Uma irritante inquietação nas pernas não a deixava dormir em paz. Sentou-se então com as costas apoiadas em seu travesseiro e começou a massagear as panturrilhas. O despertador no criado mudo exibia as horas em um forte tom de vermelho. Já passavam das três da madrugada, isso significava que a mais de quatro horas estava rolando de um lado para o outro da cama sem êxito. As descobertas que havia feito no dia faziam questão de atormentar seus pensamentos transformando o sono de Sofia em um terrível pesadelo acordada.
Esfregou os olhos com força e tateou sobre o criado mudo à procura de seu copo com água, porém acabou descobrindo que já havia bebido tudo, o que aparentemente agravou a sede que sentia fazendo com que sua garganta secasse de uma maneira quase insuportável.
- Droga! – Praguejou em voz baixa.
Finalmente conformada com a falta de sono, Sofia se levantou e acendeu a luz do quarto se espreguiçando exageradamente. Marvin que roncava tranquilamente em uma pequena cama próximo à porta, se revirou incomodado com a claridade.
- Vamos Marvin! Chega de preguiça. – Ordenou Sofia agachada, esfregando a barriga do cachorro. – Eu preciso ir lá embaixo beber água e você sabe muito bem que como um verdadeiro guarda-costas deve me acompanhar.
Depois de muita insistência e alguns bocejos, o Pug ainda sonolento resolveu se levantar e guiar sua dona até a cozinha. A casa estava completamente tomada pela escuridão da noite quente, porém a luz branca da enorme lua que brilhava lá fora invadia os cômodos pelas janelas mergulhando os ambientes em um clima soturno.
Sofia viveu boa parte da vida sozinha e trabalhou durante muito tempo na madrugada, portanto nada disso a incomodava, ao contrário, adorava a tranqüilidade e paz trazida pela noite. Sempre fora uma garota solitária. Quando criança por diversas vezes perdia o sono durante a madrugada. Sua vontade imediata era de ligar o Super Nintendo e se perder por horas no mundo de Hyrule à procura de Zelda, mas como isso acabava por atrapalhar o sono da princesa que dormia na cama ao lado da sua, optava então por pegar seus bonecos, sentar na cama e se cobrir com o lençol iluminando tudo apenas com uma fraca lanterna à pilha que guardava junto com os brinquedos. Brincava durante horas até o sono vir lhe pescar novamente. Adorava quando isso ocorria, parecia estar segura naquele pequeno mundo escuro que criava.
Ainda guiada pelas necessidades físicas, Sofia seguia os pequenos e tropeços passos de Marvin descendo as escadas. Passaram rapidamente pela sala para finalmente chegarem a cozinha. Sofia então acendeu a luz e abriu a geladeira para pegar a garrafa de água. - normalmente dispensava água gelada, mas o calor da noite exigia medidas drásticas. Encheu um copo e se sentou em uma das cadeiras ao lado da mesa.
Marvin sentou-se ao lado da dona e ficou observando atentamente para ela com olhos cansados. Sofia não resistiu e pegou o cachorro no colo para enchê-lo de cafunés.
- Você é realmente o único macho em quem eu posso contar, Marvin! – Disse esfregando a orelha do bicho.
O cachorro se ajeitou por um tempo no colo de Sofia, mas incomodado logo pulou para o chão. Correu até a porta que dava acesso ao quintal dos fundos e começou a esfregar com uma das patas.
- Ah, entendi! Tem alguém apertado para ir ao banheiro. – Disse Sofia se levantando e abrindo a porta para o cachorro.
Marvin saiu correndo para o quintal, fez o que precisava e logo voltou para dentro, correndo em direção à sala.
- Ué, mas já vai me abandonar? – Questionou Sofia ainda em pé segurando a porta. – É por isso que nunca devemos elogiar um homem.
Sofia então se sentou novamente e encheu mais um copo de água. Queria de qualquer maneira tirar da cabeça as histórias bizarras de anjos e demônios que havia descoberto, mas aparentemente esta era uma tarefa impossível. Aquilo tudo ainda era muito surreal para acreditar. Nunca fora uma pessoa religiosa, mas sempre acreditou em forças ocultas que regem nossas vidas em silêncio. Sua avó ao contrário, era uma pessoa devota e fiel aos preceitos que cria e por isso tentava a qualquer custo passar algo para a neta. Sofia amava a avó como se fosse sua mãe, ela era uma das únicas pessoas que a enfermeira se importava em não decepcionar, portanto sempre ouvia tudo o que ela lhe ensinava e até mesmo a acompanhava à igreja, mesmo não dando muito importância para tudo aquilo. A Dona Judite sempre foi uma figura constante na vida de Sofia, portanto havia passado diversos valores a neta, tanto que sua mãe sempre dizia que ela era mais parecida com a avó do que com ela própria, principalmente levando em consideração o temperamento explosivo que as duas tinham. Até mesmo o interesse na área da saúde Sofia havia herdado, já que Judite trabalhara como auxiliar de enfermagem durante muitos anos de sua vida.
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Elafium: A guerra oculta
Mystère / ThrillerCom o intuito de fugir dos fantasmas de seu passado, a enfermeira Sofia Guerra resolve começar uma vida nova longe de sua família, em Anga-Guaçú - cidade do interior paulista que começa a sofrer com o repentino crescimento desordenado trazido por g...
