Dunga abriu os olhos de repente, como se um grito interno o tivesse acordado, mas não havia gritos. Apenas o silêncio denso e opressor de um lugar que ele não reconhecia. O quarto parecia familiar, uma versão distorcida daquelas cenas que ele costumava ver nos pesadelos. A luz fraca de um abajur na mesinha de cabeceira projetava sombras longas e deformadas nas paredes, como se o próprio quarto estivesse respirando, se contorcendo, vivendo.
Ele tentou se mexer, mas o corpo parecia pesado, quase como se a gravidade ali fosse diferente, como se estivesse afundando na cama. Ele se forçou a se levantar, com a sensação de que algo o observava, de que algo estava ali, mas ele não conseguia entender o quê. A porta estava trancada. Ele tocou a maçaneta com os dedos trêmulos e girou, sem sucesso. Bateu com força, a batida ressoando no vazio.
— Alguém?! — gritou, mas o som de sua voz parecia ser engolido pela escuridão que tomava o ar.
Ninguém respondeu.
O garoto começou a caminhar pelo quarto, os pés arrastando no chão frio de madeira. O ambiente estava fechado e sufocante. Não havia janelas. Apenas as paredes cinzentas e um ar pesado de desolação. Olhou para o armário, mas ao abrir, encontrou apenas roupas empilhadas, sem vida. A escrivaninha estava ao lado da cama, com um caderno velho, um caderno que parecia não ter sido tocado em anos. Ele pegou o caderno e abriu, mas as páginas estavam em branco, como se tivessem sido apagadas com o tempo, como se nunca tivessem sido escritas. O vazio daquelas páginas o fez se sentir ainda mais perdido.
— Quanto tempo eu estou aqui? — pensou. A sensação de desconforto o consumia. Horas, dias, semanas? Ele não sabia. As palavras de seus pais, os rostos de seus amigos, tudo parecia se desvanecer à medida que o medo tomava conta. Ele estava preso, mas o que realmente o aterrorizava era o desconhecido. O que havia acontecido? O que estava acontecendo ali?
De repente, um som fraco. Como algo se arrastando pela parede. Dunga parou, o coração batendo forte no peito. Ele foi em direção ao som, cada passo mais pesado que o anterior, e, com uma mão hesitante, tocou a parede. Era fria e lisa, mas a sensação era estranha. Como se estivesse tocando algo que não deveria ser tocado. Seus dedos bateram na parede com os nós, e ele sentiu um espaço oco atrás dela. Um espaço. Algo estava ali, esperando, escondido.
E então, a voz. A voz fez o sangue de Dunga congelar.
— Olá, Dunga. Como você está se sentindo? — A voz parecia vir de todos os lados ao mesmo tempo, reverberando no quarto, e, ao mesmo tempo, de um ponto específico, como se emanasse da própria parede. Um homem. Seu tom era suave, quase... calmo demais, como se soubesse algo que Dunga não sabia.
— Quem é você? — Dunga perguntou, a voz falhando, mas o medo engolindo as palavras.
— Eu sou o doutor. Estou aqui para ajudá-lo.
Aquelas palavras caíram sobre Dunga como uma lâmina. A palavra "ajudar" nunca tinha soado tão amarga. O que ele queria dizer com "ajudar"? Dunga se aproximou da parede, os olhos fixos na pequena abertura que ele agora podia ver entre as fissuras da superfície. Era uma abertura muito pequena, mas o suficiente para ele ver algo... mais. Ou melhor, alguém. Os olhos, grandes e profundos, olhando diretamente para os dele, como se estivessem observando cada movimento seu, cada respiração que ele dava. O terror foi instantâneo. Aqueles olhos não eram humanos.
— O que você quer de mim? — Dunga quase sussurrou, sua voz tomada pela dor do medo.
— Nós queremos estudá-lo — respondeu o doutor, a voz dele calma e controlada. — Você é especial, Dunga. Tem habilidades que podem ajudar muitas pessoas.
Habilidades? Dunga mal conseguia processar o que o doutor estava dizendo. Seu cérebro estava em choque, tentando entender o que estava acontecendo. Ele olhou para os próprios braços, como se esperasse que algo fosse aparecer ali, algo que provasse o que o doutor estava dizendo. Mas não havia nada.
— Quais habilidades? — ele perguntou, a voz ainda mais fraca, como se estivesse se afastando de si mesmo, como se sua alma estivesse sendo arrancada e levada para outro lugar.
— Você vai descobrir em breve — disse o doutor, com uma frieza inquietante. — Mas agora, precisa descansar. Amanhã, teremos muito o que fazer.
A voz se foi, mas não a sensação de pavor. A abertura na parede se fechou com um som seco, como se fosse a última coisa a se fechar em um túmulo. Dunga se sentou na cama novamente, sentindo-se como um prisioneiro em sua própria mente. O medo o consumia. Ele queria gritar, mas as palavras pareciam se perder em sua garganta. Queria correr, mas não havia para onde ir.
Ele fechou os olhos, tentando encontrar algum tipo de consolo. Mas o que ele sentia não era conforto, era o presságio de algo pior. Algo que ele ainda não conseguia entender. Ele sabia que, mais cedo ou mais tarde, teria que enfrentar o que quer que fosse que estivesse por trás daquela parede. E sabia também que, quando isso acontecesse, não haveria mais volta.
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SOMBRAS DA NOITE
TerrorEste livro de contos curtos de terror apresenta uma coleção de histórias arrepiantes e sobrenaturais. Em um dos contos, um menino descobre segredos obscuros sobre sua família ao se aventurar pelo porão proibido da casa de sua avó, onde encontra uma...
