Talvez fosse culpa da atmosfera de mistério que pairava sobre aquelas duas mortes, mas o fato é que nunca a pequena capela do cemitério Rei Estevão esteve tão cheia em um funeral antes.
Os corpos haviam sido transferidos do local onde costumavam ser feitos os funerais para a capela que era um pouco maior, e estavam dispostos um ao lado do outro em grandes caixões de madeiras cercados por flores, o que gerou grandes controvérsias entre as famílias já que a versão liberada pela policia afirmava que Emerson havia sufocado a esposa com um travesseiro antes de saltar pela janela.
A capela pintada de um azul claro desbotado pelo tempo, despontava em meio a diversos túmulos e lapides sem brilho ou cor, ornados normalmente por vasos com flores murchando ao tempo e fotos em preto e branco dos falecidos ali enterrados.
Apesar do sol quente e brilhante que iluminava o céu de Anga-Guaçú naquele dia, o clima permanecia pálido e frio dentro daquele cemitério e dezenas de pessoas se organizavam em uma fila para conseguirem entrar na capela e poderem assim se despedir do jovem casal morto. Entre elas se encontravam Sofia, Glória e Estéfano.
- Acho uma falta de respeito tão grande este montueiro de gente em volta dos mortos! Bando de urubu curioso. – Reclamou Glória por baixo de um enorme óculos de sol que lhe cobria quase todo o rosto enquanto se abanava com um leque florido feito a viúva Porcina. – Aposto que nem metade conhecia os dois.
- Achei que já tivesse se acostumado afinal de contas nessa cidade qualquer coisa vira um evento – Respondeu Sofia zombando.
- Mas eu acho que pra tudo tem um limite, não é mesmo? Gente, estamos lidando com o sofrimento de uma família. Com a perda de uma filha, uma sobrinha. Sem falar que são quatro horas da tarde, este povo não tem o que fazer não?
Sofia apenas sorriu.
- Viu! Mudando de assunto, eu já conversei com Teresa e ela concordou de tu vir morar conosco enquanto conserta tua casa. – emendou Glória.
- Ah é? Não vai ter problema para vocês mesmo?
- Imagina minha flor, vai ser um prazer. A gente tem espaço lá de sobra.
- Obrigada Glória!
- Não tem por onde. Engraçado a gente acha que está livre da violência aqui nesse fim de mundo e de repente acontece uma coisa dessas, não é mesmo? Quem iria imaginar que um meliante iria entrar na sua casa e fazer todo este estrago.
- Pois é menina! O pior é que nem levaram nada de muito valor. Acho que perceberam que não tinha nada de interessante para roubarem em casa e resolveram quebrar tudo. – Mentiu Sofia.
- Por sorte você não estava lá dentro, não é mesmo?
- É verdade, ainda bem. Mas agora eu já acionei o seguro e acredito que em alguns dias tudo já deve estar de volta ao normal.
- Que bom, mas tu não precisa se preocupar com o tempo que vai ficar em casa não, viu! Pode ficar quanto quiser.
- Eu agradeço, mas vou ficar somente o necessário. Ainda preciso arranjar um lugar para deixar o Marvin e não posso deixar o bichinho sozinho por muito tempo, não é?
- Também já te disse que se quiser pode levar o cachorro também.
- Ah não, ai já é demais né? Pode deixar que eu vou tentar achar um desses hotéis que cuidam de cachorros para hospedá-lo enquanto consertam a casa.
- Bom, tu é quem sabe menina. Eu e Teresa não nos importamos.
- Eu acho que vai ser melhor assim! – Disse Sofia dando mais um passo com a fila. - E a Teresa, Glória? Porque não veio?
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Elafium: A guerra oculta
Mystery / ThrillerCom o intuito de fugir dos fantasmas de seu passado, a enfermeira Sofia Guerra resolve começar uma vida nova longe de sua família, em Anga-Guaçú - cidade do interior paulista que começa a sofrer com o repentino crescimento desordenado trazido por g...
