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Talibã

Dez minutos antes

Chamei o filho da puta do Vicente pra vir na cozinha porque ele tá falando muita merda na frente da Sofia como se eu também estivesse interessado por ela. Certamente dando uma esperança que ela não precisa ter, porque a garota já tem confiança pra caralho em si mesma e já deixou claro que vai tentar fazer com que eu me apaixone por ela, só não sei qual é a intenção da Lila com isso tudo, já que crescemos e eu não sou mais o mesmo moleque bobo que se apaixonou pela Lila. Eu cresci e mudei com as circunstâncias da vida, e mesmo que ela tenha certeza que aquele Bryan ainda vive em mim, não adianta... É só coisa da mente dela.

Cruzei os braços na altura do peito, puto com ele, mas observando sua expressão de tranquilidade. Uma camisa azul, colete preto contornando o corpo dele de maneira que demonstre o efeito da academia nesse filho da puta. Vicente odeia academia, isso é fato pra nós dois, mas ele decidiu entrar na mesma que eu tô só pra encher meu saco e passar mais tempo comigo. Acho irônico pra caralho o fato de que isso não é a cara dele, mas é algo que ele faz, e digo que com a mesma cara de nerd lerdão que ele tem, o físico é diferente. Se ele souber usar isso a favor dele mesmo, Sanchez consegue ficar grandão na academia, até porque a genética dele é foda.

Com uma calça jeans preta, ele passa a mão sobre o bolso como se estivesse a procura de alguma coisa. Engoli a seco, passando a língua de leve pelos lábios, umedecendo. Ele respirou fundo, ajeitando a postura, provavelmente pra falar sério uma vez na vida dele. Sanchez e Sofia são mais parecidos do que eles imaginam e, papo reto, essa porra de aproximação será pior pra mim do que pra eles, é fato. Sofia é a versão feminina do Sanchez, e o Sanchez é a versão masculina da Sofia. Acho que eu falei demais dela pro Sanchez e agora ele tá abrindo o bico do jeito mais filha da puta que ele consegue. 

Sanchez: Acho que... sei lá. Acho que ela gosta de você - Arqueei a sobrancelha ao escutar a coisa mais idiota que o Sanchez me falou até dentro desses dois minutos em silêncio. Respirei fundo aos poucos pra manter a calma, tentando entender onde ele quer chegar com isso e por qual motivo tá falando sobre esse assunto de novo.- Tenta elogiar ela, tu é grosso pra caralho com a garota. Fala que ela é legal, bonita, essas paradas toda.

Soltei o ar, inspirando logo depois. Minha intenção não é deixar com que ela fique mais próxima de mim, mas a Sofia é capaz de quebrar minhas barreiras aos poucos, só do jeito espontâneo dela, contornando todas as minhas neuroses como fazia com as minhas cicatrizes. E é por isso que quero ficar longe. Ela tem um poder sobre mim que talvez ainda não saiba que tem, só que não quero que ela saiba e use isso ao próprio favor. Eu tenho a habilidade de foder com tudo, não do jeito que ela quase implora com o olhar pra que eu faça, mas de uma forma que tudo acaba em morte ou guerra. Porque eu sou marcado, ando com um alvo nas costas e ela pode se tornar minha fraqueza. Todo mundo que eu amo tem uma perseguição diferente por conta das coisas que faço. Mas ela merece ser feliz e eu não posso proporcionar isso pra ela, talvez a Sofia saiba disso, só não quer aceitar que eu mudei.

Talibã: Ela não precisa que eu fale isso, a garota já sabe de tudo que é.- Balancei a cabeça, olhando dentro dos olhos dele que se tornaram um sorriso com rugas ao lado e um sorriso de canto. Pronto pra ironizar cada letra que eu falo e isso é irritante pra caralho.- Ela é convencida. Acho que isso já diz muita coisa. 

Sanchez: Ela não sabe que você acha isso dela, só tenta ao menos elogiar ela, nem se for um pouco. Ela curte você, de verdade, dá uma chance pra isso.- Neguei. Eu não confio nem em mim, talvez ele entenda isso como uma oportunidade pra amar, mas o Sanchez sabe como é minha vida.- A garota é muito legal mermo e eu não brinquei com isso. Eu gostei muito dela, hermano, e sei que você gosta também, só não admite.

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