CINQUENTA E NOVE

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Apesar de ter deixado todo o quarto fechado na esperança de se manter guardado na escuridão e silêncio pelo maior tempo possível, o som irritante de duas meninas exaltadas brincando de queimada na rua acertou em cheio seus ouvidos lhe impedindo de continuar dormindo

Indignado com a invasão sonora, ainda tentou se virar na cama cobrindo a cabeça com o travesseiro, mas aparentemente aquelas duas criaturas adivinharam sua intenção e começaram a gritar em um tom inumanamente agudo, capaz de atravessar até mesmo uma grossa camada de viscoelástico.

Pedro Golias então pulou da cama com o rosto estourando em um forte tom escarlate e violentamente escancarou a janela da sacada. A luz forte daquele dia de verão atingiu em cheio suas retinas quase lhe obrigando a voltar correndo para as trevas, mas a situação fez com que sua ira explodisse de vez e com as pequenas mãos protegendo os olhos caminhou decididamente pela sacada. Puxou um banquinho que se encontrava no canto e subiu para alcançar o topo do muro.

- Silência, suas fedelhas! – Gritou então extravasando o ódio contido. – Não estão vendo que tem gente tentando dormir?

Ao ouvir os insultos, as duas garotas assustadas imediatamente cessaram a brincadeira.

- Ih, desculpa ai seu anão! – Disse a mais velha enquanto a menor corria para se esconder atrás dela.

- Seus pais não deram educação para vocês não? Onde já se viu ficar gritando em frente a porta dos outros a essa hora da manhã?

- Manhã? – Estranhou a menina. – O senhor deve estar enganada seu anão. Eu e a Magda já até almoçamos, foi minha mãe quem deixou a gente brincar aqui um pouco.

- Pois não me admira sua mãe ter tido duas gralhas desmioladas, deve ser outra maluca também. Deve ser uma gorda maluca, isso sim.

- Ei não fala assim da minha mãe. Ela não é gorda não, viu?

- Pois eu quero vocês duas vão para o inferno juntas com a balofa da sua mãe e me deixem em paz.

Sob o som estridente do choro da menor, saltou então do banco ainda com os ouvidos zunindo de ódio e voltou para dentro do quarto batendo com força a porta da sacada.

Ainda tentou resgatar o sono se deitando na cama novamente, mas mesmo depois que o silêncio voltou a reinar na rua, não conseguiu. Aquelas duas haviam lhe tomado a paz realmente.

- Merda! – Pensou em voz alta.

Após rolar por alguns minutos, desistiu. Sentou na beirada da cama e mirou no despertador que descansava ao seu lado. 1:08 PM reluzia em vermelho. Era tarde mesmo, as pirralhas tinham razão.

Olhou para o chão e encontrou seu confortável chinelo de tecido pousado tranquilamente sobre o tapete e se irritou ao lembrar que teria que descer até o chão para colocá-los. Quando resolveu comprar uma cama optou pela mais confortável da loja e somente quando o móvel chegou é que se deu conta que a altura do colchão era tamanha que seria preciso quase escalá-lo para conseguir se deitar.

Sempre sofrera com o fato do mundo não ter sido projetado para ele, sentia o tempo todo que era um excluído e por esse motivo se limitava a sair de casa somente para trabalhar ou em casos de extrema urgência.

Já com os chinelos calçados, se dirigiu para o banheiro e subiu em outro banco que havia ali para poder escovar os dentes se olhando no espelho.

Deparou-se com o rosto redondo e inchado quase irreconhecível. Um grande hematoma roxo adornava seu olho direito devido ao soco que recebera de Baruc no hospital e do mesmo lado a ponta de sua orelha agora estava rachada ao meio por causa do tiro que tomara de Barbara.

Foi então que um sorriso subitamente emergiu em seu rosto convertendo-se gradativamente em uma sonora e quase macabra gargalhada.

Quem diria?

Seu alto e abusivo pai ficaria orgulhoso se pudesse vê-lo naquele momento. Zombou dele a vida inteira por carregar seu irônico sobrenome. Golias.

Dizia que era uma vergonha para seus ancestrais e que teria sido muito mais apropriado se o tivesse registrado como Zangado ou Dengoso. Por diversas vezes se referia a ele como Hobbit principalmente quando se encontrava em uma roda de amigos. O som do escárnio nas risadas lhe tirara diversas noites de sono.

Mas hoje, assim como descrito no velho testamento, o gigante caiu aos seus pés. Não somente um, mas três.

Baruc havia perecido, Frio havia perecido, Barbara havia perecido, mas Pedro Golias se mantinha em pé e depois daquele dia ninguém nunca mais lhe derrubaria ou zombaria de sua cara. Conseguia até mesmo visualizar o rosto do pai - que sempre fizera questão de lhe demonstrar repulsa – finalmente amedrontado ao lhe encarar.

Era uma pena o velho estar morto.

Subitamente resgatado de seu devaneio momentâneo, terminou de escovar os dentes e pulou do banco confiante e determinado como se medisse dezenas de metros de altura.

Correu para o quarto até então tomado pela escuridão e acendeu a fraca luz do abajur deixando o ambiente tomado por sombras lúgubres. Verificou debaixo da cama e em todos os demais cantos. Puxou bem as cortinas e quando se certificou que realmente estava sozinho começou a caminhar em direção a uma sapateira de madeira que mantinha no canto do cômodo.

Sentiu a euforia tomar seu pequeno corpo e com a respiração ofegante abriu uma das portas retirando alguns sapatos que se encontravam na frente revelando assim um pequeno cofre em aço escondido no fundo. Decidido começou a girar a combinação dos números e então a porta se abriu.

Junto a alguns passaportes, documentos e até mesmo alguma quantia em dólar, lá estava ele esplendoroso esperando pelo seu novo dono.

Com a garganta seca, enfiou a mão suada e o retirou gentilmente dali. Sentou com as pernas cruzadas sobre o confortável carpete bege e repousou o objeto delicadamente à sua frente para poder apreciar sua beleza.

O Ovo de Kovarion por sua vez iluminou seus olhos com a luz púrpura que emanava enquanto as almas aprisionadas lá dentro dançavam de maneira quase hipnotizante.

Com a ponta dos dedos ergueu o carisman e o aproximou do rosto sorridente antes de beijá-lo com ternura e gargalhar de forma sombria novamente.

Elafium: A guerra ocultaOnde histórias criam vida. Descubra agora