Já era previsto que em algum momento daquele resto de noite infernal, sua cabeça iria finalmente se implodir sozinha.
A luz branca que brotava do teto estava realmente disposta a lhe torturar. A alternativa - que seria fechar os olhos - naquele momento se apresentava como uma opção ainda pior, já que automaticamente quando o fazia era remetida ao seu momento de queda livre que vivenciara há poucas horas atrás e então além das insuportáveis pontadas no cérebro, uma vertigem alucinada lhe embrulhava o estômago arriscando gravemente a integridade física dos papéis e documentos espalhados sobre a mesa na sua frente. Odiava experiências radicais, tão pouco gostava de vomitar.
- Será que não dá para apagar essa luz? – Sugeriu irritada com uma das mãos protegendo os olhos.
A agente Anabella Ricoletti parou por um minuto de digitar seu relatório para lhe encarar com o canto dos olhos.
- Não! – Respondeu incisiva antes de voltar às teclas.
Faziam poucas horas que Sofia Guerra tinha conseguido escapar daquele castelo dos horrores. O alivio já havia dado espaço para o cansaço e agora para a tal dor de cabeça irritante.
Assim que atravessou aquele portal junto com dona Amina e apareceu milagrosamente no parque dos Tarumãs, foi resgatada por Anabella e o agente Wilson e desde então estava naquele escritório dentro da sede da C.H.As.E. sentada em uma cadeira desconfortável revivendo tudo que acabara de sofrer.
- Minha cabeça está me matando. – Insistiu então.
- Eu já disse que deveria comer alguma coisa, está muito fraca. – Respondeu a agente dessa vez sem desviar os olhos do monitor. – Tem café na copa e dona Berenice trouxe um bolo de ricota muito bom hoje a tarde. Acredito que ainda tenha algum pedaço.
Instintivamente Sofia expressou uma careta com os olhos fechados e a língua para fora ao imaginar a guloseima.
- Pelo amor de Deus! Quem é a cretina que resolve trazer um bolo de ricota para o serviço? Deve gostar muito pouco de vocês. – Respondeu a enfermeira segurando a boca firmemente. – Melhor não me oferecer mais nada, ou eu não me responsabilizo pelo que vai acontecer com essa mesinha perturbadoramente organizada.
- Você é quem sabe então! – Disse Anabella torcendo a boca.
- Olha! O que preciso agora é apenas de silêncio e escuro, nada mais. Me deixa ir embora.
- Assim que terminar de digitar o que me contou, você será liberada e poderá descansar.
Dessa vez foi Sofia quem torceu a boca em desaprovação e se jogou contra o encosto da cadeira. Ao contrário dela, Anabella parecia estar completamente ativa e disposta a terminar sua tarefa, mesmo àquela hora da madrugada, portanto ignorava indolentemente suas condições físicas.
- Só para recapitular então, você confirma que o senhor Plínio Bianco, 51 anos, residente do Edifício Ozymandias na rua Salamanca numero 3556 e funcionário da Fring Farmacêutica lhe confessou antes de morrer que era o culpado pelas mortes misteriosas que ocorreram nos últimos meses na cidade?
- Achei que tivesse sido clara da primeira vez. – Respondeu Sofia entediada. – Apesar que, de tudo que você falou agora eu só consegui entender Plínio e confessou.
- Preciso que me responda com certeza, ok? O senhor Plínio te confessou realmente tudo? – Insistiu a agente.
- Mas qual parte que você não conseguiu entender? Eu já disse, ele fez um tipo de contrato com o tinhoso e usou uma droga que ele chamava de composto 23 nas vitimas para matá-las, mas no fim aconteceu toda a confusão que você já sabe.
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Elafium: A guerra oculta
Mystery / ThrillerCom o intuito de fugir dos fantasmas de seu passado, a enfermeira Sofia Guerra resolve começar uma vida nova longe de sua família, em Anga-Guaçú - cidade do interior paulista que começa a sofrer com o repentino crescimento desordenado trazido por g...
