Em uma manhã cinza, o vento gelado cortava as árvores secas da estrada secundária. Do lado de fora da janela do carro, a paisagem parecia uma pintura malfeita: folhas mortas que caíam sem destino, nuvens pesadas que se arrastavam como vultos. Era o tipo de dia em que você se pergunta o que está realmente acontecendo no mundo, mas, em vez de encontrar respostas, fica com mais perguntas.
James Parke não estava em estado de espírito para perguntas. Ele já estava cansado de tudo — do casamento que se desfez como vidro quebrado, da filha que se afastou como se ele fosse um estranho, das noites sem sono e das tardes que se arrastavam sem rumo. Quando a oportunidade apareceu, ele pegou a estrada, como se fosse uma fuga. Dirigiu sem olhar para trás, até chegar àquele vilarejo perdido no meio de lugar nenhum.
A casa à beira do lago não era grande, mas tinha algo de imponente, como se estivesse ali há séculos, observando o mundo passar. James estacionou o carro com o motor ainda roncando, sem saber o que o esperava. Quando o som do motor se apagou, o silêncio tomou conta, como um peso sobre seus ombros. Ele respirou fundo, abriu a porta e saiu, sentindo o cheiro do inverno se aproximando.
A casa parecia vazia, mas havia algo em seu interior que o atraía, algo inominável. Ele entrou sem hesitar, como se o lugar tivesse sido feito para ele, para receber a sua dor, para engolir sua solidão.
O hall de entrada estava escuro, com móveis antigos cobertos por lençóis brancos que pareciam mais ossos do que móveis. As paredes estavam revestidas de uma madeira escura, e o som de seus passos ressoava como um eco distante. O relógio na parede, com seu tique-taque ritmado e imperturbável, parecia não ter parado nos últimos cem anos.
James se moveu pelo corredor, guiado por algo que ele não podia compreender. A casa parecia estar viva de alguma maneira, respirando, pulsando em uma frequência quase imperceptível, mas tão palpável quanto a sensação de ser observado. Cada quarto parecia mais sombrio que o anterior, como se a casa estivesse tentando encurralá-lo, uma armadilha para o homem que, afinal, fugira de tudo.
Ele chegou à sala dos fundos, onde uma grande janela dava para o lago. A água estava calma, mas havia algo ali. Algo que não deveria estar. No reflexo da janela, ele viu uma figura se movendo lentamente, mas não havia ninguém ali. A figura desapareceu tão rapidamente quanto surgiu, como uma sombra que nunca existiu.
Ele não podia acreditar no que viu, mas sabia que era real. A casa, a água, a figura... tudo estava interligado de uma maneira que ele não entendia, mas sentia com uma clareza arrepiante.
Naquela noite, quando a escuridão finalmente engoliu o mundo lá fora, James não conseguiu dormir. Ele se levantou e caminhou pela casa, sentindo uma necessidade de descobrir o que estava acontecendo. Algo o chamava, algo vindo do fundo da casa, da área embaixo da escada. Ele desceu, com o coração batendo mais forte a cada passo, até que chegou a um porão úmido e mal iluminado.
Lá, no meio do chão de pedra, havia uma caixa de madeira. Sua tampa estava entreaberta, como se convidasse James a abrir. Ele hesitou por um momento, mas, movido por uma força inexplicável, se aproximou. Quando levantou a tampa, uma onda de frio percorreu seu corpo.
Dentro da caixa, havia apenas um diário, envelhecido, com a capa rasgada. Ele pegou o diário, sentindo uma estranha familiaridade, como se o objeto tivesse pertencido a alguém que ele conhecia há muito tempo. As páginas estavam manchadas e amareladas, mas ainda legíveis. E o que ele leu fez seu sangue gelar.
O diário pertencia a uma mulher chamada Eleanor, que morava naquela casa há mais de cinquenta anos. Ela escrevia sobre o lago, sobre o silêncio que o cercava, e sobre os monstros que moravam na água. O que mais o deixou perturbado foram as últimas palavras do diário: "Ele está vindo de novo. Ele sempre volta, sempre. Ele está esperando o inverno chegar."
James não conseguiu mais segurar a angústia. Correu de volta ao andar de cima, subiu até o quarto e olhou pela janela. A água do lago estava mais agitada agora, como se algo estivesse se aproximando da margem.
E então ele viu.
A figura estava lá, na beira da água, a cabeça inclinada para a lua cheia que se erguia no céu. Ela era alta e esquelética, com os braços esticados para o lago, como se esperasse ser chamada. Seus olhos, ou o que restava deles, brilhavam com uma luz fria e insana.
James recuou, mas a figura se virou, como se o tivesse sentido. A boca se abriu, não em um grito, mas em uma voz abafada, que sussurrou seu nome.
O gelo percorreu sua espinha. Ele não sabia mais se estava sonhando, ou se a casa, de alguma forma, o tinha engolido completamente. O que ele sabia, sem dúvida alguma, era que o inverno chegara. E com ele, algo muito mais antigo e aterrorizante do que qualquer pesadelo.
A casa, agora, estava viva. E estava esperando.
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SOMBRAS DA NOITE
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