Todo ano, meus pais viajavam para o interior visitar uns parentes que moravam por lá. Eu odiava. A visita durava apenas um final de semana, mas parecia uma eternidade. Eram noites sem dormir, ouvindo grilos, vacas e cachorros do mato. Mosquitos picando. O calor era insuportável e o ventilador, uma piada. As pessoas roncando nas camas ao redor. Teias de aranha no teto, que pareciam vigiar meu sono, ou a falta dele. Um inferno. E ainda tinha o passeio até a cachoeira, que era a parte mais suportável, se é que isso se pode dizer.
O caminho até lá era um martírio, mato adentro, montanha acima. Eu costumava me perguntar o que, diabos, me fazia continuar com essa viagem ano após ano. Para quê ir até lá, se as montanhas eram o único consolo? Mas a cachoeira... Ah, a cachoeira era uma maravilha da natureza. Água gelada, quase como se viesse direto do gelo eterno, e aquele vapor que subia, esfumaçado. Eu já estava esperando pelo alívio daquela água refrescante, como o único momento de paz no meio daquela loucura rural.
Mas na madrugada que antecedia o passeio, acordei com uma dor insuportável na bexiga. Como sempre, eu tinha bebido mais do que deveria, no dia anterior, durante uma aposta imbecil com meu primo, sobre quem beberia mais refrigerante. Ele ganhou, claro. O pai dele tinha uma venda à beira da estrada de terra, e o primo estava acostumado a beber mais do que qualquer ser humano deveria. Mas eu também bebi dois engradados de 1 litro. Agora minha bexiga parecia prestes a explodir.
O céu ainda estava escuro quando me levantei da cama e saí, tateando no escuro, atravessando o quintal imundo, um campo de vacas e galinhas. O banheiro ficava longe, do lado de fora da casa. Uma porcaria, mas o desespero era maior que a raiva de ter que enfrentar aquele lugar maldito. O terreno estava enlameado, o cheiro de bosta misturado com a terra úmida, e as vacas... bem, as vacas estavam sempre por perto, com seus olhares vazios e sua merda espalhada pelo chão. Sem contar as cobras, que eram o pior. Mas a bexiga não ia esperar, então lá fui eu.
Enquanto caminhava, tentando não escorregar em nada nojento, ouvi um estrondo. Um trovão? Não. Era mais como um rugido distante, mas tão forte que parecia vir das próprias montanhas. Me virei, hesitante, tentando entender o que estava acontecendo. O céu estava negro, as estrelas estavam apagadas pela escuridão, mas algo na montanha... algo se movia.
E foi quando eu vi.
Lá, bem acima das montanhas, algo gigantesco, imenso, emergia das sombras. Eu fiquei paralisado. Não conseguia acreditar no que meus olhos estavam vendo. Um ser, colossal, com um rosto reptiliano, de feições antigas e pré-históricas. Os olhos eram pequenos, fracos, quase como se a criatura estivesse meio dormindo, mas, quando me fitaram, o frio que senti no sangue foi instantâneo. Havia malícia ali. Malícia pura, como se aquele ser soubesse exatamente o que estava acontecendo. E eu, em meu tamanho insignificante, não fosse nada mais que um detalhe para ele.
A criatura bocejou. Como se estivesse se espreguiçando depois de um longo cochilo. Coçou a cabeça colossal, como se aquilo fosse o mais normal do mundo. Depois, com um novo estrondo, desapareceu atrás das montanhas, se deitando como se fosse tirar mais um cochilo. Fiquei parado ali, sem conseguir mover um músculo. O tempo parecia ter parado. O ar estava gelado e, por algum motivo, eu sentia como se a realidade estivesse desmoronando ao meu redor.
Eu fiquei ali, no meio do caminho, entre a casa e o banheiro, até perceber que minhas calças estavam molhadas. Eu olhei para baixo, confuso, e notei que uma galinha estava bicando meus pés. Espantei o bicho, o coração disparado, e corri de volta para a casa. Eu não me lembro de como entrei no quarto, mas lembro de me enfiar debaixo dos cobertores, tremendo como uma folha, esperando que o amanhecer nunca chegasse.
Quando o sol finalmente apareceu, e todo mundo começou a acordar, eu ainda estava lá, deitado, com os olhos fixos no teto. Meus olhos estavam ardendo, e eu não conseguia dormir. Meu corpo ainda estava tenso, o medo congelado em minhas veias. Quando meus pais vieram me acordar para o passeio, eu simplesmente não consegui. Fiquei implorando, fazendo um drama digno de Oscar. Gritei que não ia de jeito nenhum, que não conseguia ir até lá depois do que vi. Minhas palavras saíam atropeladas, mas meus pais, cansados da viagem e da rotina, acabaram cedendo.
— Vamos voltar mais cedo — disse minha mãe, meio irritada, mas cedeu.
— Não tem como ir com esse desespero todo, né? — meu pai acrescentou, balançando a cabeça. — A viagem não vale o sofrimento.
E foi assim que nunca mais voltamos para o interior.
O que eu vi naquela noite? Eu nunca soube explicar direito. Minha mente me dizia que aquilo não poderia ser real. Mas até hoje, anos depois, sempre que me pego sozinho, no silêncio da noite, ainda posso ouvir o som daquele estrondo, e o pensamento de que talvez, lá nas montanhas, aquela coisa ainda esteja dormindo.
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SOMBRAS DA NOITE
SeramEste livro de contos curtos de terror apresenta uma coleção de histórias arrepiantes e sobrenaturais. Em um dos contos, um menino descobre segredos obscuros sobre sua família ao se aventurar pelo porão proibido da casa de sua avó, onde encontra uma...
