TRINTA E NOVE

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Fazia pouco mais de uma hora que Sofia havia despertado e sua cabeça latejava como se tivessem acabado de atingi-la com uma marreta. Estava presa em uma minúscula cela em algum lugar fedido e úmido, típico daqueles calabouços do século XV

Machucada, com fome e sede, usou seus últimos lampejos de força para se levantar e gritar por socorro pela pequena grade de ventilação. Aparentemente todo esforço fora em vão, não obteve nenhuma resposta e também não conseguiu identificar onde estava. Sua altura só lhe permitia enxergar o céu, mesmo na ponta dos pés. A única coisa que tinha certeza é que não estava mais em Anga-Guaçu, aquele vento frio que invadia a cela simplesmente não existia em sua cidade.

Sem alternativas se jogou exausta no chão onde um rapaz bastante magro se estendia inconsciente de bruços. Ainda respirava e seus batimentos cardíacos estavam bastante fracos. Foi a primeira coisa que Sofia constatou quando despertou.

A enfermeira durona sempre se orgulhou por nunca ter se entregado ao medo, enfrentava tudo de peito aberto - sem frescura, como costumava dizer. Porém naquele momento de solidão e impotência, entregue ao frio e a penumbra macabra daquele lugar, não conseguiu resistir mais a tristeza entalada na garganta devido as diversas cenas de horror que vivera nos últimos dias e deixou as lágrimas brotarem livres de seus olhos se entregando aos engasgos e lamúrias contidos por muito tempo.

O arrependimento batia à sua porta por ter se mudado para aquele lugar infernal. Pela primeira vez na vida concordava com um conselho de sua mãe que sempre fora contra a sua mudança. Ah sua mãe, porque não lhe dera ouvidos? Como queria que ela estivesse ali só para abraçá-la e esquecer todas as discussões e desentendimentos que insistentemente construíram com o decorrer dos anos. Nada daquilo mais lhe importava. Como uma criança carente, Sofia queria desesperadamente o abraço da mãe.

Suas lamentações foram interrompidas no momento em que ouviu vozes e barulho de passos se aproximando. Sem demora, tratou de secar com as mãos o rosto ensopado da melhor maneira possível e colou os olhos entre as grades na tentativa de descobrir quem se aproximava.

Não demorou muito para visualizar, descendo as escadas, o vulto de dois homens. Um alto, careca e truculento que arrastava pelo colarinho da camisa um outro também careca porém com um terço da massa corpórea do primeiro. Ao julgar pela silhueta e tom de voz não teve dúvidas, tratava-se de Plínio.

- Vocês não podem fazer isso comigo, nós tínhamos um trato. – Reclamava Plínio com a voz esganiçada.

- Fica quieto Plínio. – Respondeu o outro. – Você acabou de quebrar esse acordo.

- Não Sirrah. Aquela sua chefe estranha exigiu algo que eu não poderia fazer. Sem falar que eu já cumpri com minha parte, já não devo mais nada à vocês.

- Ela não é minha chefe. – Respondeu o homem visivelmente irritado.

- Pois não foi o que pareceu.

Com violência Lecto Sirrah abriu a cela onde Sofia estava presa e arremessou Plínio lá dentro, como se fosse apenas um pacote de arroz.

- Agora vê se cala a boca pelo menos nessas últimas horas que tem de vida. – Concluiu o beriarti trancando a cela novamente.

- Vá se ferrar Sirrah! – Praguejou Plínio correndo para a grade. – Sua mãe está na zona, seu idiota!

Mesmo já estando longe, foi possível ouvir a gargalhada do beriarti.

Plínio bufando de ódio, se virou então para dentro da cela e antes de perceber quem também estava lá dentro, foi recepcionado com um ardido tapa na cara.

Elafium: A guerra ocultaOnde histórias criam vida. Descubra agora