TRÊS

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O corpo humano e seus mistérios, sempre foram temas fascinantes para Sofia desde a infância. Lembrava claramente de momentos em que algum colega se machucava enquanto brincava na escola ou na rua e ao contrário das demais crianças que corriam apavoradas ao ver o sangue ou os ferimentos, ela, tomada por uma curiosidade incontrolável, não desgrudava do colega machucado chegando até mesmo a acompanhá-lo à enfermaria algumas vezes.

Na adolescência facilmente identificou sua vocação. Adorava as aulas de ciências e biologia, não tinha dúvida de que iria trabalhar na área da saúde, e como sempre fora dedicada aos estudos, aos dezoito anos estava matriculada na Universidade Federal do Estado de São Paulo. Aos vinte e dois já era uma enfermeira formada. Seus pais tentaram a todo custo incentivá-la a cursar medicina como a irmã mais velha e aquilo a ofendia profundamente, era como se eles acreditassem que ela estivesse optando por uma profissão inferior, não conseguiam entender que se tratava de uma profissão tão importante quanto a da irmã, apenas mais desvalorizada socialmente. Mas isso não a incomodava, muito pelo contrário. Por algum motivo gostava de ter maior contato e acompanhar os pacientes de perto no momento em que mais precisavam.

Nunca se arrependeu de sua decisão, e sua profissão era algo que adorava, mas havia um detalhe que devido a alguns traumas da vida a fazia arrepiar. Sofia não sabia lidar bem com a morte tampouco com os vivos que lamentavam a perda de alguém, odiava esse tipo de situação e sempre que possível fugia descaradamente, talvez por esse motivo havia decido trabalhar no pronto atendimento quase que durante toda a sua carreira. A probabilidade de ocorrer óbitos era muito pequena, sendo assim conseguia manter um pouco o controle da situação.

Naquele momento enquanto percorria um longo corredor silencioso ao lado daquele homem que conhecera há pouco tempo, questionava-se então por que estava fazendo aquilo novamente. Aparentemente qualquer historia triste era o suficiente para lhe convencer a desenterrar aquilo que já havia ficado para trás. 

Sentia-se uma estúpida.

- Bom chegamos. – Disse Maia quebrando o silêncio.

Pararam então em frente a uma grande porta dupla de metal com os dizeres "Necrotério – Entrada somente de pessoal autorizado". Sentiu uma brisa fria em sua nuca eriçando os pelos.

- Tudo certo? – Perguntou ele.

Sofia apenas o fitou com os olhos se permitindo não responder a pergunta.

Alexandre Maia havia convidado Sofia para jantar há exatos seis meses atrás. Ela só aceitou depois de um mês de muita insistência e desde então mantinha um relacionamento amoroso com o policial que parecia não entender que estavam apenas no início da relação e agia como se estivesse no meio de um namoro sério de anos.

Ele já a havia presenteado diversas vezes, inclusive com um anel de compromisso que ela fez questão de devolver na mesma hora acompanhado por um imenso discurso. Já havia sugerido de morarem juntos e até mesmo que ela conhecesse sua família. Sofia, claro, negou todas as petições do rapaz que sempre resultavam em discussões e rompimentos, mas sua eterna insistência o fazia voltar no outro dia arrependido. Apesar de toda a irritação que aquilo lhe causava, a enfermeira o aceitava de volta. Gostava de sua companhia e no fundo – ainda que nunca repetiria isso em voz alta - se sentia segura tendo uma figura protetora por perto em uma cidade onde não conhecia mais ninguém.

Sabia que aquela relação maluca no fundo era um namoro, só não queria dar o braço a torcer. Mas isso não era motivo suficiente para Maia continuar fazendo solicitações ridículas, como entrar em um necrotério no meio de seu horário de serviço.

Que namorado nunca pediu isso?

- O que foi Sofia? Você parece irritada,

- Quer que eu finja estar feliz? Você sabe muito bem que eu estou odiando essa situação.

Elafium: A guerra ocultaOnde histórias criam vida. Descubra agora