Sofia
Quando eu cheguei aqui, o que resulta em quinze ou vinte minutos atrás, Sanchez me encarou por alguns segundos em silêncio, o que foi muito estranho pra mim. Depois ele começou a falar sem parar, e eu como amo falar sobre tudo, falei também, só que não se estendeu muito, infelizmente. Acho que faz uns cinco minutinhos que o zoiudo Sanchez maluco se afastou. Isso tudo foi porque eu comecei a espirrar por conta do cheiro da maconha, tentei disfarçar, mas aí ele disse que iria se afastar e voltaria para perto de mim assim que terminasse todo o cigarro fedido. E mesmo que estivesse tão mal, falei pra ele que queria muito alguém por perto e não precisava ele sair só por eu estar espirrando incessantemente, mas é provável que ele quisesse ficar sozinho. E, atendendo as necessidades dele, apenas não insisti mais nisso. Algumas pessoas não gostam mesmo de ficar sozinhas pra intensificar o sentimento quando estão um tanto mal, assim como eu, mas existem outras que preferem se distanciar e eu respeito isso, só demoro bastante pra perceber caso não falem.
Umedeço os meus lábios em inquietação, mantendo os olhos na parede branca que mais parece um manicômio. Talvez seja onde eu estou, e talvez, só talvez, eu esteja em coma após ser sequestrada e tudo isso não passou de um sonho muito tosco e tão bobo quanto eu. Puxo todo o ar dos meus pulmões entre os lábios, vendo o Sanchez voltando pra cá, virando o corredor. Ele bate as mãos nos bolsos, e eu observo isso com cuidado e paciência, mais ainda quando ele dá uma leve piscada na minha direção com uma expressão de pura diversão, andando diretamente pra cá como se estivesse num desfile. Sorrio para ele que nega levemente com a cabeça, se aproximando o máximo de mim, e, então, Sanchez apoia as costas na parede branca atrás dele, pondo toda a palma da mão no bolso esquerdo, ficando tão quietinho ao meu lado que eu estranhei, Sanchez está tão calado de um jeitinho que achei que seria impossível uma pessoa como ele fazer.
O silêncio ao lado dele seria confortável se essa pessoa não fosse o Sanchez. E muito menos se fosse eu! Amo falar, rir de tudo e me expressar, e, pelo visto, ele também. E é por isso não está confortável. Nem ficará, pelo visto. Tem algo de errado com ele, vejo isso claramente, mas realmente não acho que sejamos tão íntimos o suficiente para perguntar o que aconteceu com ele. Talvez só pensativo sobre a vida, né? Uma boa, já que várias vezes bate uma crise existencial onde a gente só se diminui até caber em uma caixinha minúscula, ou só se diminui pra caber novamente no colo dos pais.
Eu faço isso quase sempre quando quero um aconchego, só o quente que minha mãe poderia me proporcionar, mas o que me sobrou foi lembranças vagas, choros e uns sentimentos nostálgicos. A morte leva uma pessoa que você ama e acaba com todo o interior da pessoa que ficou, e talvez seja uma maneira de tortura, mas relembrar dos melhores momentos quando só se quer chorar é uma merda. Imaginar você tendo o primeiro filho e sua mãe não estando aqui pra ver isso com um sorriso enorme é uma merda. Querer tanto correr para a sua mãe quando tudo dá errado e ela não estar mais aqui é uma merda. A morte é uma merda. E o luto? O luto até que tem as suas fases em diferentes momentos da minha vida, mas é contínuo, brutal e violento. Como um caos ou um furacão, ele destrói tudo de bom que você tem, ou tinha. Todo esse luto, toda dor e toda essa sensação perfurante é o efeito colateral da morte, de estar viva ou quase sã, é um sentimento que fica pra te lembrar que você perdeu alguém. Essa sensação te engole viva, se infiltrando em cada parte da sua pele, células, memória. O luto quase faz com que você se perca também. Talvez eu entenda a loucura do coringa por viver uma vida miserável. Hoje, finalmente, eu vejo e entendo esse maldito filho da puta!
A vingança e o luto leva a loucura, mas isso me leva ao fracasso. A dor. Solidão e sentir tanto tudo o que sobrou da minha mãe de um jeito perfurante. Esquecer a voz dela. E surtar por esquecer alguns detalhes do seu rosto que eu amava tocar e memorizar uma por uma das suas pintinhas lá. Surtar mais ainda por ter que rever suas fotos antigas e entender que as pessoas esquecem com o tempo e sente falta disso. E surtar mais um pouco por perceber que o meu cérebro não tá dando conta, não mais. Eu finjo, minto que uma parte de mim não se foi quando a minha mãe morreu.
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Santo Forte.
Não FicçãoO desejo tá explícito nos meus olhos e a cada toque meu sobre teu corpo que arrepia, cada fala que treme, cada respiração descompassada que você tem perto de mim, você implora pra que isso seja apenas uma noite, assim como eu. Até ver que seus olhos...
