O hospital psiquiátrico St. Agatha ficava no topo de uma colina cercada por um bosque denso e sombrio. A construção gótica parecia um monstro de pedra, com janelas altas que mais lembravam olhos sempre vigilantes. Dr. Victor Dalrymple, psiquiatra-chefe, estacionou seu carro na vaga de sempre, ajeitou a gravata, e deu uma olhada rápida no retrovisor. O cansaço pesava em seus olhos. Ele estava trabalhando sem folga há três semanas, e os pacientes — cada vez mais violentos, cada vez mais... estranhos — pareciam sugar sua energia como vampiros.
O dia começou como qualquer outro: relatórios para revisar, consultas para conduzir, e a expectativa constante de que algum interno causaria problemas. No entanto, algo estava diferente naquela manhã. Assim que atravessou os corredores estreitos e mal iluminados, ouviu o som. Não era raro ouvir gritos ou murmúrios incoerentes, mas aquilo era diferente — um canto baixo, como uma ladainha, ecoava ao longo das paredes.
— Quem está fazendo isso? — perguntou a enfermeira Martha, que surgiu do outro lado do corredor, segurando uma prancheta com força demais. Seus dedos estavam brancos.
— Um novo paciente chegou ontem à noite — disse ela. — Ele não para de murmurar. O pior é que os outros pacientes... estão imitando.
Victor sentiu um calafrio subir pela espinha.
— Quero vê-lo agora.
Martha hesitou, como se quisesse dizer algo, mas se limitou a assentir. Ela o conduziu até uma sala de observação no subsolo, longe das alas principais. O lugar era mais frio ali embaixo, com uma umidade que parecia penetrar nos ossos.
— Aqui está ele — disse Martha, apontando para a cela acolchoada.
Atrás do vidro reforçado, Victor viu um homem sentado no centro da sala. Ele era magro, quase esquelético, com a cabeça raspada e olhos fundos que pareciam não piscar. A cada poucos segundos, movia os lábios, murmurando palavras que Victor não conseguia ouvir.
— Nome dele?
— Elias Carter. Foi encontrado vagando pela estrada, descalço, no meio da noite. Disse que queria vir para cá.
— Queria vir para cá? — Victor arqueou a sobrancelha. — Por quê?
— Disse que precisava de um lugar seguro. — Martha olhou para o homem com algo que parecia medo. — Mas doutor, ele não é como os outros. Ele... é diferente.
Victor suspirou e pegou o arquivo do paciente. Nada sobre histórico psiquiátrico, nenhum contato familiar, nenhuma explicação para como ele sabia sobre o St. Agatha.
— Vou falar com ele. Abra a porta.
— Tem certeza?
Victor assentiu. Ele tinha lidado com psicopatas, esquizofrênicos violentos e todos os tipos de transtornos. Elias Carter não seria diferente.
Quando entrou na cela, o canto cessou imediatamente. Elias ergueu os olhos e sorriu, mas não foi um sorriso comum. Era como se ele estivesse vendo algo dentro de Victor, algo que nem ele sabia estar lá.
— Dr. Dalrymple — disse Elias, antes que Victor pudesse se apresentar.
— Como sabe meu nome?
— Eu vejo — respondeu Elias, inclinando levemente a cabeça. — Vejo mais do que deveria.
Victor sentou-se em uma cadeira de metal que estava na sala, mantendo uma distância segura. Ele não tinha medo, mas havia algo desconcertante no olhar de Elias.
— Elias, por que veio para cá?
Elias sorriu novamente e inclinou-se para a frente, os olhos brilhando com uma intensidade perturbadora.
— Porque este lugar é como eu. Quebrado. Perdido. E cheio de ecos.
— O que você quer dizer com isso?
Elias não respondeu. Em vez disso, começou a murmurar novamente, mas agora Victor podia ouvir. As palavras não faziam sentido — pareciam um amontoado de línguas antigas, algo primal e errado. Por um momento, Victor teve a sensação de que as paredes estavam se aproximando, e a sala pareceu escurecer.
— Pare com isso — ordenou Victor, levantando-se.
Elias parou imediatamente, mas o sorriso permaneceu.
— Você também tem um corredor na mente, doutor. Todos têm. Mas o seu... é mais longo. Mais escuro.
Victor deu um passo para trás. A forma como Elias falava fazia parecer que ele sabia coisas que não deveria saber.
— O que você quer de mim?
— Nada — disse Elias, cruzando as pernas e inclinando a cabeça como se estivesse avaliando algo. — Mas o que o corredor quer... isso é outra história.
Nos dias que se seguiram, eventos estranhos começaram a ocorrer no hospital. Pacientes que não tinham qualquer conexão entre si começaram a falar sobre um "corredor". Alguns disseram que o viram em sonhos; outros afirmaram que ele aparecia quando fechavam os olhos. Martha encontrou um paciente desenhando compulsivamente em sua cela. O desenho era sempre o mesmo: um corredor longo, sem fim, com portas de ambos os lados.
Victor tentou racionalizar. Tudo devia ser uma histeria coletiva, talvez causada pelo comportamento de Elias. Mas então ele começou a sonhar com o corredor também.
Nas noites insones, ele se via caminhando por aquele lugar interminável, com uma luz fraca no teto que piscava e o som distante de passos. Sempre havia algo atrás dele, algo que ele nunca conseguia ver.
Uma noite, Victor decidiu confrontar Elias novamente. Quando entrou na cela, encontrou o homem sentado exatamente como da última vez, como se não tivesse se movido.
— Você está causando isso. Quero que pare. Agora.
Elias apenas riu.
— Eu não causei nada. Você que abriu a porta. Você que caminhou para dentro.
— O que isso significa? — Victor exigiu, a raiva substituindo o medo por um instante.
Elias levantou-se, aproximando-se do psiquiatra. Mesmo sendo magro, ele parecia maior, mais ameaçador.
— A mente humana é um labirinto, doutor. E você é um explorador imprudente. O corredor sempre esteve lá. Eu apenas o ajudei a ver.
Victor recuou, sentindo o suor escorrer pela témpora. Ele tentou falar, mas sua voz falhou. Por um momento, teve a sensação de que estava de volta ao corredor do sonho. E dessa vez, ele viu uma das portas se abrir lentamente.
O que estava atrás dela o fez gritar.
No dia seguinte, os enfermeiros encontraram Victor desmaiado no chão da cela. Elias havia desaparecido. Nenhuma câmera registrou sua saída, e nenhuma porta foi aberta.
Mas os corredores do St. Agatha nunca mais foram os mesmos. Pacientes e funcionários relatavam ouvir passos e murmúrios, mesmo quando estavam sozinhos. E Victor, agora um paciente como os outros, passava os dias murmurando para si mesmo:
— O corredor está vindo... O corredor está vindo.
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SOMBRAS DA NOITE
HororEste livro de contos curtos de terror apresenta uma coleção de histórias arrepiantes e sobrenaturais. Em um dos contos, um menino descobre segredos obscuros sobre sua família ao se aventurar pelo porão proibido da casa de sua avó, onde encontra uma...
