Fazia pouco mais de uma hora que Sofia havia despertado e sua cabeça latejava como se tivessem acabado de atingi-la com uma marreta. Estava presa em uma minúscula cela em algum lugar fedido e úmido, típico daqueles calabouços do século XV
Machucada, com fome e sede, usou seus últimos lampejos de força para se levantar e gritar por socorro pela pequena grade de ventilação. Aparentemente todo esforço fora em vão, não obteve nenhuma resposta e também não conseguiu identificar onde estava. Sua altura só lhe permitia enxergar o céu, mesmo na ponta dos pés. A única coisa que tinha certeza é que não estava mais em Anga-Guaçu, aquele vento frio que invadia a cela simplesmente não existia em sua cidade.
Sem alternativas se jogou exausta no chão onde um rapaz bastante magro se estendia inconsciente de bruços. Ainda respirava e seus batimentos cardíacos estavam bastante fracos. Foi a primeira coisa que Sofia constatou quando despertou.
A enfermeira durona sempre se orgulhou por nunca ter se entregado ao medo, enfrentava tudo de peito aberto - sem frescura, como costumava dizer. Porém naquele momento de solidão e impotência, entregue ao frio e a penumbra macabra daquele lugar, não conseguiu resistir mais a tristeza entalada na garganta devido as diversas cenas de horror que vivera nos últimos dias e deixou as lágrimas brotarem livres de seus olhos se entregando aos engasgos e lamúrias contidos por muito tempo.
O arrependimento batia à sua porta por ter se mudado para aquele lugar infernal. Pela primeira vez na vida concordava com um conselho de sua mãe que sempre fora contra a sua mudança. Ah sua mãe, porque não lhe dera ouvidos? Como queria que ela estivesse ali só para abraçá-la e esquecer todas as discussões e desentendimentos que insistentemente construíram com o decorrer dos anos. Nada daquilo mais lhe importava. Como uma criança carente, Sofia queria desesperadamente o abraço da mãe.
Suas lamentações foram interrompidas no momento em que ouviu vozes e barulho de passos se aproximando. Sem demora, tratou de secar com as mãos o rosto ensopado da melhor maneira possível e colou os olhos entre as grades na tentativa de descobrir quem se aproximava.
Não demorou muito para visualizar, descendo as escadas, o vulto de dois homens. Um alto, careca e truculento que arrastava pelo colarinho da camisa um outro também careca porém com um terço da massa corpórea do primeiro. Ao julgar pela silhueta e tom de voz não teve dúvidas, tratava-se de Plínio.
- Vocês não podem fazer isso comigo, nós tínhamos um trato. – Reclamava Plínio com a voz esganiçada.
- Fica quieto Plínio. – Respondeu o outro. – Você acabou de quebrar esse acordo.
- Não Sirrah. Aquela sua chefe estranha exigiu algo que eu não poderia fazer. Sem falar que eu já cumpri com minha parte, já não devo mais nada à vocês.
- Ela não é minha chefe. – Respondeu o homem visivelmente irritado.
- Pois não foi o que pareceu.
Com violência Lecto Sirrah abriu a cela onde Sofia estava presa e arremessou Plínio lá dentro, como se fosse apenas um pacote de arroz.
- Agora vê se cala a boca pelo menos nessas últimas horas que tem de vida. – Concluiu o beriarti trancando a cela novamente.
- Vá se ferrar Sirrah! – Praguejou Plínio correndo para a grade. – Sua mãe está na zona, seu idiota!
Mesmo já estando longe, foi possível ouvir a gargalhada do beriarti.
Plínio bufando de ódio, se virou então para dentro da cela e antes de perceber quem também estava lá dentro, foi recepcionado com um ardido tapa na cara.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Elafium: A guerra oculta
Misteri / ThrillerCom o intuito de fugir dos fantasmas de seu passado, a enfermeira Sofia Guerra resolve começar uma vida nova longe de sua família, em Anga-Guaçú - cidade do interior paulista que começa a sofrer com o repentino crescimento desordenado trazido por g...
