Em todos os locais que trabalhara durante sua vida, o enfermeiro Aurélio Ottoni era tido por seus colegas de trabalho como o "gente boa". Como chefe era sempre companheiro, bem educado e compreensivo, todos realmente gostavam dele e sabiam que podiam contar para resolver os problemas durante o plantão. Talvez por causa disso até mesmo as suas chefes às vezes pareciam se aproveitar disso.
Trabalhava há quase cinco anos no plantão noturno da UTI no Hospital das Almas, e durante todo este período não se lembrava de uma única vez em que algum de seus companheiros fora chamado para cobrir outro setor ou plantão quando necessário. Por algum motivo, quando precisavam de alguém para quebrar o galho, era sempre a ele que alguma das Cintias recorria.
Por isso naquele dia, lá estava ele cobrindo o plantão da tarde na UTI já que o enfermeiro Ferdinando que era responsável pelo setor, estava cobrindo as férias da enfermeira Sofia na emergência.
Até gostava de trabalhar durante o dia, mas se quisesse ser mais respeitado e ter um pouco de paz, decididamente precisava aprender a falar não ou reclamar de vez em quando.
- Aurélio. Aqui está o paciente que foi socorrido na emergência. – Disse um técnico de enfermagem empurrando uma maca para dentro do setor.
O enfermeiro se aproximou do homem deitado inconsciente sobre a maca. Tratava-se do mendigo que havia passado mal e fora socorrido por Ferdinando e a equipe da emergência. Aurélio parecia reconhecer o homem maltrapilho, provavelmente havia cruzado com ele em alguma esquina da cidade.
- Parada cardíaca então? – Confirmou Aurélio em voz alta enquanto lia a ficha que estava junto ao paciente.
- Parece que sim.
- Mais um sem nome?
- Pois é! Não preencheu nenhuma ficha e também não encontramos nenhum documento com ele.
- Está bem! Coloque-o no leito 8 por favor.
O rapaz atendeu ao pedido do enfermeiro e com o auxilio de outros técnicos o colocou sobre o leito ao lado de Baruc.
O agente Golias, que havia saído para tomar café, estava retornando naquele momento, porém não deu muita importância e voltou a se sentar na desconfortável cadeira ao lado do guillen ainda inconsciente.
Colocou seus óculos de leitura e começou a folhear o livro que havia trazido para passar o tempo. "Angustia" de Graciliano Ramos foi a sua escolha, na verdade não tivera muito tempo de escolher e acabara pegando o primeiro que vira, todavia o incômodo de estar preso àquele local somado ao fato de já ter lido o livro inúmeras vezes não permitiam que se concentrasse dignamente à leitura.
Bufando, desistiu e fechou a Angustia. Pôs-se de pé e tirou os óculos colocando-o junto ao livro sobre a poltrona. Por alguns momentos ficou analisando aquela enorme e imponente figura deitada ao seu lado completamente frágil e solitária. Por ironia do destino, logo ele que sempre fora considerado o mais fraco e incapaz por aqueles que o rodeavam durante a sua vida, tinha sido designado para ficar ali cuidando daquele guerreiro do Ehden.
Imaginou o que poderia fazer em caso de perigo já que mal conseguia defender a si próprio quando necessário e não pôde evitar um sorriso ao imaginar a cena. Um anão protegendo um gigante, uma história digna do velho testamento. O agente Wilson realmente devia estar sem opção nenhuma para tomar aquela decisão. Somente o tonto do Sulivan seria uma alternativa pior.
Perdido em seus pensamentos, Golias se assustou ao perceber que uma das mãos de Baruc havia estremecido por um segundo. A princípio achou que era coisa de sua mente cansada e maltratada pela noite mal dormida, mas a mão novamente se mexeu, desta vez fechando o punho com furor.
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Elafium: A guerra oculta
Tajemnica / ThrillerCom o intuito de fugir dos fantasmas de seu passado, a enfermeira Sofia Guerra resolve começar uma vida nova longe de sua família, em Anga-Guaçú - cidade do interior paulista que começa a sofrer com o repentino crescimento desordenado trazido por g...
