QUARENTA E UM

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Micaela se lembrava pouca coisa de sua vida. As únicas memórias reais e lúcidas datavam de pouco mais que quatro anos atrás. As imagens dos acontecimentos anteriores a isso surgiam raramente e de maneira obscura, portanto para tentar manter de maneira saudável sua sanidade, havia decidido que sua história de vida seria reescrita a partir das primeiras lembranças após o acidente, o restante eram apenas fatos supérfluos que não lhe fariam diferença nessa nova vida.

A primeira pessoa que viu nesse renascimento foi Zuriel. O kifon se manteve ao seu lado e a acompanhou fielmente desde o momento em que despertara. Porém, nem ele e nem os outros lhe contavam com detalhes o que realmente havia acontecido naquela floresta. Apenas se restringiam em lhe explicar que havia quase morrido nas garras de um beriarti feroz e que uma sarialam acabou lhe salvando a vida. Sabia que aquilo era verdade, mas sentia que lhe escondiam algo.

Achava estranho aquela perda repentina de memória, tivera que reaprender praticamente tudo do zero, desde lidar com a sua kasini até a voar. Sem falar que era nítido o esforço que todos faziam para evitar que ela tivesse algum contato com qualquer pessoa fora da Casa, fosse zamon ou Sareden. Em determinado momento, Micaela até resolveu investigar por conta própria o que lhe havia acontecido, mas acabou não descobrindo nada relevante e então desistiu. Zuriel sempre sabia o que era melhor para todos, portanto se estava tão disposto a lhe esconder algo, talvez fosse melhor que não soubesse a verdade mesmo.

Ela simplesmente confiava nele, afinal desde o principio era ele quem estava lá ao seu lado lhe ensinando e auxiliando pacientemente. Era simplesmente impossível não sentir nada por ele.

Admiração, gratidão.

Amor.

Algo tão temido pelos Sareden, um sentimento tão puro e único, mas capaz de causar a destruição de um guillen. Por esse motivo todos eram alertados muito antes de pisarem em território zamon que eles estariam expostos as mesmas coisas que os humanos. Diziam que a tentação e a concupiscência eram os grandes inimigos dos zamon, que todos eram escravos de seus desejos e sentimentos e não conseguiam enxergar com clareza por causa disso. A partir do momento que um guillen pisasse na Terra, seria regido pelo mesmo livre arbítrio que os zamon, portanto teria que se monitorar a todo o momento para impedir que os fracos e passageiros sentimentos que iria saborear lhe corrompesse e o fizesse cair do Ehden.

O discurso duro e ameaçador dos velhos maskarin (1) era uma das poucas coisas que se lembrava durante o período que vivera no Ehden, ainda assim elas não lhe significavam tanto quanto realmente deveriam.

Micaela sabia exatamente o tamanho de seu afeto por Zuriel e apesar de tudo, não sentia nenhum remorso ou medo, porém sabia que nunca seria correspondida. O guillen levava a sério suas responsabilidades e nunca se entregaria a algo que pudesse transgredir tudo aquilo que acreditava. Ele a via apenas como uma irmã, e era exatamente assim que deveria ser para que nenhum dos dois viesse a cair.

De certa forma aquilo consolava seu coração, pois sabia que assim como ele não poderia ser dela, também não seria de mais ninguém, e isso era o suficiente para que ela continuasse mantendo seu amor platônico oculto.

Porém, aquela segurança foi ameaçada no dia em que foi apresentada a zamon chamada Sofia. Não conseguia esquecer o olhar tenro que Zuriel ofereceu a ela, um olhar inofensivo e belo, mas que despertou em Micaela outros dois sentimentos zamon igualmente perigosos. O ciúme e a inveja.

- Podemos pousar ali. – Sugeriu Zuriel apontando para o alto de uma colina.

Desde que saíram da casa da yasan Amina, Micaela, Zuriel e Estéfano estavam no mais pleno silêncio, sobrevoando os céus de Anga-Guaçú à procura de algo que aparentemente só ela poderia ver. Durante vários minutos rodearam a região do lago Testrálio caçando algum ziruscus, mas até então nenhum resolvera dar as caras.

Elafium: A guerra ocultaOnde histórias criam vida. Descubra agora