O vento cortava a noite quente e abafada de dezembro, uma noite que deveria ser festiva, mas que parecia ser apenas uma espera ansiosa pela chegada do caos. Em Belém, no Pará, o Natal não trazia o frio das tradições do norte, mas sim o calor sufocante da Amazônia, onde as noites pareciam querer engolir as pessoas. O céu estava sem estrelas, obscurecido pelas nuvens de uma tempestade que se aproximava.
Na pequena cidade de Outeiro, os preparativos para a festa eram os mesmos de sempre: enfeites improvisados, luzes piscando em árvores tortas, e uma velha igrejinha cujos sinos nunca mais soaram com a mesma alegria desde o acidente com o padre Antonio, há alguns anos. Esse ano, no entanto, havia algo no ar, algo que não se podia tocar, mas que deixava a pele arrepiada como se as árvores, os ventos e até mesmo as águas do rio estivessem se preparando para algo.
Dentro de uma casa simples, onde o cheiro de peixe frito ainda se misturava com o aroma doce de panetones caseiros, morava a família de Dona Lurdes. Uma mulher com os cabelos grisalhos que costumavam brilhar ao sol, agora opacos como o céu da noite. Ela vivia com o filho, Jorge, um homem de 34 anos, que há muito havia perdido qualquer vestígio de alegria em seus olhos. O Natal, para eles, sempre fora uma data de perda.
— Mãe, você viu? — Jorge entrou na sala com os olhos fixos na janela, como se tivesse visto algo que ninguém mais enxergava.
— O que foi, meu filho? — Dona Lurdes continuava cortando a cebola, sem olhar para ele.
— A neve... — Jorge sussurrou, uma expressão de estranheza tomando conta de seu rosto. — A neve está caindo.
Dona Lurdes parou, a faca quase cortando o dedo, mas não se importou. A neve, no Brasil? Nunca. Isso não era possível. Ela se aproximou dele, olhou pela janela, mas nada viu além das palmeiras balançando com o vento quente. O rio, a poucos metros da casa, parecia mais selvagem que o normal, como se estivesse prestes a transbordar.
— Jorge, você está cansado, meu filho. Deve ser a sua cabeça, o calor — ela disse com a voz suave, tentando afastar o pavor que começava a tomar conta do ambiente.
Mas Jorge não se moveu. Seus olhos estavam fixos na escuridão, como se algo o chamasse, algo que ele não podia explicar, mas que sentia com a intensidade de um furacão prestes a desabar sobre ele.
— Mãe, eu vi... Eu vi a neve, caindo como uma cortina branca... — sua voz tremia.
Dona Lurdes não soube o que responder. Quando o filho estava assim, ela temia que a loucura de seu pai, que havia desaparecido misteriosamente muitos anos antes, estivesse voltando. O que ele via ou dizia não era real. Era como se o Natal, aquela época de celebrações e falsos sorrisos, trouxesse consigo um peso antigo, um peso que não podia ser ignorado.
Naquela noite, a tempestade se aproximou com uma violência inesperada. As luzes começaram a piscar, e o som do vento batendo nas palmeiras parecia o grito de algo sufocado. A porta da frente se abriu sozinha, como se algo tivesse forçado a entrada. Dona Lurdes foi até lá, sentindo o arrepio da madeira rangendo sob seus pés. Ao abrir a porta, a noite entrou, fria e cortante. Ela olhou ao redor, mas não viu ninguém. O céu estava negro, e o rio parecia ter perdido toda a calma, com as águas turbulentas quebrando as margens.
Então, algo aconteceu.
No meio da rua, entre as árvores e as sombras, uma figura apareceu. Uma mulher alta, de vestido branco, com cabelos longos que se arrastavam pelo chão. Dona Lurdes congelou. O ar parecia mais denso agora, como se o tempo tivesse parado.
A mulher levantou a mão, e os primeiros flocos de neve começaram a cair do céu.
— Mãe... — Jorge sussurrou, de pé atrás dela. Ele estava pálido, como se tivesse visto o diabo. — Quem é ela? O que é isso?
Dona Lurdes olhou novamente. A figura estava mais próxima agora, sua pele era pálida como a lua, seus olhos vazios, como os de um morto. Ela estava sorrindo.
— Não é possível... — murmurou Dona Lurdes, sem saber se deveria fechar a porta ou correr.
A mulher falou com uma voz suave, quase como um suspiro:
— Vocês chamaram, e agora eu estou aqui. O Natal nunca mais será o mesmo.
Jorge tentou gritar, mas as palavras não saíam. Ele sentia um peso, como se algo estivesse pressionando sua garganta. A figura começou a andar em direção à casa, e a neve aumentava a cada passo. As árvores pareciam se curvar para ela, como se a reconhecessem.
Dona Lurdes tentou fechar a porta, mas uma força invisível a impediu. A neve caía mais forte, e a casa parecia tremer com o peso daquilo que não deveria estar ali. Naquele momento, ela soube, com certeza, que o Natal não traria mais paz. Ele trouxera algo muito pior.
A mulher parou na porta. Seu sorriso era largo demais, seus dentes afiados demais. Ela inclinou a cabeça, como se estivesse avaliando Dona Lurdes e Jorge. Então, falou novamente:
— Eu sou a noite de Natal que vocês nunca pediram. E agora... vocês vão me receber.
As últimas palavras de Dona Lurdes ficaram presas em sua garganta, e a última coisa que ela ouviu foi o som dos sinos da igreja tocando, com um estrondo surdo e sinistro, como se estivessem batendo pela última vez.
O Natal, naquela noite, não traria alegria. Ele traria algo muito mais escuro.
VOCÊ ESTÁ LENDO
SOMBRAS DA NOITE
HororEste livro de contos curtos de terror apresenta uma coleção de histórias arrepiantes e sobrenaturais. Em um dos contos, um menino descobre segredos obscuros sobre sua família ao se aventurar pelo porão proibido da casa de sua avó, onde encontra uma...
