Normalmente a cidade de Anga-Guaçú já sofria com as altas temperaturas na maior parte do ano, mas estando em meados de janeiro, o clima tendia a ficar insuportável. Era possível sentir o suor escorrer pelas costas com o simples esforço de se manter em pé. Trabalhar na correria de um pronto socorro, fazia a enfermeira Sofia Guerra refletir se a sua decisão de se mudar para a tal "cidade sensação" do momento, realmente tinha sido uma boa ideia.
Anga-Guaçú era uma cidade localizada a aproximadamente 120 km de São Paulo que vinha vivenciando um crescimento caótico e quase desordenado responsável por triplicar a população durante a última década. Isso tudo estava ocorrendo devido á instalação de grandes companhias nos arredores da cidade, mais especificamente em um enorme bairro industrial criado pela prefeitura com o intuito de atrair novos empregos para a região. A cidade típica de interior acostumada a um ritmo lento e que tinha como base da economia o cultivo do algodão, aos poucos teve que deixar de lado as rotinas calmas e tranquilas das quais seus habitantes estavam acostumados e acompanhar o novo ritmo de crescimento com seus novos moradores, edifícios e problemas como as ondas de violência e a falta de espaço.
Sofia abandonou São Paulo após receber uma proposta de emprego para trabalhar no Hospital das Almas como enfermeira supervisora da ala de emergência, rotina que conhecia muito bem por já ter trabalhado desde que se formara na mesma função na capital paulista. Achou então que deveria aceitar a proposta, pois estava à procura de tranquilidade e não aguentava mais a correria e o caos da sua cidade natal, mas ao chegar a Anga-Guaçú percebeu que nem tudo era exatamente como havia imaginado, a cidade estava começando a se tornar uma miniatura da metrópole que havia deixado para trás, com o agravante de que tudo ainda era muito novo e desorganizado e ainda não havia estrutura suficiente para suportar o crescimento desordenado. O resultado disso era possível de se ver principalmente no trânsito e no aumento de acidentes. Por esse motivo desde que havia chegado há pouco mais de um ano não havia conseguido desfrutar nada da tal tranquilidade que tanto almejava.
Aos 33 anos, Sofia era uma pessoa muito introspectiva. Solteira e sem muitos amigos - nem em São Paulo muito menos em Anga-Guaçú – passava grande parte de seus dias trabalhando por horas seguidas sem se importar, afinal de contas essa era uma das poucas coisas que realmente adorava fazer e dominava com segurança. Ser enfermeira era algo que a completava de uma maneira que fazia bem à sua alma.
Era uma pessoa prática e decidida. Mantinha o cabelo liso e escuro sempre na altura do pescoço preso em um curto rabo de cavalo. A baixa estatura e magreza que durante muito tempo a incomodara, lhe dava uma aparência meiga e frágil que não condizia nada com sua real personalidade. Dona de um temperamento tempestuoso e às vezes até mesmo agressivo - que sua mãe irritantemente insistia em repetir, que assim como os olhos levemente puxados, havia herdado da avó - era capaz de enfrentar qualquer tipo de situação sem se intimidar com muita facilidade.
Naquele fatídico sábado estava de plantão e acabara de chegar ao hospital. Estacionou o carro em uma vaga aleatória e olhou pra o relógio no pulso. 06h30min. Seu plantão só começaria dali trinta minutos, o que era perfeito, gostava de chegar mais cedo e precisava se atualizar dos acontecimentos do plantão anterior. Teoricamente não precisaria trabalhar aos fins de semana, mas por ser uma workaholic reconhecida, era sempre convocada para cobrir pontuais buracos na escala. Como normalmente não tinha muitos planos para suas folgas, preferia se ocupar trabalhando mesmo.
Através do espelho retrovisor do carro, deu uma última checada no cabelo, retocou o discreto batom cor de boca e saiu do veículo. Já do lado de fora, alisou o uniforme com as mãos analisando a aparência através do reflexo do vidro.
- Bom dia enfermeira mais gata do Brasil! – Gritou alguém passando de carro por ela.
Sem se virar, bufou intensamente ignorando o comentário. Não precisava nem olhar para saber de quem se tratava. Fechou a cara e a passos ligeiros se encaminhou para a entrada de funcionários.
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Elafium: A guerra oculta
Mystery / ThrillerCom o intuito de fugir dos fantasmas de seu passado, a enfermeira Sofia Guerra resolve começar uma vida nova longe de sua família, em Anga-Guaçú - cidade do interior paulista que começa a sofrer com o repentino crescimento desordenado trazido por g...
