DOZE

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- Pode ficar tranquila senhorita Guerra. Eu ficarei observando vocês dois daqui. – Disse Estéfano abrindo o pequeno portão da casa de dona Amina para Sofia e Zuriel passarem. – Se o guillen tentar algo contra ti, em menos de um segundo minha kasini estará lhe atravessando o estômago.

Sofia apenas sorriu nervosa.

- Ele diz isso como se realmente acreditasse que pudesse me acalmar. – Pensou em voz alta.

A enfermeira começou então a caminhar ao lado daquele homem que só lhe inspirava desconfiança, agarrada a todo custo ao estranho objeto que o próprio lhe oferecera como proteção.

Apesar da hora avançada, algumas pessoas da vizinhança ainda caminhavam tranquilamente pelas ruas. O calor de Anga-Guaçú permitia a constante movimentação em toda a cidade a qualquer hora do dia, algo que sempre incomodara Sofia, mas naquele momento lhe parecia uma dádiva. Provavelmente aquele homem não teria coragem de lhe fazer nada com testemunhas por perto.

A personalidade de Sofia ditava que deveria desconfiar de qualquer pessoa que se aproximasse antes de conhecer melhor, porém também achava que qualquer um merecia a chance de se justificar antes de ser condenado de uma vez por todas. O caso de Zuriel era algo completamente fora dos padrões, mas mesmo assim algo lhe dizia que aquele homem estava realmente arrependido do que lhe fizera - se é que ele realmente era um homem - de qualquer forma estava disposta a ouvi-lo apesar de sentir dores no estômago e uma vontade enorme de sair correndo e gritando.

- E então zamon Sofia. Parecia tão curiosa antes, mas até agora não pronunciou nenhuma palavra. – Disse Zuriel quebrando o silêncio, enquanto atravessavam a rua.

Sofia por um momento parou e observou o homem nos olhos. Parecia que aquele semblante assustador que aterrorizava suas lembranças finalmente havia abandonado seu rosto, prevalecendo agora apenas um sorriso conquistador e brilhante igual ao que mostrou na primeira vez que o viu no elevador. Infelizmente isso deixava a pulga pular ainda mais enlouquecida atrás da orelha da enfermeira.

- Bom, para celebrar essa linda e nova amizade que se inicia, eu gostaria que falasse comigo em português. Somente em português. – Reivindicou Sofia. – Porque eu não entendo lhufas dessa língua esquisita que vocês falam o tempo todo.

- Hosam zamon... quer dizer, me desculpe senhorita Sofia. Tenho um pouco de dificuldades com isso. Português não é minha língua mãe.

- Isso eu percebi, aliás que raio de língua é esta que vocês falam? – Questionou Sofia retomando a caminhada.

- Savatinah! É uma linguagem bastante antiga e desconhecida por zamon, quer dizer, humanos.

- Desconhecida por humanos? Isso faz de você o que então?

- Bom eu faço parte de uma raça chamada Sareden. A tradução mais próxima para isso seria filhos do Ehden.

- Éden? Éden da Bíblia, tipo o paraíso? – Estranhou Sofia relembrando as aulas na escola dominical. – Então você é um anjo mesmo? Fala sério.

- Anjo não seria o termo correto. Todos os Sareden são divididos em castas e tarefas. O que mais se assemelha com o que vocês chamam de anjo é o malaskin, que são responsáveis por aconselhar e proteger zamon de forma oculta, mas eu nunca vi um e também não conheço ninguém que já tenha visto.

- Peraí, do que você está falando? – Riu Sofia. – É sério esse papo de anjo? Para com isso, eu acho que está na hora de maneirar no chá de cogumelos, amigo encanador.

Apesar de ela ter achado o comentário hilário, Zuriel franziu a testa sem compreender nada.

- Tudo bem, não achei que entenderia essa mesmo. – Justificou-se Sofia. – Geek moment!

Elafium: A guerra ocultaOnde histórias criam vida. Descubra agora