Todo ano meus pais insistiam naquela viagem para o interior, como se fosse algum tipo de tradição sagrada que ninguém tinha coragem de quebrar. Eu odiava. Não era um ódio adolescente comum, daqueles que se dissolvem com o tempo; era algo mais físico, mais instintivo, como se o meu corpo inteiro já soubesse, antes de qualquer lembrança consciente, que aquele lugar não fazia bem para mim. A viagem durava só um fim de semana, mas tinha a densidade de uma vida inteira mal dormida. As noites eram tomadas por sons que não pertenciam à cidade — grilos insistentes, cães do mato latindo para o nada, vacas se mexendo na escuridão como sombras pesadas demais para o próprio corpo — e o calor era uma coisa sólida, pegajosa, que se instalava dentro da pele e não saía. O ventilador antigo da casa girava com uma lentidão ofensiva, como se também estivesse cansado de existir.
E ainda assim havia a cachoeira.
A cachoeira era o único motivo pelo qual eu não simplesmente me recusava a ir. Era o único ponto daquela paisagem que parecia não pertencer ao mesmo mundo do resto. No caminho até ela, subindo as trilhas estreitas entre montanhas e mato fechado, eu sempre me perguntava por que continuava voltando ano após ano, como se alguma coisa em mim estivesse presa àquele lugar. O percurso era um martírio de pedras soltas, lama e insetos invisíveis, mas a promessa no final era sempre a mesma: água tão fria que parecia vir de dentro da própria terra, caindo com força suficiente para apagar qualquer pensamento. Era o único momento em que o interior deixava de parecer um erro.
Naquela madrugada específica, porém, tudo começou antes da cachoeira.
Eu acordei com uma dor absurda na bexiga, consequência de uma aposta idiota com meu primo no dia anterior. A competição era simples e estúpida: quem bebia mais refrigerante. Ele venceu com facilidade, claro. Ele sempre vencia tudo naquele lugar, porque estava acostumado àquela vida, àquela abundância de açúcar barato e tédio rural. Eu tinha exagerado mesmo assim, dois engradados inteiros de um litro, e agora meu corpo parecia uma bomba prestes a falhar.
O céu ainda era uma massa negra quando saí da casa. Não havia iluminação, apenas o contorno das coisas se insinuando na escuridão. O caminho até o banheiro externo passava pelo quintal enlameado, onde o cheiro de esterco era tão constante que deixava de ser cheiro e virava atmosfera. As vacas estavam espalhadas como móveis vivos, imóveis, mastigando algo que eu não queria imaginar. As galinhas se moviam como pensamentos desconexos. E havia também a sensação de que o chão nunca era apenas chão naquele lugar. Sempre havia buracos, restos, ou coisas que não deviam ser pisadas.
Enquanto eu caminhava, tentando me equilibrar no escuro, ouvi o som.
Não era um trovão.
Era mais profundo.
Mais lento.
Como se alguma coisa estivesse se virando dentro do mundo.
Eu parei.
O instinto foi mais forte do que a dor na bexiga. O ar parecia ter mudado de densidade, como se o espaço entre mim e as montanhas tivesse ficado mais fino, mais frágil. E então eu vi.
Primeiro foi apenas uma forma, algo se destacando contra o céu sem estrelas, um volume impossível ocupando o topo das montanhas como se elas fossem apenas um apoio improvisado. Depois vieram os detalhes, e foi aí que minha mente começou a recusar o que meus olhos estavam entregando.
Era grande demais.
Não havia palavra humana para aquilo. Um corpo colossal, antigo, com a pele lembrando pedra úmida e escamas gastas pelo tempo. Um rosto reptiliano emergia da sombra como se estivesse meio acordando, meio lembrando que existia. Os olhos eram pequenos para o tamanho da coisa, mas quando se abriram e me encontraram, não havia dúvida de que me viram. Não como se vê um animal ou um intruso, mas como se se reconhecesse algo que não deveria estar ali.
Havia inteligência naquele olhar.
E algo pior.
Indiferença.
A criatura bocejou.
Um movimento lento, absurdo, que fez o ar vibrar. Coçou a lateral da cabeça como quem espanta um incômodo qualquer depois de uma noite longa demais. As montanhas pareceram tremer com o gesto, como se fossem parte do próprio corpo dela. Então, com a mesma naturalidade com que alguém se vira na cama, ela se acomodou de novo, desaparecendo parcialmente atrás do relevo, como se voltasse a dormir.
Eu fiquei parado.
Não havia pensamento.
Não havia ação.
Só o corpo recusando qualquer instrução.
O tempo passou de um jeito errado. Não sei quanto. Quando finalmente consegui me mover, percebi que estava tremendo tanto que mal conseguia manter o equilíbrio. Foi quando senti algo nos meus pés. Olhei para baixo e vi uma galinha bicando minha perna com uma insistência quase irritante, como se nada no mundo tivesse acontecido além daquilo. Eu a afastei de um jeito desajeitado e voltei correndo para a casa, sem saber exatamente quando comecei a correr.
Lembro de me enfiar debaixo dos cobertores ainda vestido, como se aquilo pudesse me proteger de alguma coisa que já não estava mais do lado de fora.
Quando o dia amanheceu, tudo parecia normal demais.
Como sempre.
A família se preparava para a trilha até a cachoeira, como se nada tivesse acontecido naquela madrugada. Mas eu não conseguia. Não conseguia explicar, não conseguia organizar o que tinha visto em palavras que fizessem sentido. Só conseguia repetir que não ia. Que não dava. Que não podia. E quanto mais eu insistia, mais eu percebia que eles estavam me olhando como se eu tivesse enlouquecido por causa de um pesadelo qualquer.
Até que desistiram.
— Vamos embora mais cedo então — minha mãe disse, cansada.
— Melhor não forçar — meu pai completou, como se estivesse encerrando uma discussão trivial.
E fomos.
Nunca mais voltamos.
Anos depois, eu ainda tento encontrar uma explicação simples para aquilo. Uma ilusão de ótica, um sonho misturado com febre, qualquer coisa que organize o mundo de volta no lugar certo. Mas existem noites em que o silêncio pesa de um jeito específico, e o pensamento volta como sempre volta, inevitável, desconfortável, quase paciente.
De que talvez aquilo não estivesse acordado.
Talvez ainda esteja lá.
Apenas esperando outra madrugada ruim para se virar de novo.
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SOMBRAS DA NOITE
HorrorEste livro de contos curtos de terror apresenta uma coleção de histórias arrepiantes e sobrenaturais. Em um dos contos, um menino descobre segredos obscuros sobre sua família ao se aventurar pelo porão proibido da casa de sua avó, onde encontra uma...
