As rosas cor de carmim

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As nuvens se contorciam como serpentes negras no céu, cuspindo trovões que rasgavam o silêncio com sua fúria ancestral. O castelo, outrora símbolo de poder, era agora um túmulo de pedras quebradas e sombras flamejantes. Tudo ali respirava fim — o fim de um ciclo, o fim de uma era.

No centro do grande salão em ruínas, tio e sobrinha se encaravam, imersos em destroços, fantasmas e mágoas. O tempo parecia ter parado apenas para testemunhar aquele instante.

Mal, ofegante, segurava suas duas espadas com os braços trêmulos, mas o olhar firme. À sua frente, Maligno empunhava seu cetro quebrado, de onde faíscas amarelas serpenteavam como veneno prestes a ser libertado.

— Nós nos encontramos, enfim... para selar de uma vez por todas o destino de Auradon. — disse Maligno, sua voz grave ecoando.

— Eu e você, Maligno. O fim de tudo.

Ele sorriu, um sorriso frio, venenoso.

— Como está Heitor?

A pergunta cortou como lâmina. Mal engoliu em seco. Lágrimas cintilaram, mas não caíram.

— Você me enganou. Matou meu irmão. Tentou roubar meu reino. Ameaça a vida dos meus amigos. Como consegue sorrir?

— Porque já sofri muito mais. Me impressiona você, depois de ser traída pelo seu irmão, continuar o que ele queria.

— Não. Eu faço o que eu quero. E não deixarei a vingança me cegar como cegou você.

— Talvez por isso estejamos em lados opostos. E agora, um de nós irá para o inferno.

— Errou de novo. Maligno, eu tenho que te derrotar pelo bem maior. — Ela respirou fundo. — Mas... eu te perdoo, tio.

— Eu não pedi seu perdão.

— Nem os moradores de Auradon pediram desculpas por me prenderem naquela ilha.

— Eles te julgaram por causa do seu sangue.

— E eu vou encerrar esse ciclo de ódio. Agora.

Com um grito, Mal bateu as espadas no chão. A luz do fogo invadindo o campo de batalha. Ela usou o impulso do fogo para voar contra o tio. Maligno ergueu os braços e, como uma praga invocada dos tempos antigos, um campo de espinhos emergiu do solo, retorcido e feroz.

Mal desceu sobre eles como uma tempestade de lâminas. Cada golpe seu era um grito contido, cada estocada, uma lembrança enterrada. Ela rasgava os espinhos como se cortasse anos de dor e injustiça.

E então, quando finalmente rompeu o último obstáculo, Maligno disparou uma rajada brutal de energia. Mal foi arremessada contra os escombros, as espadas voando para longe, sangue escorrendo pela testa.

Ela rolou entre pedras partidas e lembranças quebradas. Viu, distante, a espada que fora presente de seu pai — símbolo do que restava da sua linhagem, da sua luta. Se arrastou até ela, o corpo em agonia, a alma em chamas.

Quando suas mãos tocaram o punho da espada, ela girou no chão, liberando um chicote de fogo incandescente que serpenteou pelo ar e atingiu o peito de Maligno. O vilão rugiu em dor, cambaleando, sangue escorrendo pela túnica negra como tinta que mancha um pergaminho sagrado.

Mas a luta estava longe do fim.

Com um urro ancestral, Maligno se ergueu em sua forma mais terrível: um dragão negro, colossal e flamejante, suas asas dilacerando o céu, seus olhos brilhando com puro ódio.

Ele se lançou contra Mal, a agarrou pelos cabelos e a arrastou pelo chão, esfolando-lhe o rosto, deixando marcas profundas na pedra e na alma.

Mal gritou, mas não cedeu. Mesmo quando foi erguida no ar, presas nas garras do monstro, com as garras rasgando sua pele e o céu se tornando um borrão vermelho de dor.

Lá do alto, Mal viu o campo de batalha. Seus aliados lutavam com tudo o que tinham. A Fada Madrinha voava entre feridos, tentando conter o avanço inimigo. A névoa vermelha de Kalila envolvia o horizonte, e Mal viu — mais reforços chegavam. Os guardiões pareciam ter a maior das dificuldades enfrentando o rei Magnífico. Porém, ao longe, Mal viu Uma, Harry e Jay indo até os guardiões para ajudar. Mal não deveria se preocupar com eles. Não precisava.

Eles estavam resistindo. Não por ela. Mas com ela.

— Você não vai vencer, Maligno! Se eu deixar você vencer... falharei com Beth!

O nome fez Maligno hesitar, congelado num segundo de humanidade que ele acreditava ter esquecido. Seu rugido seguinte foi de pura fúria. Desceu em mergulho, decidido a esmagá-la contra as ruínas. Mas Mal reacendeu sua chama, girou a espada e lançou fogo contra as patas do dragão.

O golpe acertou. Maligno gritou, perdeu o equilíbrio, e ela caiu, escapando por pouco, aterrissando de joelhos, o corpo à beira do colapso.

O dragão cuspiu fogo. Mal respondeu com o seu. As chamas se enfrentaram no ar como serpentes elementais lutando pela alma do mundo. A força de Mal vacilava, mas então, de dentro dela, algo brilhou. Não era raiva. Era esperança. Era tudo que ela jurou proteger.

Com um grito final, sua chama venceu. O dragão foi lançado ao chão, transformando-se novamente em Maligno, ferido, ofegante.

Mal, cambaleando, correu até a espada de Heitor. Do bolso, retirou o frasco dado por Evie — sangue de dragão. Derramou o líquido sobre a lâmina.

Maligno, caído, ainda tentou agarrar o cetro. Mas Mal chegou primeiro. Golpeou o artefato com todas as suas forças. O cetro explodiu em fragmentos dourados.

— Seu momento de tirania acaba agora.

— Se eu sou o vilão da história, então por que é você quem está prestes a tirar uma vida?

— Porque eu também sou vilã.

Com a lâmina de Heitor, ela perfurou o busto do tio. Ele gritou, a alma se quebrando. Mal elevou a espada até seu pescoço... e retirou a lâmina.

O corpo de Maligno caiu, imóvel, no chão frio.

Um silêncio pesado tomou o salão.

Mal, ferida, exausta, coberta de sangue e poeira, caiu de joelhos. E então, para trás, sobre o chão gélido, fitando o céu que agora começava a se abrir.

Ela havia vencido.

Descendentes 4Onde histórias criam vida. Descubra agora