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Sofia

Acho que eu tô casada com um gostoso, sabe?

Apesar dele ter me ajudado, o que mais me deixa indignada é que essa pessoa foi o Talibã, o matador de galinhas. Eu não sei o quão estranho isso pode ser, talvez mais ainda o fato de que ele me fez sentir algo que eu não entendi. Apesar de tudo, dessa vez foi diferente, eu senti algo diferente e, acima de todas as ignorâncias e esse rabo e coração frio dele, o homem foi capaz de me ajudar enfiando a faca no Rogério, o que significa que isso foi o suficiente pra ele sumir da minha vista por muito tempo, devo muito ao Talibã, acho que enfiar a língua na boca dele seria o agradecimento certo.

Tava sentada na minha cama, sozinha, olhando pro nada e pensando em várias coisas aleatórias enquanto sentia meu braço direito ardendo, além de outra coisa latejando em alguma parte do meu lindo corpo. Passei a mão no rosto quando tirei coragem do cu pra terminar de pegar as coisas, mas eu deixaria pra pegar o resto quando o Gui viesse comigo. Eu sinto muita preguiça de existir, de falar, mais ainda de me mexer pra outro lugar, pegar algo. Eu tenho preguiça de ter preguiça, o nível aqui é extremamente avançado.

Joguei o resto das coisas na minha bolsa, sentando na cama pra tentar fechar sem rasgar tudo num surto. Mas respirei fundo, parando de tentar pra não me irritar mais ainda com essa merda, mas a única coisa que veio na minha mente foi a lembrança dos olhos do Talibã em cima de mim, ou como ele me defendeu. Eu sempre tive medo dele ou da fama dele, nunca quis me aproximar muito desse esquisito porque ele é apenas o maior matador de galinhas de todo esse morro. Chega a ser estranho o fato de que eu não consigo enxergar ele como uma pessoa ruim, as vezes ter uma mentalidade assim é horrível, porque eu vejo coisas boas até nas piores pessoas.

Não sei, algo nele me diz que, apesar dele ser assim, é uma pessoa boa. Ou talvez eu esteja enganada em relação a ele, não sei, acho que só não quero sentir que o que eu senti com o olhar foda dele sobre mim por uma pessoa tão ruim, sentir algo tão real ao ponto de sentir mesmo, coisa sincera, de sentir de verdade. Só quero me iludir, isso mesmo! Tudo ilusão. Tem alguma coisa de diferente nele desde quando nos vimos no outro dia da operação, o olhar tá diferente, não sei explicar, mas nem parece o mesmo Talibã pra mim. Já posso abrir um bordel com esses quatro homens, o Talibã é meio rebelde, mas acho que ele seria muito pau mandado.

Essa marra toda dele com certeza não iria durar muito tempo comigo, amo homens que fazem o que eu quero. E ele tem cara de quem seria muito fiel, na real, o homem parece odiar todo ser que respira, acho que no dia que ele namorar alguém, o mundo vai cair na minha cabeça. Tipo, ele odeio tudo e todos, então traição não é uma coisa que posso cogitar quando ele estivesse em uma relação. Se o Daniel e Rodrigo não me quer, vou ter que investir no Talibã, outro que não me quer também, pior... Ele menos ainda. Talibã simplesmente me odeia.

Mandei o Rei e o RD esperar no carro lá fora porque eu não ia pegar muita coisa aqui, muito menos iria imaginar que esse broxa do Rogério tava escondido pela casa, ele normalmente nem fica, não quando ele compra droga na hora. Olhei pela janela do meu quarto, escutando o som alto do carro deles dois vindo aqui em cima como se estivesse num paredão. Peguei a bolsa do chão, levantando rápido, indo em direção a porta de casa e correndo direto pra fora.

Saí da casa enquanto batia a porta que só falta cair na minha cabeça e olhei pra cima, vendo o maluquinho lá fumando, quietinho e sozinho, como sempre. Esse matador de galinha é muito maconheiro.. Dei um tchau pra ele que ficou me encarando e não fez nada, só me ignorou, seria muito novidade se não fizesse isso. Não espero nada de diferente vindo do Talibã, ele é estranho pra caralho, mas me surpreende por ser um pouco diferente do que imaginei que ele seria.

No geral, entre todas as pessoas do morro, eu não tô acostumada em ser ignorada ou tratada assim. Eu sempre me destaquei, sempre fui muito falante desde pequena, então era normal as pessoas gostarem de mim, isso fluía naturalmente. Conheço o morro todo, falo com todo mundo, perturbo mais ainda e tento ajudar muitos aqui no dia a dia, então ser tratada bem veio muito disso, muito do que sempre fiz por várias pessoas no morro. E quando o Talibã chega me tratando assim como se eu fosse uma pessoa entendiante, as vezes me deixa brava, porque, na real, sou super legal e ele sabe disso. E, nas outras vezes que não tô brava, eu tô rindo, porque sei que sou uma pessoa maravilhosa, então, quase nada que seja referente a isso me abala.

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