TRINTA E SEIS

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O edifício comercial Batiatus Tower localizado no centro de Anga-Guaçu era um dos mais altos da cidade. Apesar de nem se comparar aos grandes arranha-céus da capital, seus trinta e dois andares e mais de cem metros de altura impressionavam qualquer pessoa que o visse lá debaixo. Do seu alto em meio aos equipamentos de manutenção e uma torre de telefonia celular era possível enxergar quase toda a pequena cidade, desde as montanhas Vandort até o sempre iluminado bairro Industrial. Parecia que se erguesse os braços poderia tocar as nuvens.

Talvez fosse o mais próximo de Deus que pudesse chegar naquele momento.

Eram quase sete horas da tarde e o sol preguiçoso começava a se despedir se escondendo por entre a linha do horizonte, pintando o céu em um tom lilás enquanto do lado oposto a lua despontava quase despercebida. Era naquela bela e melancólica atmosfera que Zuriel sentado no topo do edifício Batiatus se refugiava em um momento de reflexão.

Durante as centenas de anos que vivera na Terra, não se lembrava de ter passado por um momento tão penoso como aquele. Ver a única pessoa que realmente considerou um irmão, que o treinou e acolheu com tanto carinho ser assassinada de forma tão traiçoeira e cruel como aquela, lhe fizera pensar na sua atual condição deixando uma angustia a qual nunca havia sentido antes tomar sua alma.

Muitos diziam que quando um guillen começava a ser afetado por sentimentos comuns apenas aos zamon é porque estaria na hora de se aposentar. Não sabia se era aquilo que estava acontecendo, mas a única coisa que vinha á sua cabeça naquele momento, junto com a imagem petrificada e dilacerada de Baruc, era a vontade de se entregar. Desistir de lutar.

E lutar era a razão de estar na Terra, era o principio dos guerreiros guillen. Tal pensamento nem poderia lhe passar pela cabeça.

Mas como não pensar nisso quando tudo que se importava estava desmoronando ao seu redor. Parecia que alguém estava disposto a destruir a sua vida nesse últimos meses.

Havia sido levado a shatineh por um erro primário, seus colegas estavam sendo executados um a um sem que ele pudesse fazer nada a respeito, foi traído por um colega guillen e pela própria yasan a quem jurou fidelidade, e agora perdeu seu melhor amigo de forma tão covarde.

Sem falar de Sofia. Onde estaria Sofia?

Olhando para as ruas e os pequenos carros que se movimentavam lá embaixo, podia ouvir uma voz suave ao ouvido lhe dizendo para se render ao mais fácil e deixar a gravidade curar as suas mágoas.

Estava realmente propenso a isso quando outra voz, dessa vez mais grave e real, rispidamente ecoou por entre as nuvens.

- Finalmente te encontrei koriarve.

Não teve tempo nem de identificar a pessoa que se aproximava. Inesperadamente foi atingido no peito com uma força que fez seu corpo ser arremessado a dezenas de metros em direção ao céu lilás.

Ainda atordoado, Zuriel conseguiu invocar o Shalin para se defender e só então conseguiu identificar a figura enorme que voava em sua direção disposta a atacá-lo novamente. Estéfano parecia furioso.

- O que está fazendo Estéfano? – Questionou enquanto se desviava de uma segunda investida, momentos antes do impacto.

O shomer, que havia sumido entre as nuvem durante o ataque, retornou rapidamente e pairou em frente à Zuriel transbordando ódio pelas narinas.

- Qual o seu prob...

Impaciente, Estéfano agarrou o pescoço do guillen com uma única mão antes que ele pudesse completar a frase.

Elafium: A guerra ocultaOnde histórias criam vida. Descubra agora