TRINTA

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Quase todos os dias o agente Pedro Golias tinha o costume de se levantar mais tarde. Uma terrível dor de cabeça o acertava em cheio todas as noites por volta das 22 horas. Já havia tentado investigar a causa por diversas vezes, mas nenhum dos médicos que o examinava encontrava um motivo ou lhe dava algo que pudesse aliviar a sensação de miolos sendo esmagados. As explicações iam desde stress a supostos tumores, porém nada era comprovado. Por fim, após muita insistência e insultos à competência médica, resolveu desistir de procurar a cura e conviver com os sintomas da maneira mais amigável possível. Sendo assim, aproximadamente ás 21h40 sentava-se confortavelmente em sua poltrona na sala toda escura acompanhado por uma garrafa de um bom Chardonnay e dois ou três comprimidos de Valium, ligava a televisão no mudo enquanto no aparelho de som deixava alguma música clássica - preferencialmente Schubert ou Chopin - soar em som ambiente na esperança de lavarem os pensamentos que lhe atormentaram o dia.

Próximo das duas da manhã com a garrafa quase no final, o sono finalmente vencia a dor e ele então se qualificava apto para deitar na cama. Com sorte, não precisaria acordar novamente e repetir o processo.

Por este motivo sempre enfrentou alguns problemas nos empregos que arranjava, mas felizmente o agente Wilson lhe pareceu bastante compreensivo ao lhe explicar a situação e permitiu que começasse a trabalhar apenas depois que estivesse completamente reconstituído.

Naquele dia, por um infortúnio do destino, seu telefone tocou logo cedo e em poucos minutos se viu obrigado a cumprir uma missão designada pelo próprio agente Wilson. Aparentemente nenhum outro agente estava em condições naquele momento de atender ao chamado do chefe, e por este motivo exatamente as oito e quinze da manhã, lá estava ele sentado em uma desconfortável cadeira ao lado daquele leito de UTI do hospital das almas, brigando para se manter acordado e ainda sentindo os resquícios da dor de cabeça bem no meio da testa, agravada pela ressaca mal curada.

Momentaneamente a atmosfera melancólica do hospital foi quebrada com a entrada apressada de dois rapazes no setor. Golias reconheceu imediatamente o guillen dos cabelos negros metido a Spartacus matador de demônios que encontrara nas grutas no dia anterior, junto a ele estava uma enorme figura provavelmente provinda de algum livro de história de conquistas vikings, ostentando um longo cabelo amarrado estupidamente com um elástico amarelo.

- Hanu zamon, o que aconteceu com Baruc? – Questionou o gigante ao agente ao se deparar com o colega deitado sob o leito.

Golias demorou alguns instantes para processar a pergunta e antes que conseguisse responder uma mulher loira e esguia com penetrantes olhos verdes se aproximou do trio.

- Bom dia. Me chamo Victoria e sou a enfermeira responsável pela UTI. – Disse com um suave sotaque castelhano. – Gostaria de pedir que os senhores falassem mais baixo aqui dentro.

- Está certo enfermeira, me desculpe. – Respondeu Zuriel se retratando. – Você sabe me dizer o que aconteceu com ele? – Perguntou apontando para Baruc.

- Vocês conhecem o paciente? – Questionou a enfermeira.

- Sim. – Responderam os dois juntos.

- E qual o nome dele? Foi encontrado sem nenhum tipo de documento.

- Ele se chama Baruc. – Respondeu Zuriel. – É nosso amigo.

- Baruc? Nome diferente, por acaso sabem o sobrenome?

Os dois se entreolharam e balançaram a cabeça em negativa.

- Ok! Vocês trabalham aqui? – Questionou analisando o uniforme dos rapazes.

- Sim trabalhamos na manutenção.

- Manutenção? – Estranhou Victoria. – Este não parece o uniforme...

Elafium: A guerra ocultaOnde histórias criam vida. Descubra agora