No andar térreo do Hospital das Almas se encontrava o Pronto Atendimento aberto ao público geral, onde naquele dia o enfermeiro Ferdinando Moreira se esforçava ao máximo para conseguir cumprir as últimas horas de seu plantão. Porém o cansaço de quase vinte horas sem dormir o atingia em cheio naquele momento.
- Ferdinando, eu já estou começando a ficar irritada contigo. – Disse Glória se aproximando do posto de enfermagem. – Tu tá parecendo uma lesma hoje meu filho. Podia pelo menos fingir que está trabalhando.
- Para Glória, me deixa em paz!
- O que aconteceu contigo? Porque tá assim?
- Eu não consegui dormir nem meia hora no outro plantão que fiz a noite. Parecia que o cão tinha baixado na UTI daquele hospital, um verdadeiro inferno. Sem falar que estou com um começo de gripe que vai ser uó! To pregada agora, amor. O que eu posso fazer?
- Trabalha minha flor que isso passa. É só deixar de preguiça que daqui duas horas no máximo você já vai estar em sua cama.
- Vá aparar xana de macaca, mocréia. – Irritou-se Ferdinando limpando o avental com as mãos. – Eu heim, o que é isso agora? Cadê a compaixão e a cumplicidade por um colega doente.
- Eu não tenho que ter compaixão por ninguém não, principalmente se esta tal pessoa está mais atrapalhando do que colaborando com o meu plantão.
- Ai, mas o que aconteceu contigo hoje, acordou com as patas viradas para o alto?
- É muito feio isso que você faz e atrapalha toda a equipe. Hoje só estão você e a Vivi de enfermeiros aqui e com todo esse seu entusiasmo acaba sobrecarregando a coitada. Toma vergonha na cara Ferdinando, se tu "quer" ter dois empregos é problema seu, mas tem que trabalhar igual nos dois, não dormir em um e enrolar no outro.
- Escuta aqui Beyoncé de Quixabeira, quem você pensa que é para vir me dar sermão? Se eu trabalho em dois hospitais é porque infelizmente eu ainda preciso, não porque eu quero, entendeu bitch? – Completou Ferdinando estalando os dedos. – E outra coisa, se nem a songa monga da Viviane está reclamando porque você tem que vir tomar as dores dela?
- Porque de fato ela é uma sonsa que não tem boca para reclamar de nada e deixa qualquer jagunço folgado se aproveitar dela.
- Quem é jagunço aqui, minha filha? Tá ficando maluca?
- Você que está me enlouquecendo com essa preguiça. Tome tento Ferdinando, desse jeito vai ficar mal falado em todo o hospital.
- Puxa, eu estou criando rugas de preocupação com isso. Ai Glória, este seu papinho brega cansou ainda mais minha beleza. Preciso me sentar, com licença. – Disse puxando uma cadeira.
- Tu "é" muito desavergonhado mesmo, rapaz.
- Beijinho no ombro para você, amor. Entre na fila de fãs que tenho ao redor do mundo. – Disse girando na cadeira.
- Olhe, eu sempre te defendi para Sofia, mas agora eu vejo que ela tem razão mesmo, tu "é" um caso perdido mesmo.
- E eu acho que você deveria parar de andar com a Sofia, tá ficando tão mal amada quanto ela. Aliás, por onde anda a racha. Acho que nunca senti tanta saudade daquele hobbit mocorongo. Não vejo a hora de ela me salvar desse buraco infernal que me colocaram.
- Olha, infelizmente ela ainda irá demorar e teremos que aturar esse sua sem-vergonhice por mais um tempo.
- Ai menina, eu acho isso tão injusto. Eu sou enfermeiro de UTI, tenho pós-graduação, consigo lidar com uma parada enquanto lixo as unhas. Não tenho que ficar aqui neste lugar feito uma atendente do McDonalds recebendo este monte de pobre catinguento.
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Elafium: A guerra oculta
Misterio / SuspensoCom o intuito de fugir dos fantasmas de seu passado, a enfermeira Sofia Guerra resolve começar uma vida nova longe de sua família, em Anga-Guaçú - cidade do interior paulista que começa a sofrer com o repentino crescimento desordenado trazido por g...
