O VENTO DA SERRA

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A estrada sinuosa cortava a Serra do Mar, enroscando-se em meio ao verde denso, como se fosse um braço tentacular querendo abraçar a montanha. O farol do carro de Rui iluminava as árvores retorcidas à beira da estrada, mas a neblina espessa, como um manto de mistério, parecia querer engolir tudo ao seu redor.

Rui acelerou o carro, tentando se livrar daquela sensação estranha que o invadia desde que começara a viagem. Ele não gostava de estradas desertas, e aquela, mesmo com o cheiro forte de terra molhada no ar, parecia ainda mais solitária. O rádio, sem sinal, zumbia como uma presença indesejada, com aquele chiado constante.

O volante suava nas mãos de Rui. Ele apertou a mandíbula e passou a língua nos lábios secos, enquanto a lembrança do aviso que recebera da velha dona Elvira voltava à sua mente. Ela sempre falava coisas estranhas, quase místicas, como se tivesse ouvido os sussurros das montanhas. Mas agora, com a noite tomando conta da serra e o carro avançando mais fundo, ele não podia deixar de pensar naquilo que ela dissera.

Não vá pra lá, Rui. O vento da Serra não perdoa.

Ele riu, como se o riso fosse a melhor forma de afastar qualquer sensação incômoda. Mas a velha tinha um jeito peculiar de falar, como se tivesse visto o futuro, como se soubesse que um dia ele estaria ali, sozinho, enfrentando o desconhecido.

Foi quando ele a viu. Uma figura de vestido branco, quase flutuando, na beira da estrada. Rui freou bruscamente, o carro derrapando um pouco antes de parar a poucos metros da mulher.

A figura levantou a cabeça, e Rui sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Seus olhos estavam vazios, como se não houvesse alma ali. A mulher sorria, mas não um sorriso humano, era mais um gesto vazio, como uma máscara velha e desgastada pelo tempo. Ela não estava tremendo de frio, apesar da brisa cortante que soprava da serra.

Você... quer ir embora, não é? — a mulher falou, a voz suave, mas cheia de um eco distante, como se viesse de dentro de uma caverna.

Rui não respondeu imediatamente. O medo apertava seu peito, mas a curiosidade o mantinha ali, como se algo o puxasse para aquela presença inumana.

Eu... não sei o que você quer dizer. — ele balbuciou, a voz rouca.

A mulher se aproximou do carro lentamente, cada passo parecendo descompassado com o mundo à sua volta. O som do vento aumentava, como se algo invisível estivesse se aproximando também, acompanhando seus passos.

Eu fui chamada, mas você... ainda não entendeu. — ela sorriu de novo, dessa vez de maneira mais ampla, revelando dentes afiados, como se fossem presas.

Rui engoliu seco, a garganta apertando. Ele sabia que algo estava errado, muito errado. O vento da Serra parecia ter ganhado vida própria, e as árvores ao redor começaram a se mover, suas folhas balançando sem que o vento as tocasse. Ele queria sair dali, mas seus pés estavam pesados, como se o carro tivesse se tornado uma prisão.

Foi quando a mulher se inclinou para frente, colocando as mãos na janela aberta. O cheiro de terra e decomposição invadiu o ar, e Rui sentiu o estômago revirar.

Você veio até aqui, agora não tem mais volta. — ela disse com uma voz que soava como um suspiro.

Rui tentou arrancar o carro, mas o motor não ligou. Ele tentou de novo, e então o som familiar do motor tremendo foi substituído por algo estranho e metálico, como se o carro estivesse sendo consumido por algo invisível, algo que ele não podia ver.

Não é a Serra que te assusta, Rui... É o que ela guarda. — disse ela, o sorriso se tornando cada vez mais grotesco.

Rui olhou para ela, e então percebeu. Não havia mais estrada. A Serra inteira havia desaparecido. Ele estava no meio de um vazio, sem céu, sem chão. Só havia escuridão. E os olhos dela, fixos nos seus, com uma malícia que parecia tirar sua sanidade.

A última coisa que ele ouviu antes de tudo se apagar foi o som do vento, agora mais forte, como um grito distante. E, no fundo desse grito, ele soubera: o vento da Serra, finalmente, o havia encontrado.

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⏰ Última atualização: Dec 09, 2024 ⏰

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