Vicente sempre teve uma maneira estranha de organizar o mundo dentro da própria cabeça, embora ninguém ao redor parecesse perceber isso com clareza suficiente para dar nome ao que havia de errado. Na escola, na igreja, em casa, ele funcionava como uma peça bem encaixada em um mecanismo simples demais para levantar suspeitas, um menino educado, de fala baixa, olhar controlado, sempre com as respostas certas na hora certa. Mas havia uma espécie de distância constante entre ele e o que os outros chamavam de realidade, como se tudo fosse filtrado por um vidro fino e sujo que ele nunca conseguia limpar completamente. Quando via animais na rua, especialmente os gatos, sentia algo parecido com irritação, mas não era só isso, era uma espécie de ofensa profunda, quase pessoal, como se aquelas criaturas existissem para provocá-lo.
A primeira vez que aquilo tomou forma concreta ele ainda lembrava com uma nitidez desconfortável, não porque fosse algo importante em si, mas porque parecia ter aberto uma porta que nunca mais fechou. A calopsita da família estava na varanda, uma coisa pequena e barulhenta que seus pais tratavam com uma ternura que Vicente nunca entendia direito, e ele estava ali, distraído, com a sensação de que o dia era comum demais para guardar qualquer coisa significativa. Quando voltou o olhar, havia apenas o som seco de algo errado acontecendo, um movimento rápido demais, e o gato já estava lá, o corpo inclinado sobre a ave como se aquilo fosse natural, como se não houvesse nada de extraordinário no que fazia. A memória que vinha depois não era exatamente de raiva no sentido humano, mas de um apagamento súbito de qualquer outra emoção possível, como se tudo tivesse ficado silencioso por dentro e só restasse uma instrução única e simples: parar aquilo.
Ele não pensou em punição, nem em justiça, nem em consequências. Apenas pegou o objeto mais próximo, um espeto de churrasco esquecido na parede, e atravessou o momento como se estivesse atravessando uma coisa já sem vida. Depois disso, havia o corpo da calopsita, havia o gato fugindo tarde demais, havia o cheiro metálico e estranho que ele não sabia nomear direito naquela idade, e havia também algo novo dentro dele, uma espécie de calma rígida que não parecia pertencer a uma criança. Quando jogou o animal no esgoto, não houve drama interno, apenas uma sensação de conclusão, como se tivesse fechado uma conta antiga.
O que veio depois foi menos um evento e mais um hábito que cresceu sem que ele percebesse direito. Vicente começou a notar os gatos de forma diferente, não como animais comuns, mas como presenças que insistiam em atravessar o caminho dele. Eles estavam nos muros, nas esquinas, nos telhados das casas antigas do bairro, sempre observando por tempo demais, como se reconhecessem algo nele que ninguém mais via. No começo, ele apenas os evitava ou os afastava, mas havia noites em que acordava lembrando do som daquele primeiro momento, e a lembrança vinha misturada a uma sensação de incômodo físico, como se algo estivesse preso sob a pele.
Na adolescência inicial, isso se misturou à rotina da igreja e da família como se fossem duas camadas diferentes da mesma vida. No culto, Vicente cantava com uma devoção que não era exatamente fingida, mas também não era exatamente sentida, uma coisa mecânica que agradava aos adultos e o mantinha invisível. Seus pais o viam como um menino tranquilo, obediente, alguém que não dava trabalho e que certamente estava sendo guiado pelo caminho certo. Em casa, ele repetia as mesmas pequenas virtudes esperadas dele, estudava quando era necessário, respondia com educação, ajudava sem reclamar. Mas havia momentos, curtos e discretos, em que ele sentia algo se deslocando dentro de si, como se o mundo estivesse ligeiramente fora de alinhamento, e nesses momentos os gatos pareciam mais presentes, mesmo quando não estavam visíveis.
Foi assim que a caça começou a parecer natural. Não havia planejamento no sentido elaborado da palavra, apenas uma repetição de encontros que pareciam inevitáveis. Ele saía de manhã cedo, quando o bairro ainda tinha aquela quietude úmida de cidade acordando contra a própria vontade, levando pequenos pedaços de carne que sabia que funcionariam como isca. Não havia prazer evidente no processo, pelo menos não da forma que alguém de fora esperaria, havia mais uma sensação de controle, de estar corrigindo algo que não devia existir. Quando os gatos se aproximavam, havia sempre aquele instante em que pareciam confiar, e era nesse instante que Vicente sentia a mesma mudança interna, o silêncio súbito, a instrução simples.
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SOMBRAS DA NOITE
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