Flávio já não sabia dizer em que momento exato começara a apodrecer por dentro. Talvez tivesse sido gradual, como infiltração atrás de uma parede: silenciosa, escura, crescendo sem ninguém notar até o mofo aparecer no teto. Ou talvez tivesse começado no dia em que Angélica saiu de casa levando duas malas médias, a cafeteira cara que ele parcelara em doze vezes e aquele perfume cítrico que continuou impregnado nas almofadas por quase um mês. Ele ainda lembrava do som da porta fechando. Não uma batida dramática, nem uma cena de novela. Apenas um clique seco, discreto, o tipo de som que a cidade engole sem dificuldade. Depois disso, tudo pareceu perder densidade. As coisas continuaram existindo, mas sem peso real. Como cenário de papelão.
Naquela tarde o calor estava especialmente ruim. O asfalto parecia derreter sob os ônibus e o ar tinha cheiro de ferrugem molhada, suor velho e gordura reutilizada de pastelaria. Flávio entrou no coletivo sem olhar a placa, como vinha fazendo havia semanas. Pegava qualquer linha, qualquer direção, só para não voltar imediatamente para o apartamento abafado onde o ventilador fazia um barulho parecido com respiração asmática durante a madrugada. O ônibus veio lotado, claro. Sempre vinha. Ele entrou empurrado pela massa de corpos e ficou preso entre um homem de mochila encharcada de suor e uma mulher que mastigava chiclete com agressividade nervosa.
O motorista arrancou antes que as portas terminassem de fechar e todos os passageiros balançaram juntos num movimento único, como carne dentro de um saco plástico. Flávio segurou no ferro acima da cabeça e sentiu uma fisgada no ombro esquerdo. Fazia dias que aquela dor aparecia e sumia. Talvez pressão alta. Talvez ansiedade. Talvez alguma coisa pior. Ele já não ia ao médico havia anos. Médico custava dinheiro, e dinheiro era uma coisa que agora parecia existir apenas para os outros.
O suor escorria pelas costas dele em filetes lentos. O ar dentro do ônibus parecia reciclado diretamente dos pulmões dos passageiros. Havia cheiro de desodorante barato, de roupa úmida esquecida no varal, de cabelo oleoso, de cigarro impregnado na pele. Uma criança chorava lá no fundo, num choro cansado e sem esperança, e aquilo incomodou Flávio mais do que deveria. O som entrou nele como uma agulha fina.
Ele fechou os olhos por alguns segundos e viu Angélica.
Não a Angélica do fim. Não a mulher fria sentada à mesa da cozinha dizendo que "não dava mais". Viu a Angélica antiga, de cabelo preso de qualquer jeito, rindo enquanto queimava alho no fogão do primeiro apartamento deles. A lembrança veio inteira, quente, quase cruel. Ele podia ouvir a risada dela misturada ao chiado da panela. E então, como sempre acontecia ultimamente, a memória começou a apodrecer antes de terminar. O rosto dela mudou devagar dentro da cabeça dele e apareceu o outro sujeito. O homem do Rio.
Flávio nunca soube exatamente o nome do cara. Evitava perguntar. Chamava-o apenas de "aquele crioulo", sozinho, em voz baixa, como quem alimenta uma ferida com o dedo. O sujeito tinha dentes muito brancos, braços fortes e aquele jeito irritante de gente que parece confortável dentro da própria pele. Angélica ria perto dele de uma maneira que já não ria perto de Flávio fazia anos. E isso doía mais do que a traição em si. Porque Flávio percebia, no fundo, uma coisa terrível: ela parecia mais viva ao lado do outro homem.
O ônibus freou bruscamente e alguém bateu contra suas costas. Ele abriu os olhos irritado. Uma senhora pediu desculpas sem encará-lo. O calor piorava. O vidro embaçado deixava a cidade lá fora com aparência de febre. Pessoas andando rápido demais. Gente falando sozinha ao telefone. Um mendigo dormindo encolhido perto de uma banca de jornal fechada. Tudo parecia ligeiramente errado, como se a realidade tivesse perdido alinhamento.
Flávio sentiu de novo aquela ideia rastejando dentro dele.
Macumba.
A palavra apareceu sem convite. Ele tentou afastá-la, mas ela voltou mais forte, como mosca insistente. Angélica nunca teria ido embora daquele jeito se estivesse pensando direito. Não fazia sentido. Ela era organizada, racional, dessas pessoas que etiquetam potes na geladeira. Não trocaria uma vida construída por um sujeito qualquer com tatuagem no pescoço e sorriso de malandro. Havia alguma coisa ali. Alguma influência. Alguma sujeira espiritual.
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SOMBRAS DA NOITE
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