Mal, Ben e Arkin haviam acabado de retornar de uma longa jornada, seus corpos cansados e marcados pela exaustão. Mas o tempo era um luxo que não podiam se dar. O inimigo avançava, e Evie estava nas mãos erradas. Antes mesmo de tirarem as botas, foram conduzidos por Mulan à sala de guerra — um antigo salão de pedra, agora preparado para uma nova missão.
A mesa redonda no centro parecia ainda carregar os ecos de batalhas passadas. Uma e Harry já estavam lá, as expressões graves. Logo se uniram a eles Ben, Mal e Arkin. Jay chegou com Lonnie, trazendo notícias da enfermaria, onde Li Shang ainda se recuperava. Quando Audrey finalmente entrou na sala, o silêncio que tomou conta foi quebrado por uma pergunta direta:
— Mal, o quão grave é esta situação? — Mulan foi ao ponto, como sempre.
Mal inspirou fundo, os olhos carregando sombras do passado.
— Muito. — Ela respondeu, a voz firme. — Heitor é meu irmão mais velho. Junto com Helena e Will, foram os primeiros filhos nascidos na Ilha dos Perdidos, um ano após da barreira. Helena é irmã de Harry. Will, filho único de Clayton. Naqueles primeiros dias caóticos, os vilões lutavam como predadores por território. E eles usaram seus filhos como armas.
Ela caminhou pela sala como se revivesse os horrores de outrora.
— Eles foram moldados para conquistar. Heitor é um estrategista imbatível, calculista até o osso. Helena é veloz, manipuladora e letal. Jay e eu nunca a vencemos em uma corrida ou roubo. E Will... Will foi treinado para matar sem ser visto. Um caçador fantasma. Os três formavam a Vanguarda Vermelha. Foram eles que ajudaram minha mãe a dominar a Ilha.
— Quais são as fraquezas deles? — Mulan perguntou.
— Ainda estou tentando descobrir. — Mal respondeu com amargura.
Uma cruzou os braços, o olhar pensativo.
— Will era próximo de Evie. Talvez até demais. Heitor deve ter se incomodado com isso. Provavelmente foi o primeiro a querer tirá-la do jogo.
Mal assentiu com um brilho nos olhos.
— Perfeito. Vamos usar isso. Heitor se acha intocável. Se tirarmos Evie de suas mãos, mostramos que ele não é invencível.
— E os meus pais? — Ben perguntou, aflito. — Nenhum guarda os viu. Não tentaram contato... acho que também estão prisioneiros.
— Audrey, tentou localizá-los com o cetro? — Mal perguntou.
— Tentei. Mas não consegui ver nada. Alguém está bloqueando a magia. É como se estivessem atrás de uma cortina de sombras.
— O cetro é poderoso. Se isso não funciona... — Mal murmurou. — Então meu querido irmão aprendeu truques novos.
— Ele fez esqueletos saírem da terra, Mal. — Uma completou.
Lonnie se adiantou com um mapa.
— Mandei espiões. Há poucos esqueletos visíveis no castelo. Uma armadilha, provavelmente. Um ataque direto seria um erro. Precisamos ser sutis.
— Audrey viu Evie numa masmorra. Mas não há masmorras no castelo. — Ben lembrou.
— Então só pode estar no Jolly Roger. — Uma disse. — Ele está atracado nas redondezas.
Mal assentiu e traçou a estratégia.
— Vamos dividir em dois grupos. Eu, Ben e Arkin infiltramos o castelo, tentaremos encontrar os pais de Ben. Uma, Harry e Jay vão ao Jolly Roger. Jay abre a cela, Uma os retira pelo mar.
— Preciso montar uma equipe de apoio. — Mulan se ofereceu.
— Não. — Mal cortou. — Os vilões podem atacar em qualquer momento. Você deve proteger a fortaleza. Audrey, fique ao lado de Phillip. Precisamos garantir que ele não se vire contra nós. Só temos que evitar sermos vistos por Heitor, Helena, Will e Kalila.
Foi quando Mulan arqueou as sobrancelhas.
— Espere. Achei que fossem três inimigos. Quem é Kalila?
Jay respirou fundo, desviando o olhar.
— Minha irmã mais velha. Nascida um ano antes da barreira. A mãe dela a escondeu para que não ficasse presa com meu pai. Um dia... ela apareceu. Papai me levou até a barreira. Ela chegou sobre uma moto flutuante e me disseram que era minha irmã. Meia-irmã. Heitor a conheceu pouco depois... Ela ajudou o pessoal no dia que escaparam da Ilha. Eu não quero acreditar que ela esteja do lado deles.
O silêncio na sala foi pesado. Uma e Mal trocaram olhares preocupadas, sem saber o que dizer para o amigo. Ben até tentou dizer algumas palavras motivacionais, mas ele não entendia o que Jay sentia. Mal desejou que Carlos estivesse ali. Ele saberia como levantar o ânimo de Jay. E Jay, sozinho com a dor de ver o único laço de sangue que valorizava agora como inimiga. Kalila era a única coisa genuinamente boa para Jay, o pequeno pedaço de esperança para uma família feliz. Agora todos os sonhos que Jay tinha de ter uma irmã para amar e proteger estavam perdendo o sentido.
Harry levantou-se abruptamente.
— Já perdemos tempo demais. — Rosnou antes de deixar a sala.
Uma o seguiu, lançando um olhar preocupado para Mal.
Jay se apressou atrás dos dois, o coração mais pesado que nunca.
Audrey saiu logo em seguida. O rei Phillip enfrentava problemas com Ratcliffe, que estava bloqueando mercadorias e ameaçando o abastecimento do reino. Ela precisava agir.
Restaram apenas Mal, Ben e Arkin.
— Como vamos entrar no castelo? — Arkin perguntou enquanto caminhavam na direção do castelo.
— Fiz uma passagem secreta dois anos atrás. — Mal disse casualmente.
— O quê? — Ben arregalou os olhos.
— Seu pai vive dizendo que sou uma péssima governante, Ben. Eu precisava de uma rota de fuga.
— Eu não queria dizer nada, mas o Rei Fera é um imbecil. — Arkin disse.
— Ele foi um bom rei. — Ben retrucou.
— Pra você. — Mal respondeu, sombria. — Não pra nós. Nós comíamos lixo.
— Ele não sabia...
— Que vocês mandavam restos pra nós? — Arkin rebateu. — Minha tia congelou um reino inteiro, e ainda foi menos cruel do que seu pai.
— Ele queria proteger o povo.
— Ben, não tenta justificar. — Mal interrompeu.
Ben suspirou.
— Eu sei que foi errado. Por isso lutei tanto para trazer vocês de volta.
— Mas nem todos os que chamam de vilões eram maus. — Mal continuou. — Gancho, por exemplo. Tentou matar Peter Pan, sim. Mas você sabe por quê?
Ben ficou em silêncio.
— Claro que não. Ninguém pergunta. Só jogam as pessoas na Ilha. Pan sequestrava meninos. Mas ele voa e brilha, então deve ser o mocinho, né? O pirata com um gancho é o vilão.
Ben baixou a cabeça.
— Eu não sabia.
— Vocês estavam ocupados demais dançando nos bailes. Ben, estou cansada dessa desculpa.
O silêncio caiu sobre os três. Mas não por muito tempo.
A passagem secreta de Mal os levou direto aos jardins do castelo. Esconderam-se entre os arbustos pomposos, evitando os poucos guardas que ainda patrulhavam. Escalaram até uma janela lateral. Estavam dentro.
Mal fechou a janela e sussurrou:
— Procurem pelos quartos.
O som de arma engatilhando preencheu o corredor.
Will estava no final do corredor, apontando a arma para os três intrusos. Mal virou para fugir pelo outro lado, mas a ponta de uma lâmina reluziu na escuridão bem na sua frente.
— Veio visitar o irmão, Mal? Que adorável. — Disse Helena, surgindo das sombras com um sorriso cruel. — Heitor sentiu muita saudade de brincar com você.
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Descendentes 4
PertualanganApós a destruição da barreira e a reconstrução da ponte, alguns vilões e seus descendentes encontraram um lugar no mundo e tentaram viver em paz. No entanto, nem todos ficaram satisfeitos com essa nova realidade - e com razão. A maioria dos vilões n...
