capítulo oito

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Sofia

Acho que não teria como eu ficar mais traumatizada com tudo que aconteceu comigo hoje. Eu tava andando na rua com as pernas tudo tremendo, parecendo até um peru assando. O cheiro de sangue é insuportável e a textura também, tinha sangue até na minha calcinha e eu não duvidava nada disso, pra ver o grau das coisas.

Arrastei o Guilherme pra casa dele com o maior medo de algum desses homens perseguir a gente de novo. Fui no maior cuidado porque dessa vez realmente não tem Talibã pra ajudar a gente, até porque eu nem tava contando com isso antes, imagine agora que já foi. Aquele olhar dele parecia queimar sobre mim, ainda lembro exatamente de como me deixou em êxtase e, só ao pensar nisso, os pêlos do meu corpo arrepiaram, fazendo com que negasse com a cabeça pra tentar afastar esses pensamentos.

Nunca olhei diretamente nos olhos dele, mas aquilo me despertou uma coisa que nem sei explicar. Me provocou reações intensas e nem sei os motivos, será que ele sentiu o mesmo que eu? E se sentiu, soube esconder muito bem, porque não deixou a expressão vacilar por um segundo sequer, mas se tivesse deixado eu não teria percebido, tava muito ocupada sendo perseguida por um fã.

Já cheguei tomando banho e botei uma roupa minha que tinha por aqui. Sangue é tão ruim de tirar e tinha no meu corpo todo, entrei em surto no banheiro e quase chorei de novo. Minha roupa de antes joguei fora, cheia de sangue e não ia servir de merda nenhuma mais pra frente, nem esfregando saiu, era o jeito mesmo.

China: Pô, menor ia me ajudar de qualquer jeito, tamo no mermo lado e eu troco um papo com ele as vezes. Só não entendi ele ter ajudado você lá - Murmurou, sentando devagar na cama com o corpo vermelho em alguns lugares, vários hematomas até no rosto.- Eu tenho que meter o pé, guerra tá rolando aí e eu aqui.

Bufei, encontrando seus olhos que estavam em mim. Nunca quis que o Guilherme fosse bandido e ficasse nessa de guerra e ter que defender o morro com a própria vida, essa bandidagem não te oferece nada demais, dinheiro ele poderia conseguir trabalhando honestamente, mas antes os tempos eram diferentes, emprego pra ele nunca foi fácil fora do morro. Já pedi pra ele sair, mas esse idiota me disse que uma vez que entra, nunca mais sai, achei essa frase muito a cara de filme de terror.

Sofia: Ainda tem isso...- Falei baixo, me sentindo cansada de ter andado isso tudo com ele em cima de mim. Guilherme acha que a gente ainda tem onze anos, só pode.- Tem chances de alguém te bater mais do que bateram e atirar em você?

China: Sim.- Falou sincero. Guilherme levantou como se nada tivesse acontecido e eu fiz cara feia, me acomodando ao lado dele que, segundos depois, ficou em pé na minha frente.- Tu pode ficar aqui até o bagulho parar, se não quiser ir embora, suave! Mas se for e tu ver que anoiteceu e eu não voltei, evita de ir pra tua casa que aí o bagulho vai ficar mais foda.

Sofia: Você me liga e me avisa quando eu posso sair - Guilherme balançou a cabeça, olhando nos meus olhos que estavam com a atenção nos machucados dele. Fiquei de joelhos na cama, me esticando pra abraçar o Gui que soeriu de lado, soltando um ar quente pelo nariz, batendo no meu rosto. Passei minhas mãos por cima do pescoço do Gui, beijando seu rosto todinho, sentindo seu rosto apoiado no meu pescoço e a respiração quente se juntando com a minha pele.- Se cuida, tá? Eu amo você, muitão assim. Se você morrer, eu morro mais ainda...

China: Jae, morango. Amo você pra caralho, fica aqui e não sai por nada. O papo sério, doidinha - Apenas balancei a cabeça em concordância, escutando a risada dele ecoar pelo quarto. Eu ri baixo, arqueando a sobrancelha, talvez sem entender quase nada, maluco demais esse Gui.- Acho que o Talibã te odiou pra caralho.

Reprimi os lábios, tentando não rir da reação dele ao me ver novamente indo atrás pra pedir ajuda pro Gui. Passei a mão nos meus lábios secos, prendendo o riso e subindo a mão até meu rosto, sentindo uma dorzinha me incomodar, queimando minha pele abaixo da camisa, quase perto do meu umbigo. Minha barriga ainda dói até demais, o hematoma tá com uma cor forte, levemente roxo e dolorido na região.

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