque eu odeio quando somem, e odeio mais ainda quando se aproximam só pra ir embora. O Bryan deixou claro muitas vezes que queria ir embora. Eu, burra, quis que ele ficasse. Mas aprendi com a vida que é impossível você querer impor às pessoas aquilo que é a sua vontade. Por anos e anos da minha vida, imaginei como ele estaria. Eu o aceitei e o quis perto de mim mesmo com tantas diferenças, com todas as suas dores, isso quando nem nos aproximamos. Aceitei ele como se tornou. Antes de saber que era o meu Bryan, o aceitei como era.

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