Um mundo sem cercas

280 10 204
                                        

Imersa na visão, Mal encontrou-se em um lugar sombrio e claustrofóbico, uma caverna que parecia não ter saída. A única fonte de luz era uma tocha trêmula, cuja chama mal iluminava as paredes frias e úmidas. Diante dela, com os olhos fixos em escritas antigas cravadas na pedra, estava Heitor. Mesmo à distância, Mal reconheceu que a visão remontava ao passado — provavelmente cerca de dez anos. Pelo rosto jovem e determinado, ela calculou que Heitor deveria ter cerca de quinze anos, talvez três anos após sua fuga da Ilha dos Perdidos.

Ele estava imóvel, a atenção consumida pelas inscrições na parede. As marcas pareciam familiares a Mal, símbolos de Atlântida, mas ela não tentou decifrá-las. Tudo o que importava era ele. Aproximando-se com passos hesitantes, Mal sentiu uma pontada de nostalgia. Aquele era o Heitor de suas memórias: determinado, concentrado, mas ainda carregando o brilho inquieto da juventude. Ela estendeu a mão para tocá-lo, ansiando sentir seu rosto mais uma vez. Mas sua mão atravessou o corpo dele como se fosse feita de névoa.

Uma lágrima solitária escorreu pelo rosto de Mal. A visão era dolorosamente real e, ao mesmo tempo, inalcançável.

De repente, Heitor fechou os olhos e respirou fundo. Seus dedos deslizaram pela superfície da parede até encontrar uma pedra específica. Com um movimento calculado, ele a pressionou, e o chão tremeu. Um som seco ecoou pela caverna quando a parede diante dele se rachou, revelando uma abertura secreta. Com determinação, Heitor enfiou o braço na fenda recém-formada e retirou algo brilhante: uma coroa antiga.

Mal imediatamente reconheceu o objeto. A Coroa do Rei Kanishga, pensou, seus olhos se arregalando com a revelação.

Enquanto Heitor analisava a coroa com uma expressão ponderada, Mal sentiu um aperto no peito. A intensidade em seu olhar, o mesmo brilho estratégico que ela sempre admirou, trouxe à tona uma saudade avassaladora. Heitor olhou ao redor, os olhos desconfiados.

— Apareça — Ele murmurou, firme. — Sei que está me observando.

Mal congelou. Ele podia vê-la? Por um momento, Heitor ficou em silêncio, esperando uma resposta. Então, com um tom ainda mais incisivo, ele continuou:

— Eu consigo te ver.

Mal prendeu a respiração, pensando em responder, mas uma terceira voz ecoou na caverna, grave e ressonante.

— Como consegue ver através do meu feitiço?

A figura de um homem surgiu do nada. Seus cabelos e barba, longos e cinzentos, reluziam como prata sob a luz fraca. Vestia um robe azul e um chapéu pontudo da mesma cor adornado com a lua e estrelas douradas. Ele exalava autoridade.

— Eu menti, e você caiu no meu blefe. — Heitor sorriu de lado, desafiador. — Ha.

O homem arqueou uma sobrancelha, visivelmente impressionado.

— Muito bem, garoto. Apresente-se.

— Você primeiro, e talvez eu faça o mesmo.

— Boa tentativa, mas dois podem jogar esse jogo.

— Ah, não insulte minha inteligência. — Heitor respondeu. — Reconheço esse chapéu. Você é Yen Sid.

O feiticeiro esboçou um sorriso leve.

— Impressionante, embora não surpreendente. Construí este desafio para encontrar o mais digno dos heróis. Como recompensa, você segura agora o primeiro passo para a profecia.

Heitor guardou a coroa com um gesto ágil, sacando uma espada que apontou diretamente para Yen Sid. No entanto, o feiticeiro não reagiu, permanecendo sereno.

— Obrigado pelo presente. Agora, se não se importa, vou indo embora.

Yen Sid não desviou o olhar.

Descendentes 4Histórias para pegar e não largar. Descubra agora