Gustavo narrando
Fiquei meio bolado com a Julia, confesso, mas não posso culpá-la. Ela tá certa, a gente não pode abusar da sorte, mas toda essa situação me deixa puto. Não dormi de noite pensando que tudo era injusto e como eu queria mudar as coisas.
Levantei cedo, tomei um banho gelado, escovei os dentes, vesti a roupa e saí. Tinha coisa demais pra resolver na boca, quando digo que o Gusmão deixou o morro uma bagunça, quero dizer que ele não pagava os cria, usava a droga que deveria vender, vendia os armamento pra ficar com o dinheiro, enfim, uma merda. Já tô conseguindo colocar tudo no lugar. Isso dá trabalho e eu tô cansado pra caralho, mas foi a minha escolha, e não me arrependo.
Passei na padaria e comi um misto quente com café preto, paguei e fui direto pra boca. Quando cheguei lá, o JG já veio atrás de mim dizendo que tinha mais problema. Fiquei a manhã inteira fazendo umas conta, tentando enrolar um fdp que o antigo dono ficou devendo, e dei graças a Deus por ter tomado café, já que só consegui almoçar lá pras 16h, porque a Mariana – uma Maria fuzil que tá no meu pé – fez a boa e levou uma quentinha pra mim.
Depois de comer, ia subir pra casa, mas no meio do caminho umas crianças pediram pra eu jogar futebol porque tava faltando uma pessoa no time, então entrei né. Devo tá muito enferrujado mesmo, passei aperto pra moleque de 12 anos, provavelmente vou acordar cheio de dor nas pernas amanhã, mas valeu pela diversão.
Um abençoado – pra não chamar de outro nome – me derrubou e eu fiquei puto, joguei na força do ódio. Enfim, meu time ganhou, dei dinheiro pros moleque comprar uma bola nova (porque aquela tava foda né) e saí do campinho pra ir embora. Acabei esbarrando o olhar numa morena que conhecia muito bem, sorri de lado e fui até ela.
— Tá fazendo o que aqui? – Perguntei ao me aproximar.
— Ué, não foi você que me chamou? – Arqueou a sobrancelha.
— Foi... vamo lá em casa, tô cheio de suor. – Ela assentiu, me seguindo quando comecei a andar. – Tá aqui há quanto tempo?
— Alguns minutos. Sua função aqui é brincar com as crianças? – Brincou.
— Sim, quando sobra tempo eu sou dono do morro. – Respondi no mesmo tom.
— Quanta autoridade. – Gargalhou.
Ao chegar em casa, fui pro banho enquanto ela esperava na sala. Lavei os cabelos, passei condicionador, tentei ser rápido, mas mesmo assim acho que demorei um pouco. Quando terminei o box tava cheio de fumaça. Quase caí pra trás no momento em que entrei no quarto e encontrei a Julia com o meu radinho na mão, remexendo minhas coisas.
— Tá procurando o que aí, hein? – Ela pulou de susto ao ouvir minha voz, me olhou e deu risada.
— Você tem umas coisas interessantes. – Murmurou, levantando o 38 que eu guardo no criado mudo.
– Você também tem umas coisas que me interessam. – Ironizei, tomando o revólver da sua mão e guardando de novo, depois fui pegar uma roupa pra vestir.
— Idiota. – Revirou os olhos. – Sua casa é grande.
— Gostou? – Lhe encarei através do espelho, vendo a Julia assentir em concordância. – Vamo morar aqui quando você casar comigo.
— Quem disse que eu vou casar contigo?
— Eu disse. – Ri, voltando pro banheiro. – Quando você perceber já vai tá pra cima e pra baixo com a nossa filha no colo e me xingando por deixar a toalha molhada em cima da cama. – Falei enquanto terminava de vestir a cueca e a bermuda, indo até o quarto logo depois.
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Marginal
Ficção Adolescente[+16] Julia nasceu em berço de ouro. Literalmente. Filha de um cardiologista e uma nutricionista, nunca precisou chorar por não ter algo. Seu pai, ao contrário, passou anos lutando para ter a fortuna que conseguiu construir. Marcelo nasceu na favela...
