Um relógio cuco antigo pendurado na parede da sala, Indicava as horas. Cinco e quinze da manhã. A cada meia hora um pequeno pássaro entalhado na madeira fugia por um buraco e abria o bico, mas não soltava nem um pio. Pela aparência do objeto, faziam muitos anos que aquele pássaro não cantava.
Sofia estava em pé ainda de pijama na sala de dona Amina escorada na parede com os braços cruzados e apesar de saber que o cômodo estava repleto de pessoas discutindo, se sentia completamente sozinha, ouvindo somente o tic-tac do cuco mudo.
Até poucos dias atrás, tinha certeza que havia tomado a decisão certa ao abandonar a família para começar uma vida nova em Anga-Guaçu. Tudo parecia estar tão coerente com o momento que vivia que não pensou mais que duas vezes e correu para abraçar a oportunidade. Estava fugindo. Fugindo de algo que não compreendia, mas tinha certeza que precisava se restabelecer, ressurgir e se reinventar. Não queria mais precisar da aprovação de ninguém para as escolhas que fazia. Então o momento chegou. Aquela era a hora.
Durante os quinze meses que passou ali até então, tudo caminhou tranquilamente. Apesar das dificuldades de adaptação que já estavam previstas, o restante fluía bem. Mas se soubesse antes tudo que enfrentaria nesta cidade, talvez tivesse optado por continuar a mesma vida de sempre aturando os julgamentos da mãe e a hipocrisia da vida perfeita de sua irmã.
Pensando bem, era preferível enfrentar demônios mesmo.
- Sofia! – Chamou uma voz rouca. – Está surda?
- Oi? Desculpa dona Amina, acho que não estava prestando atenção.
- Zamon, faz quase meia hora que estamos discutindo o que ocorreu em sua casa e você nem sequer se manifestou. – Irritou-se Micaela.
- É verdade! – Concordou Baruc. – Se tem alguém que pode nos explicar o que aconteceu é você.
- A gente fica perdendo tempo confabulando e inventando teorias enquanto a zamon pode muito bem estar envolvida com tudo isso. - Reforçou Micaela.
- Pare com isso Mica! A Sofia não tem nada a ver com o ataque dos trinamon. – Defendeu Zuriel. – Ela quase foi morta por eles.
- Se eu e o Zuriel não tivéssemos chegado a tempo com certeza a zamon teria sucumbido. – Concordou Estéfano. – Mas o importante realmente é que todo o esforço me rendeu este troféu. – Disse erguendo o corpo decapitado do primen.
- Esse troço ainda esta pingando sangue. Desse jeito você vai acabar sujando a casa toda. – Reclamou Asher.
- Por acaso é você quem limpa a casa, guillen? – Questionou Estéfano.
- Pare de se gabar, Estéfano! Se não fosse por Sofia, você nem teria encontrado o primen. – Interferiu Zuriel.
- Mas fui eu quem o matou. Ergui minha kasini e com um único golpe separei a cabeça do corpo da pequena criatura. – Respondeu o shomer. – Mas como sou um Sareden honrado ofereço o troféu para a zamon caso queira levar.
Sofia apenas recusou com uma careta.
- Chega de divagações. – Interrompeu Amina. – Estamos aqui para tentar entender como e porque uma praga Ascarti proibida há séculos veio parar dentro da casa de uma humana.
- Você não tem mais nenhuma informação que possa nos dar, Sofia? – Questionou Asher.
- Não, já contei tudo o que sabia. – Respondeu desanimada.
- Mas esta história é muito estranha. – Interrompeu Baruc. – Eu nunca tinha visto um trinamon aparecer hospedado na barriga de um zamon.
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Elafium: A guerra oculta
Misteri / ThrillerCom o intuito de fugir dos fantasmas de seu passado, a enfermeira Sofia Guerra resolve começar uma vida nova longe de sua família, em Anga-Guaçú - cidade do interior paulista que começa a sofrer com o repentino crescimento desordenado trazido por g...
