Dona Ana percebeu a chuva antes mesmo de ela cair de verdade, não por algum pressentimento místico, mas por um conjunto de sinais pequenos que já conhecia de outros anos, de outras perdas. O ar tinha mudado de peso, ficando mais espesso, como se alguém tivesse fechado a porta do mundo e deixado tudo preso lá dentro. O cheiro da terra subia do morro com uma intensidade quase amarga, misturado ao plástico velho, ao lixo escondido entre as pedras, ao mofo das paredes do barraco. Ela ficou parada por alguns segundos olhando para as telhas como quem olha para um corpo doente, sabendo que não há muito o que fazer e mesmo assim tentando identificar onde exatamente ele vai falhar primeiro.
O barraco tinha buracos antigos no telhado, remendos que nunca seguravam por muito tempo, e ela já tinha parado de contar quantas vezes acordara de madrugada com água pingando em seu rosto ou escorrendo pela parede ao lado da cama. Mas naquela tarde havia algo diferente, uma espécie de expectativa no próprio vento, como se ele não estivesse apenas passando, mas escolhendo o lugar onde ia bater com mais força. Dona Ana apertou o tecido gasto do vestido contra o corpo sem perceber, um gesto automático que vinha de anos de tensão acumulada, como se aquilo pudesse protegê-la de alguma coisa além da chuva. Pensou no filho sem querer pensar, como sempre acontecia quando o medo aumentava, e essa mistura de lembrança e preocupação já era antiga dentro dela, quase uma dor constante que ela tinha aprendido a chamar de vida.
O morro ao redor parecia mais silencioso do que o normal. Não havia crianças brincando, não havia vozes altas, apenas o som distante de alguma coisa sendo arrastada pelo vento em outra parte da comunidade. Ela se lembrou do marido de forma abrupta, como se alguém tivesse tocado em uma ferida antiga que nunca cicatrizou direito. Ele tinha morrido sem aviso, sentado na cadeira da cozinha como se estivesse apenas descansando depois do almoço, e ela ainda lembrava do momento em que percebeu que o silêncio dele tinha se tornado definitivo. Os médicos falaram em coração, em falha súbita, mas ela sempre sentiu que aquilo era uma explicação pequena demais para o tipo de ausência que ficou. Havia coisas nele que tinham se apagado muito antes do corpo parar, como se ele já tivesse começado a desaparecer sem que ninguém percebesse.
Dona Ana pegou o terço em cima da mesa, as contas escuras e lisas de tanto uso, e começou a rezar sem pensar nas palavras. A oração já não vinha como conforto, vinha como hábito, como um movimento repetido das mãos tentando segurar algo que escapava o tempo todo. Ela sabia disso, mas continuava mesmo assim, porque parar seria admitir que não havia mais nada entre ela e o mundo além daquilo. O vento começou a bater mais forte contra o barraco, fazendo a estrutura ranger de um jeito que ela conhecia bem, um som de madeira velha cedendo aos poucos. Em algum lugar, uma telha se soltou e bateu contra o chão com um estalo seco que fez seu corpo reagir antes mesmo de sua mente entender.
Foi nesse momento que o celular vibrou em cima da mesa.
Ela ficou olhando para o aparelho como se ele fosse uma coisa estranha, deslocada dentro daquele ambiente, um objeto que não pertencia ao mesmo mundo do vento, da chuva e do barro. Era o celular que o filho tinha dado no último Dia das Mães, insistindo que agora ela poderia falar com ele quando quisesse. Mas aquilo nunca tinha sido verdade. Ela apertava os botões errados, às vezes ligava sem querer, às vezes deixava tocar até parar sozinha, sem atender. Agora o nome dele apareceu na tela e o coração dela deu um salto que não tinha relação com alegria, mas com urgência, com uma espécie de medo antecipado.
Ela atendeu com mãos levemente trêmulas.
— Mãe?
A voz dele veio distante, como se atravessasse muita coisa antes de chegar até ela, não apenas quilômetros, mas decisões, anos, escolhas que tinham afastado os dois de forma lenta e irreversível. Dona Ana tentou falar, mas demorou um segundo a encontrar a própria voz.
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SOMBRAS DA NOITE
HorreurEste livro de contos curtos de terror apresenta uma coleção de histórias arrepiantes e sobrenaturais. Em um dos contos, um menino descobre segredos obscuros sobre sua família ao se aventurar pelo porão proibido da casa de sua avó, onde encontra uma...
