O VENTO DA SERRA

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A estrada subia a Serra do Mar como se estivesse viva, se enroscando entre a vegetação fechada de um verde úmido e pesado, quase sufocante, que parecia observar o carro de Rui passar como um organismo antigo despertado contra a própria vontade. O farol cortava a neblina densa em feixes curtos de luz, revelando troncos retorcidos, raízes expostas e pedaços de asfalto rachado que desapareciam logo depois, como se a estrada estivesse sendo constantemente apagada pela própria montanha. Rui dirigia com as mãos firmes demais no volante, firme demais para ser apenas concentração, porque havia uma tensão acumulada nos ombros dele desde que deixara a cidade horas atrás, uma sensação difícil de nomear mas impossível de ignorar, como se algo tivesse embarcado com ele no carro sem pedir permissão.

O rádio chiava sem estação, um som constante que ele tentou ignorar ajustando o botão repetidas vezes, embora soubesse que aquilo não mudaria nada. Havia um cheiro forte de terra molhada entrando pelas frestas da janela, um cheiro tão intenso que parecia vir de dentro do carro também, impregnando o estofado e a pele dele. Rui apertou a mandíbula até sentir dor, tentando afastar o desconforto crescente, mas então a lembrança da dona Elvira voltou com a mesma nitidez irritante de sempre, como se a mulher estivesse sentada no banco traseiro falando diretamente no ouvido dele. Ela tinha aquele jeito antigo de falar, carregado de certezas que não pertenciam ao mundo moderno, como se ouvisse coisas que ninguém mais conseguia perceber.

— Não vá pra lá, Rui. O vento da Serra não perdoa.

Ele tinha rido na hora, um riso seco, automático, daqueles usados para encobrir o incômodo de não saber como responder. Agora, porém, aquele riso parecia distante e estúpido, como se pertencesse a outra versão dele mesmo, alguém que ainda acreditava que estradas eram apenas estradas e advertências eram apenas superstição de gente velha. A neblina parecia mais espessa quanto mais ele subia, e o som das árvores ao redor não era mais apenas vento; havia algo irregular ali, como respirações longas demais, pausas demais, como se a própria mata estivesse prestando atenção nele.

Foi então que ele viu a figura.

Não apareceu de forma dramática. Simplesmente estava ali, como se sempre tivesse estado, parada na beira da estrada onde a neblina abria uma pequena clareira impossível. Era uma mulher de vestido branco, imóvel demais para ser natural naquele frio úmido da serra. Rui instintivamente freou com força, os pneus deslizando no asfalto molhado enquanto o carro girava levemente antes de parar a poucos metros dela. O silêncio que se seguiu foi tão pesado que ele percebeu pela primeira vez o som da própria respiração, curta e irregular, como se o corpo dele já soubesse que aquilo não era um encontro comum.

A mulher levantou a cabeça devagar, e Rui sentiu algo se deslocar dentro do peito, não exatamente medo ainda, mas uma espécie de reconhecimento errado, como quando se vê um rosto familiar em um lugar onde ele não deveria existir. Os olhos dela não tinham profundidade, apenas uma superfície opaca, vazia como vidro queimado. E ainda assim havia algo vivo ali, algo que parecia observar não apenas ele, mas também as partes dele que ele mesmo evitava olhar. O sorriso surgiu sem pressa, largo demais para ser humano, como se fosse apenas um gesto aprendido há muito tempo e repetido sem compreensão.

— Você... quer ir embora, não é? — ela disse.

A voz não parecia vir exatamente da boca dela. Havia um eco estranho, como se a frase tivesse atravessado pedra e água antes de chegar até ele, carregando um atraso leve que deixava tudo ainda mais desconfortável. Rui ficou em silêncio por alguns segundos longos demais, sentindo o interior do carro se tornar menor, como se o espaço estivesse sendo comprimido ao redor dele. Ele queria dar partida e seguir viagem, mas havia algo na forma como ela o olhava que o mantinha preso, uma curiosidade desconfortável misturada com uma espécie de paralisia que ele não conseguia explicar.

— Eu... não sei o que você quer dizer — ele finalmente respondeu, a voz saindo mais fraca do que esperava.

A mulher deu um passo em direção ao carro, e o movimento não combinou com o ambiente. Era como se o mundo ao redor tivesse desacelerado e ela não acompanhasse essa regra. O vento aumentou naquele instante, mas não de forma natural; ele parecia vir em camadas, como se diferentes direções estivessem se sobrepondo ao mesmo tempo, carregando um som que lembrava sussurros abafados. As árvores à beira da estrada começaram a se mover de maneira estranha, não exatamente balançando, mas inclinando-se em ângulos lentos demais, como se estivessem tentando acompanhar a presença dela.

— Eu fui chamada — ela disse, inclinando levemente a cabeça — mas você ainda não entendeu.

O sorriso dela aumentou, e então Rui viu algo que não deveria estar ali: dentes longos demais, levemente irregulares, como se não tivessem sido feitos para caber naquela boca. O estômago dele revirou imediatamente, e o instinto de fuga finalmente venceu a paralisia inicial. Ele tentou abrir a porta, mas percebeu que já não sabia se suas mãos obedeciam com precisão, como se o corpo estivesse atrasado em relação à mente. Quando voltou o olhar para a mulher, ela já estava mais perto, embora ele não tivesse visto o movimento completo, como se parte do deslocamento tivesse sido apagado do tempo.

A mão dela encostou no vidro da janela aberta do carro. O toque foi leve, quase cuidadoso, mas o cheiro que entrou junto foi imediato e brutal, uma mistura de terra úmida e algo mais profundo, algo que lembrava decomposição antiga, não recente, mas algo que esteve enterrado por tempo demais. Rui recuou instintivamente, sentindo o estômago se contrair.

— Você veio até aqui — ela disse, agora com a voz mais próxima, mais íntima — agora não tem mais volta.

Ele tentou ligar o carro. O motor respondeu com um som fraco, irregular, como se estivesse hesitando. Ele tentou novamente, com mais força, e então o som mudou. Não era mais falha mecânica; era algo que lembrava metal sendo pressionado por dentro, como se o carro estivesse sendo lentamente comprimido por uma força invisível que ele não conseguia localizar. O painel piscou uma vez, depois outra, e o rádio soltou um chiado mais alto, quase parecido com um grito distorcido.

— Não é a Serra que te assusta, Rui — ela continuou, inclinando o rosto para mais perto — é o que ela guarda.

O sorriso dela agora parecia menos humano e mais antigo, como se tivesse sido moldado por algo que não entendia bem o formato de um rosto. Rui sentiu a visão oscilar por um instante, como se a realidade ao redor estivesse perdendo consistência. Ele olhou para fora e percebeu algo que fez o sangue gelar de uma forma lenta e profunda: a estrada não estava mais ali. Não havia mais curva, nem árvores definidas, nem neblina organizada em camadas. Tudo parecia ter se dissolvido em um espaço escuro e indefinido, como se a Serra inteira tivesse sido removida e substituída por um vazio contínuo, sem referência de direção, sem horizonte, sem chão claro.

O carro ainda existia, mas parecia flutuar sem certeza de onde estava apoiado. Rui sentiu a garganta apertar enquanto olhava de volta para a mulher, agora a única coisa realmente estável naquele cenário impossível. Os olhos dela continuavam fixos nos dele, e havia neles uma calma profunda, quase paciente, como alguém que esperou muito tempo para finalmente ser ouvido.

O vento surgiu de novo, mas agora não vinha de lugar nenhum específico. Era apenas som, crescente, contínuo, preenchendo tudo ao redor como um rugido distante que se aproximava sem realmente mudar de posição. Rui teve a impressão de ouvir algo dentro desse som, algo parecido com seu nome sendo pronunciado repetidamente, não por uma voz única, mas por muitas ao mesmo tempo, como se o próprio ar tivesse aprendido a chamá-lo.

A última coisa que ele conseguiu pensar antes de tudo se tornar instável foi que dona Elvira não tinha falado sobre a estrada. Ela tinha falado sobre o vento. E naquele instante, finalmente entendeu que o vento não era uma condição da Serra. Era uma coisa antiga demais para pertencer a qualquer lugar. E agora, depois de tanto tempo esperando, ele tinha finalmente sido encontrado.

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⏰ Última atualização: May 19 ⏰

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