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Apesar de todas as confusões e tumultos ocorridos nas últimas semanas, o Hospital das Almas vivia um dia estranhamente tranquilo.

Hamilton dos Santos era técnico de enfermagem e apesar de já ter 15 anos de experiência na área, ali não passava de um novato. Havia sido contratado há pouco mais de dois meses para colaborar na Unidade de Terapia Intensiva do hospital no plantão da tarde. Normalmente era escalado para cobrir a UTI II, mas devido os recentes acontecimentos, a sala que havia sido congelada estava toda destruída, e então ele se juntou a equipe da UTI I.

Naquele dia, tinha se retirado do setor para ir pegar algum medicamento prescrito na farmácia e já retornava pelo corredor quando resolveu xeretar seu antigo setor. A sala onde antes se encontrava a UTI II estava fechada para evitar curiosos, mas ainda assim empurrou com uma das mãos para verificar seu interior.

- Boa tarde! – Cumprimentou educadamente da porta ao se deparar com alguns funcionários da manutenção que mexiam nas fiações do forro.

Dois deles apenas o olharam rapidamente de cima de uma escada sem sequer interromper o que faziam ou se preocuparem em responder, outro que estava sentado no chão perto de uma janela aparentemente arrumando uma tomada, nem este trabalho teve.

- Uma loucura o que aconteceu aqui não é? – Insistiu Hamilton novamente sem receber atenção.

A sala que antes parecia pequena em meio a tantos equipamentos e pessoas, agora vazia aparentava enorme. Maior que seu próprio apartamento, pensou ele.

Era estranho ver tudo aquilo daquele jeito, como se tivesse sido abandonado, sendo que há poucos dias atrás ele próprio estava correndo por ali ajudando a equipe na assistência de uma parada cardíaca.

Dona Maria Gonçalves. Naquele dia eles conseguiram evitar a parada da velhinha apenas para adiar o inevitável. Agora olhando para aquele local assombrado um arrepio lhe percorreu a espinha e não conseguiu evitar de imaginar a pobre senhora deitada em seu leito junto com tantos outros pacientes e colegas agonizando congelados.

Congelados.

Isso era algo inacreditável, ninguém até aquele momento tinha conseguido explicar o que aconteceu ali e outro calafrio lhe percorreu o corpo ao imaginar que ele também poderia estar entre as vitimas se não estivesse de folga naquele dia. Não poderia nunca deixar de agradecer a todos os santos por isso.

- E vocês colegas, o que estão fazendo? – Questionou Hamilton mais uma vez. – Já sabem o que a chefia pretende fazer aqui?

Dessa vez o homem que estava sentado no chão se levantou e caminhou até a direção dele somente para fechar a porta em sua cara após pronunciar um quase inaudível: "Com licença!".

Hamilton aborrecido, continuou seu percurso de volta à UTI I.

Aquele setor era um pouco menor do que aquele que costumava trabalhar, tinha menos leitos e espaço para circular portanto era muito comum trombarem uns nos outros durante a pressa. O lado bom é que precisava assumir menos pacientes que na II.

Naquele dia ia ficar apenas com dois pacientes, um senhor que estava se recuperando de uma cirurgia no fêmur e um rapaz bem mais novo em quem precisava aplicar a medicação que acabara de buscar. O técnico preparou então a medicação e aplicou. Em seguida pegou a ficha do paciente para ler.

Arthur Arruda Bianco, vinte e dois anos. Estava em coma há mais de oito meses por causa de um traumatismo craniano causado em um acidente de moto.

Hamilton não conhecia direito os pacientes daquele setor, mas aquele não necessitava de muitas apresentações, sua fama corria solta pelos corredores do Hospital, não apenas pelo fato de ser um dos casos mais duradouros de coma como também por ser filho do homem responsável por sequestrar uma das enfermeiras do Pronto Socorro. Todo mundo falava daquilo, era o assunto Top 2 do momento vindo logo abaixo do misterioso congelamento na UTI.

A única coisa que não explicavam direito eram os motivos que levaram um homem aparentemente calmo e inofensivo a cometer um ato tão violento e imprevisível. Muitos apostavam em crime passional, podiam jurar que os dois tinham algum tipo de envolvimento e o homem surtou quando ela lhe deu um fora, outros diziam que eram apenas colegas mas ele simplesmente enlouqueceu quando ela lhe explicou que seu filho não tinha a menor chance de sobreviver. Enfim, teorias existiam aos montes, mas o fato era que Hamilton não conhecia nem a enfermeira e muito menos o louco sequestrador, portanto não podia opinar em nada, apesar de apostar na história do romance.

De qualquer forma agora com a morte do pai - que era o único parente vivo - o garoto iria provavelmente apodrecer ali naquele lugar sem ter mais ninguém para se importar com ele. Era uma pena, mas esse tipo de merda poderia acontecer com qualquer um independentemente da idade, sexo ou cor. Infelizmente diferente de Hamilton, Arthur não havia tido tanta sorte assim e agora ao técnico de enfermagem cabia apenas cumprir sua obrigação com ele da melhor maneira possível então.

Hamilton colocou a ficha do rapaz no lugar, dispensou os frascos da medicação que acabara de aplicar nele e se voltou para o outro paciente que estava no leito ao lado, confuso, mas consciente.

- Boa tarde seu Agenor, como está hoje? – Questionou ao velhinho educadamente.

- Pergunta para aquela vaca que te pariu! – Respondeu o homem.

Hamilton caiu na gargalhada. Estava acostumado com aquele tipo de reação e no fundo se divertia com o recorrente mau humor dos pacientes. Ajeitou então o travesseiro do velhinho e trouxe para perto de si o material que utilizaria para trocar seus curativos.

Tudo corria tranquilamente quando ouviu um ruído que começou a incomodá-lo. Era um som que apesar de baixo, era bastante irritante. Sem conseguir se concentrar no serviço começou a procurar com os olhos pela UTI, mas não tinha a menor ideia do que poderia ser aquilo. Checou os equipamentos ao seu redor e nada, olhou embaixo dos leitos e não encontrou nada também, além de ser obrigado a ouvir outra ofensa do senhor Agenor. Virou-se então para o leito de Arthur e aparentemente o som ficou um pouco mais evidente.

Assim como fizera no outro leito checou por todos os lados, mas não conseguia encontrar a fonte do ruído. Aquilo começava a incomodá-lo de uma maneira quase obsessiva e então resolveu se concentrar melhor para conseguir identificar logo o que era aquilo e foi então que percebeu que o ruído na verdade pareciam com palavras repetidas continuamente, como se fossem algum tipo de prece. Imediatamente aproximou o ouvido da boca de Arthur.

O mistério acabou imediatamente, apesar de sufocado, o som definitivamente estava vindo dali. Mas como era possível se aquele rapaz estava deitado há quase um ano naquela cama sem demonstrar nenhuma reação, seu grau de consciência era quase nulo. Não tinha como ele começar a reagir tão inesperadamente.

Insistente, ele se aproximou outra vez.

- Sh... kin... ba... Sh... kin ... ba... – Ouviu então o rapaz repetir cada vez mais claramente.

Apesar de indecifrável, ele parecia querer falar alguma coisa, o que provavelmente seria impossível.

O estranhamento inicial da situação e incredulidade se tornou em fato real quando ele percebeu que Arthur havia fechado os dois punhos com força.

Quase que instintivamente Hamilton saiu correndo dali para avisar algum médico de plantão, e não presenciou portanto o momento em que o jovem abriu os olhos bruscamente revelando o tom avermelhado das pupilas, repetindo algo que parecia apenas murmúrios, mas que o mais atento talvez conseguisse entender:

- Shaka Il Sabar!


Elafium: A guerra ocultaOnde histórias criam vida. Descubra agora