Era uma tarde abafada de verão em um pequeno vilarejo no interior de Minas. O céu, tingido de um laranja profundo, parecia se derreter no horizonte. O calor era denso, como uma capa pesada que envolvia tudo. As casas de madeira, com suas fachadas desgastadas pelo tempo, se amontoavam na rua principal, onde o silêncio era interrompido apenas pelo cantar das cigarras.
Em um desses barracos, isolado na parte mais remota do vilarejo, morava Miguel, um homem de aparência simples, mas de uma mente profundamente inquieta. Ele passava os dias varrendo o pátio de sua casa e cuidando de um pequeno jardim, mas o seu olhar, frequentemente, se perdia nas sombras que se formavam à medida que o sol descia.
Naquela noite, Miguel se viu incapaz de dormir. Algo estava errado, algo que ele não conseguia entender. Ele ouvia, de vez em quando, sussurros no ar — palavras suaves e quase inaudíveis. Mas não havia ninguém ali. Ele sabia disso.
— Deve ser o vento, só pode ser o vento — murmurou, tentando afastar a sensação estranha que lhe incomodava. Mas a verdade era que ele nunca tinha ouvido o vento falar, nunca.
O relógio marcou três da manhã quando ele finalmente se levantou da cama. A casa estava imersa em uma escuridão densa, mas seus olhos já estavam acostumados com a falta de luz. Caminhou até a janela, olhando para a mata que rodeava sua casa. O que ele viu fez seu coração acelerar. As árvores, normalmente imóveis, se moviam com uma inquietação quase humana.
E então, como se o ar ao seu redor se tornasse mais espesso, o sussurro veio de novo. Mais forte, mais claro.
— Miguel... Miguel... — A voz parecia sair de dentro da terra, como se a própria floresta estivesse falando.
O medo tomou conta de seu corpo, mas ele não conseguiu se afastar. Seus pés pareciam grudados ao chão, e seu olhar se fixou na escuridão da mata. Ele sabia que deveria voltar para a cama e tentar dormir, mas uma força invisível o puxava para fora.
Ele abriu a porta da casa com um rangido, e o frio da noite se abateu sobre ele. A terra úmida grudava em suas botas enquanto ele caminhava em direção à floresta, que parecia chamá-lo com uma urgência crescente. Cada passo que dava em direção à mata era acompanhado pelo eco de sua própria respiração, ofegante, e pelos sussurros que o cercavam como uma névoa.
— Quem está aí? — Ele gritou para a escuridão, a voz trêmula.
A resposta veio em forma de um risinho baixo, quase como uma criança escondida nas sombras.
— Você... você não deveria ter vindo aqui, Miguel... — a voz falou, como se fosse parte do vento, mas ao mesmo tempo tão íntima, tão próxima.
Miguel recuou, seu corpo tremendo. Mas seus pés, novamente, pareciam não ouvir seus comandos. Ele continuou adentrando a floresta, atraído por algo que não conseguia compreender. Ele passou por troncos envelhecidos, por raízes que se erguiam como mãos, por folhas secas que estalavam sob seus pés. A mata parecia viva, respirando com ele, respondendo ao seu medo.
E então, de repente, a floresta se abriu. No centro, uma clareira apareceu diante de Miguel, iluminada pela luz pálida da lua. No meio da clareira estava uma árvore velha, com o tronco retorcido e enegrecido, suas raízes expostas como tentáculos.
Miguel se aproximou, sentindo um peso no ar, como se a própria árvore o estivesse observando. O sussurro se intensificou, agora como uma multidão sussurrando em uníssono.
— Miguel... Miguel... — e uma risada, baixa e estranha, acompanhava as palavras.
Ele olhou para cima, e viu algo que fez seu sangue congelar. No topo da árvore, pendurado por fios finos como teias de aranha, havia um corpo. Não era um ser humano, mas algo muito mais antigo, com olhos negros e vazios, e uma pele que se assemelhava à casca de uma árvore.
— Quem... o que é isso? — Ele sussurrou, o pavor o dominando.
A criatura balançou lentamente, como se estivesse se alimentando da própria escuridão ao redor. E, com uma voz que parecia vinda do fundo de um poço, falou:
— Eu sou a floresta. Eu sou a memória dos mortos. Eu sou o que resta... quando os homens esquecem.
Miguel deu um passo para trás, seus pés já incapazes de se mover, como se estivessem enraizados no solo. Ele queria gritar, queria correr, mas as palavras da criatura, as palavras da mata, invadiram sua mente.
— Você não pode escapar, Miguel. Você pertence a nós agora. A floresta nunca esquece. E ela já te viu.
A visão do corpo pendurado, os olhos negros, o sussurro que se tornava cada vez mais forte, tomou conta de sua mente. Miguel não sentiu mais seus pés no chão. O medo o consumiu de tal forma que ele não percebeu quando a escuridão o envolveu completamente.
Na manhã seguinte, o vilarejo acordou com o som dos pássaros. Mas Miguel não apareceu. Ninguém mais ouviu os sussurros na mata, e a floresta parecia em silêncio.
Mas se alguém olhasse com atenção, no centro da clareira, poderia ver, entre as sombras das árvores, o corpo de Miguel, agora parte da terra, os olhos fechados e uma leve expressão de terror ainda no rosto.
E, se escutassem bem, poderiam ouvir, fracos e distantes, os sussurros da mata:
— Miguel... Miguel...
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SOMBRAS DA NOITE
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