O ESPELHO

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Marcos Ferreira sabia que a mudança para a casa velha era uma má ideia antes mesmo de assinar os papéis. Ele podia sentir isso na ponta dos dedos quando segurou a caneta, um frio que subia do metal gelado e se infiltrava nos ossos. Mas ele ignorou. Sempre ignorava essas coisas. A casa era grande, espaçosa e estava absurdamente barata. "Uma pechincha dessas não se encontra todo dia", dissera o corretor, sorrindo com dentes muito brancos e um entusiasmo artificial.

Agora, parado no sótão empoeirado, Marcos começava a se perguntar se havia pego mais do que podia carregar.

O sótão era escuro, mesmo durante o dia. Havia janelas pequenas, mas a sujeira acumulada no vidro permitia que apenas uma luz fraca e doentia entrasse, tingindo tudo com um tom amarelado. O cheiro de madeira velha e mofo era quase sufocante. No canto mais distante, encostado contra a parede, ele viu o espelho pela primeira vez.

Era alto, com uma moldura trabalhada em arabescos, como se fosse uma peça de museu. O vidro, no entanto, parecia estranho. Era opaco, quase como água estagnada. Quando Marcos se aproximou, algo lhe causou um calafrio: o espelho não refletia sua imagem.

Ele piscou. Nada. Passou a mão pelo vidro. Frio. Ele tentou rir, mas o som morreu na garganta.

— Velharia estranha — murmurou para si mesmo. — Deve estar quebrado.

Ele afastou o pensamento desconfortável que pairava como uma nuvem: O que quer que tenha acontecido com os donos anteriores para deixarem isso aqui?

Nos dias que se seguiram, Marcos tentou se ajustar à nova casa. O lugar era grande demais para alguém morando sozinho, mas ele gostava do silêncio. Trabalhava como redator freelancer e passava a maior parte do tempo em frente ao computador, escrevendo relatórios e artigos para empresas que nem sabia se existiam de verdade. A casa era uma distração bem-vinda, ao menos no começo.

O problema começou uma semana depois da mudança.

Ele estava subindo as escadas para o sótão, buscando algumas caixas que ainda não havia desembrulhado, quando ouviu um som que fez seu coração parar por um instante: passos.

Marcos congelou. Não havia ninguém na casa além dele. Respirou fundo, tentando acalmar a mente. Talvez fosse o som da madeira velha, rangendo com o vento. Ele convenceu-se disso até abrir a porta do sótão.

O espelho estava no meio do cômodo. Ele tinha certeza absoluta de que o deixara encostado na parede, coberto com um lençol branco. Agora estava ali, exposto, o vidro opaco brilhando levemente sob a luz fraca.

— Isso... não é engraçado — disse em voz alta, como se desafiasse um intruso invisível.

Ele se aproximou do espelho, cada passo acompanhado por um calafrio crescente. Quando ficou a menos de um metro, algo mudou. Ele viu... algo. Não sua própria imagem, mas uma figura. Era ele, mas não era. Um reflexo de si mesmo, mais jovem, com os cabelos ainda cheios e a pele sem rugas, mas os olhos eram errados. Vazios, negros como buracos. O reflexo o encarou e sorriu.

Marcos cambaleou para trás, quase tropeçando.

— Isso... é só um sonho. — Ele esfregou os olhos, mas quando olhou novamente, o espelho estava vazio.

Ele desceu correndo do sótão e trancou a porta.

Naquela noite, o sono veio apenas depois de várias doses de whisky barato. Quando finalmente conseguiu dormir, os sonhos foram povoados por imagens do espelho, da figura sorridente, e da sensação inescapável de que algo o observava no escuro.

Os dias seguintes foram um borrão de acontecimentos estranhos. Objetos desapareciam e reapareciam em lugares impossíveis. O som de passos no sótão tornava-se mais frequente. E então começaram as vozes.

Elas eram sussurros, baixos e indistintos no início. Mas na terceira noite, tornaram-se claras. Uma voz rouca, quase familiar.

— Você se lembra, Marcos? Lembra do que fez?

Ele acordou no sofá, o coração disparado. Olhou em volta, mas a sala estava vazia. O único som era o tique-taque do relógio na parede. Ele tentou ignorar o medo crescente, mas não podia afastar a sensação de que a casa sabia algo que ele não.

Na noite seguinte, não conseguiu resistir. Pegou uma lanterna, destrancou a porta do sótão e subiu.

O espelho estava lá, esperando. Desta vez, a figura estava mais nítida. Não apenas mais jovem, mas também com uma expressão de zombaria.

— O que você quer de mim? — Marcos gritou, a voz tremendo.

O reflexo inclinou a cabeça, como se estivesse ouvindo. E então falou, sem mover os lábios:

— Você.

Marcos caiu para trás, o choque paralisando seus músculos. O reflexo começou a se mover, saindo do espelho, as mãos pressionando o vidro como se fosse uma superfície líquida.

— Não... Não...! — Ele se arrastou para trás, mas o reflexo continuou, atravessando a barreira do espelho com uma facilidade impossível.

No instante em que o reflexo tocou o chão do sótão, Marcos sentiu uma dor insuportável na cabeça, como se algo estivesse sendo arrancado de dentro dele. Sua visão ficou turva, e quando tentou se levantar, percebeu que algo estava errado. Ele olhou para baixo, para suas mãos... mas não havia mãos. Apenas escuridão. Ele virou-se para o espelho e viu. Ele estava do outro lado agora, preso no vidro, enquanto a coisa que usava seu corpo sorria com satisfação.

O reflexo — ou seria ele? — caminhou para fora do sótão, assobiando uma melodia feliz.

E Marcos ficou ali, preso no espelho que não refletia, incapaz de gritar, enquanto a casa devorava o resto de sua humanidade.

SOMBRAS DA NOITEOnde histórias criam vida. Descubra agora