SESSENTA E UM

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Apesar de estar com o corpo cansado e doído, desde que chegara em casa naquela manhã não conseguira pregar os olhos. Muito pelo contrário, parecia que havia perdido tal capacidade e as pálpebras se mantinham permanentemente abertas, enquanto flashes dos últimos acontecimentos lhe surgiam de modo involuntário como se assistisse a uma reprise de um filme de terror.

Faziam mais de cinco séculos que Amina tinha sido designada como tutora e conselheira de guillen na Terra. No inicio recebera a noticia como uma severa punição, não se sentia preparada para abandonar a kasini e muito menos capaz de liderar esses guerreiros tão impetuosos, mas com o tempo foi encontrando sua própria maneira de lidar com as situações e acabou se acostumando com a posição que exercia. Porém a nova função lhe obrigou a trilhar alguns caminhos tenebrosos, que acabaram aos poucos a transformando em algo muito discordante do ser que fora outrora e juntamente com a carne que lentamente perecia, seus valores e convicções foram se esvaindo a cada perda e derrota que vivenciava. Hoje mal conseguia reconhecer aquela vibrante e destemida guillen que jurou morrer pelo que acreditava um dia.

Encontrava-se sentada em uma confortável poltrona em frente à janela enquanto assistia o entardecer daquele fatídico dia. Já passava das seis horas quando ouviu uma suave batida na porta.

- Pode entrar! – Solicitou. A voz naturalmente rouca lhe pareceu ainda mais falhada.

A porta se abriu e um jovem baixo para os padrões masculinos e com olhos puxados entrou.

- Hanu yasan! Conseguiu descansar? – Questionou Asher com ternura.

- Nem um segundo sequer. – Concluiu desanimada.

- Tem alguma coisa que posso fazer para lhe ajudar?

- Não mah dashinen, infelizmente não.

- Quer que eu traga algo para comer? A yasan não comeu nada desde ontem.

- Hai, nahasham! Acho melhor não, meu estômago está um pouco enjoado.

- A yasan precisa comer algo, não estamos no Ehden, aqui precisamos nos alimentar para sobreviver. Não posso permitir que fique tão fraca assim.

A senhora sorriu tenramente. Asher era o guillen mais novo que tinha em sua Casa e talvez por isso ainda a respeitasse como a uma mãe. Diferentemente dos outros, ele era o único que parecia ainda se preocupar com ela. Aquela era a segunda vez no dia que aparecia no quarto apenas para checar se estava tudo bem.

A parte mais difícil de toda aquela historia era saber que suas escolhas acabaram por distanciá-la de seus pupilos. Isso se já não estivesse sendo vista como a verdadeira inimiga, mas não adiantava mais lamentar, a única coisa que poderia fazer agora era aguardar até que o ódio deles passasse.

- Está bem! Acho que comerei então alguns biscoitos e um chá, quem sabe! – Respondeu Amina ensaiando um sorriso.

- Hai, já lhe trago então. – Respondeu prontamente o guillen.

- Tartanin Asher, espere! – Interrompeu a senhora. – Não precisa me trazer nada, eu descerei.

- Tem certeza? Se a yasan preferir eu lhe trago aqui em cima.

- Nahasham mah dashinen, não se preocupe. Aliás eu preciso mesmo esticar essas velhas pernas, fiquei muitas horas sentada nessa poltrona, só por um milagre não estou toda travada.

- Hai! Eu acompanho a yasan até lá embaixo então.

A velha Sareden caminhou até o rapaz que a esperava em frente à porta, e então - ainda que bastante melancólico - um sorriso lhe surgiu na face. Ao se aproximar, acariciou o rosto do rapaz em um raro momento de ternura.

Elafium: A guerra ocultaOnde histórias criam vida. Descubra agora